
Vitória Borges
Exibida no Festival de Veneza de 2025, Bugonia, nova produção de Yorgos Lanthimos, faz parte da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O longa, que acompanha a história de dois jovens primos obcecados por teorias da conspiração, busca trazer uma sátira um pouco grotesca sobre os pensamentos políticos da esquerda e da direita.
Conhecido por mergulhar de cabeça em universos absurdos, repletos de humor ácido, sarcasmo e críticas sociais, o diretor grego traz, dessa vez, uma adaptação um pouco diferente do cult Salve o Planeta Verde (2003), do coreano Jang Joon-Hwan. O título de Bugonia é um termo que remete à crença antiga de que abelhas poderiam nascer a partir da decomposição de um boi morto, fazendo jus ao filme ao explorar uma narrativa construída em torno de um ciclo que mistura decadência e vitalidade, morte e criação.

Com um brilhante elenco, esta ficção científica conta a história de Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis), dois primos que acreditam fielmente na existência de alienígenas e na dominação do nosso planeta. Consequentemente, acreditando que ela seja Andromedana, eles sequestram Michelle – CEO de uma empresa farmacêutica bilionária. Interpretada por Emma Stone, a personagem parece esconder um segredo a cada cena em que aparece, bagunçando ainda mais a cabeça do espectador.
Apesar do público estar cansado de ver Stone em mais uma obra do cineasta, parceria que acontece desde A Favorita (2018), é impossível dizer que a atriz não se entrega cem por cento. A americana, que chegou a raspar seu cabelo durante as gravações para dar mais credibilidade à produção, consegue tirar o papel de letra em sua atuação, com muito sarcasmo e uma frieza que só ela sustenta.
Abordando temas como questões ecológicas e destruição do planeta, o roteiro de Will Tracy (O Menu) é capaz de manter o frescor do desconforto clássico do diretor de O Sacrifício do Cervo Sagrado, o que influencia no uso de enquadramentos fechados na fotografia – que consegue contrastar perfeitamente o desequilíbrio da trama. A trilha sonora assinada por Jerskin Fendrix ainda é um grande acerto por parte da produção, que chegou a incluir faixas de artistas atuais como Good Luck, Baby!, de Chappell Roan.

Como todo filme de Lanthimos, a obra gera desconforto, não só pelos gritos e explosões, mas também com momentos de silêncio e cenas completamente perturbadoras que envolvem coisas muito bizarras. Bugonia consegue elevar o Cinema em um novo patamar visual, com situações viscerais e pulsantes, como o universo orgânico que o próprio título evoca.
No fim das contas, é fácil acreditar que a produção nos mostra como alguém que não é um extraterrestre pode viver e salvar as abelhas, e Bugonia transmite essa mensagem melhor do que o título infantil Bee Movie, da DreamWorks. O longa é sobre ousar e apostar que a humanidade precisa ser melhor, tudo pelo bem do mundo e de todos que habitam nele.
Por mais que muitos não compreendam ou que divida opiniões, a trama é uma das mais divertidas de Yorgos Lanthimos, principalmente por cumprir seu papel em meio ao Cinema da previsibilidade. Em um cenário saturado de narrativas lineares e heróis ‘perfeitinhos’, o diretor grego continua a insistir no que sabe fazer de melhor: apostar na beleza do estranho e na vida que brota no que já parecia morto.
