
Guilherme Machado Leal
O dia a dia turbulento de profissionais da área de saúde se popularizou nos anos 90, com Plantão Médico. Drama procedural, o sucesso era considerado a maior série médica até 2019, quando Grey’s Anatomy ultrapassou o número de temporadas ao bater a marca de 332 episódios, antes conquistada pela trama protagonizada por George Clooney. A partir da consolidação da produção de Shonda Rhimes, inúmeros produtos televisivos focados em médicos lançaram e conquistaram o público. No entanto, o gênero se tornou obsoleto, previsível e não mais impactante como ocorria em seus anos de ouro. Dito isso, o que faz The Pitt, produção da HBO Max, ser um frescor?
De primeira, Noah Wyle – protagonista da Melhor Série de Drama do Emmy 2025 – e os produtores John Wells e R. Scott Gemmill são a resposta. A ideia era retomar a história finalizada em 2009, mas as negociações para deter a propriedade intelectual não foram à frente. Conhecido pelo papel de John Carter durante os 11 primeiros anos de ER, o veterano se juntou aos colegas, que também fizeram parte do sucesso da NBC, e criou o cotidiano caótico localizado em Pittsburgh, na Pensilvânia.
Em sua estreia na maior premiação da televisão norte-americana, 13 indicações marcaram o início da vida profissional conturbada de Dr. Michael Robinavitch. Com a premissa de acompanhar a duração de um plantão médico, cada episódio aborda uma hora do plantão dos profissionais do Pittsburgh Trauma Medical Hospital. A partir das sete da manhã, o corpo de médicos, enfermeiros e atendentes se concentram nas suas respectivas funções. Aqui, o trabalho de equipe é como um jogo de dominós, pois as peças precisam fazer sentido em prol de um bem maior: salvar vidas.

Uma semana antes da 77ª edição, os primeiros prêmios de The Pitt ocorreram no Creative Arts Emmys Awards, isto é, o evento que premia as categorias técnicas e não televisionadas. Concorrendo com The Last of Us, Severance, Slow Horses e The White Lotus, a obra foi a vencedora em Melhor Elenco de Série de Drama com reconhecimentos para Cathy Sandrich Gelfond e Erica Berger. Ao terminar as 15 horas do primeiro ano, é evidente um dos maiores trunfos do drama médico: os atores que o encabeçam.
Seja pela competência da enfermeira Dana Evans (Katherine LaNasa, que derrotou nomes como Carrie Coon e Parker Posey em Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Drama) ou pela liderança inspiradora do chefe do pronto-socorro (Noah Wyle), os personagens altamente relacionáveis abraçam o público – desde os mais aventurados pelo gênero àqueles que colocaram a produção na lista de maratonas. Já no o episódio piloto, 7:00 A.M., indicado a Melhor Direção em Série de Drama para John Wells e a Melhor Roteiro em Série de Drama para R. Scott Gemmill, a produção obtém sucesso ao apresentar aos espectadores o mise in place de como será o plantão médico.
Os traumas da vida pessoal, os ferimentos graves e a alta demanda de pacientes equiparam-se ao tormento psicológico que acomete alguns dos funcionários do hospital. O protagonista, por exemplo, não conseguiu salvar o seu mentor, o Dr. Montgomery Adamson, que morreu durante a pandemia do Coronavírus. O tema, inclusive, é abordado por meio das crises de pânico que tomam uma parte do dia de Robby. Além da perda de um amigo, o luto se transforma na sina do doutor. No plantão, ele não pode errar. Caso algo dê errado, o homem se martiriza e relembra do momento trágico que o fez se despedir de seu veterano.

Em termos de momentos dramáticos, a superlotação dos hospitais, a indignação com os leitos insuficientes para a quantidade de pacientes e o desespero no olhar daqueles que irão perder os entes queridos se encarregam das cenas tensas e de tirar o fôlego. Além disso, o sentimento de culpa dos funcionários do Pittsburgh Trauma Medical Hospital também atuam com a carga exigida do caos provocado por uma área especializada em trauma médico. Nesse sentido, o trabalho de maquiagem – comandado por Lee Traum Key, Marie-Flore ‘Ri’ Beaubien e Leesa Simone – entrega o incômodo sentido ao ver uma fratura exposta ou órgão aberto. Não à toa o departamento foi reconhecido na premiação ao receber uma nomeação em Melhor Maquiagem Contemporânea (Não-Protética).
Apesar do gênero médico se concentrar nos casos dos pacientes e nas cirurgias realizadas, o formato possui um apelo e uma demanda que funcionam até a atualidade. Personagens bem escritos, tramas inusitadas – muitas das quais de fato ocorrem fora das telas – e o frenesi típico desse ambiente são algumas das características que conferem à produção o sentimento de frescor no catálogo da HBO Max. Por esse lado, a escolha de 15 episódios em tempos de streamings e maratonas é um alívio nostálgico, já que o modelo não é mais o padrão da televisão norte-americana.
Ocasionalmente, há obras que recebem a aclamação necessária ao longo dos anos em que estão no ar, como Game of Thrones que levou o Emmy de Melhor Série Dramática à altura de sua quinta temporada em 2015. Há também histórias completamente esnobadas, a exemplo de Better Call Saul: o spin-off de Breaking Bad possui 53 indicações e nenhuma vitória. Bom, para The Pitt, o caminho será mais fácil, visto que o drama original HBO Max ganhou a maior honraria da noite em sua estreia. Por agora, esterilizaram os bisturis e dispensaram os cirurgiões. Mas não se preocupem, pois as próximas 15 horas já foram confirmadas.
