Em Bugonia, Yorgos Lanthimos explora o limite entre a morte e a criação

Imagem de Bugonia, filme de Yorgos Lanthimos. Na foto vemos a personagem Michelle, uma mulher branca com a cabeça raspada, olhando para cima. Na região de cima da imagem escorrem dois líquidos sobrepostos, um na cor vermelha e outro na cor amarela.
Bugonia pode figurar entre os indicados no Oscar de Melhor Filme (Foto: Universal Pictures)

Vitória Borges

Exibida no Festival de Veneza de 2025, Bugonia, nova produção de Yorgos Lanthimos, faz parte da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O longa, que acompanha a história de dois jovens primos obcecados por teorias da conspiração, busca trazer uma sátira um pouco grotesca sobre os pensamentos políticos da esquerda e da direita.

Conhecido por mergulhar de cabeça em universos absurdos, repletos de humor ácido, sarcasmo e críticas sociais, o diretor grego traz, dessa vez, uma adaptação um pouco diferente do cult Salve o Planeta Verde (2003), do coreano Jang Joon-Hwan. O título de Bugonia é um termo que remete à crença antiga de que abelhas poderiam nascer a partir da decomposição de um boi morto, fazendo jus ao filme ao explorar uma narrativa construída em torno de um ciclo que mistura decadência e vitalidade, morte e criação.

Cena do filme Bugonia. Na imagem vemos a personagem Michelle, uma mulher branca com o cabelo raspado, olhando para algo em sua frente. Ela veste um casaco vermelho e camiseta de botões azul por baixo. Seu rosto está coberto por um creme branco e sua mão esquerda encontra-se ao lado de sua cabeça. Ao fundo, tudo está preto.
Emma Stone volta a protagonizar mais uma produção de Lanthimos (Foto: Universal Pictures)

 Com um brilhante elenco, esta ficção científica conta a história de Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis), dois primos que acreditam fielmente na existência de alienígenas e na dominação do nosso planeta. Consequentemente, acreditando que ela seja Andromedana, eles sequestram Michelle – CEO de uma empresa farmacêutica bilionária. Interpretada por Emma Stone, a personagem parece esconder um segredo a cada cena em que aparece, bagunçando ainda mais a cabeça do espectador.

Apesar do público estar cansado de ver Stone em mais uma obra do cineasta, parceria que acontece desde A Favorita (2018), é impossível dizer que a atriz não se entrega cem por cento. A americana, que chegou a raspar seu cabelo durante as gravações para dar mais credibilidade à produção, consegue tirar o papel de letra em sua atuação, com muito sarcasmo e uma frieza que só ela sustenta.

Abordando temas como questões ecológicas e destruição do planeta, o roteiro de Will Tracy (O Menu) é capaz de manter o frescor do desconforto clássico do diretor de O Sacrifício do Cervo Sagrado, o que influencia no uso de enquadramentos fechados na fotografia – que consegue contrastar perfeitamente o desequilíbrio da trama. A trilha sonora assinada por Jerskin Fendrix ainda é um grande acerto por parte da produção, que chegou a incluir faixas de artistas atuais como Good Luck, Baby!, de Chappell Roan.

 Cena do filme Bugonia. Na foto vemos Teddy, homem branco de cabelos longos loiros, andando de bicicleta vermelha. O personagem veste uma jaqueta cinza com shorts, tênis e mochila, ambos na cor preta, em sua cabeça usa fones de ouvido headset. Ao fundo é possível ver a rua e o que parece ser uma cidade.
O longa-metragem de Yorgos Lanthimos é um dos melhores de 2025 (Foto: Universal Pictures)

Como todo filme de Lanthimos, a obra gera desconforto, não só pelos gritos e explosões, mas também com momentos de silêncio e cenas completamente perturbadoras que envolvem coisas muito bizarras. Bugonia consegue elevar o Cinema em um novo patamar visual, com situações viscerais e pulsantes, como o universo orgânico que o próprio título evoca.

No fim das contas, é fácil acreditar que a produção nos mostra como alguém que não é um extraterrestre pode viver e salvar as abelhas, e Bugonia transmite essa mensagem melhor do que o título infantil Bee Movie, da DreamWorks. O longa é sobre ousar e apostar que a humanidade precisa ser melhor, tudo pelo bem do mundo e de todos que habitam nele.

Por mais que muitos não compreendam ou que divida opiniões, a trama é uma das mais divertidas de Yorgos Lanthimos, principalmente por cumprir seu papel em meio ao Cinema da previsibilidade. Em um cenário saturado de narrativas lineares e heróis ‘perfeitinhos’, o diretor grego continua a insistir no que sabe fazer de melhor: apostar na beleza do estranho e na vida que brota no que já parecia morto.

 

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