
Davi Marcelgo
Se James Cameron fosse ao médico, o profissional indicaria que ele não fizesse ego search no Google ou em redes sociais, pois ele esbarraria com duas possibilidades: as publicações que fazem a ingrata equivalência de roteiro versus visual e aquelas que especulam se o longa vai se pagar. Poucos críticos e entusiastas de Cinema querem comentar sobre o filme fora destes escopos. O cineasta não tem que provar para ninguém, exceto aos acionistas da Disney, o porquê de precisar filmar o próximo conto de Pandora. Para além disso, qual é a de Avatar: Fogo e Cinzas?
A terceira parte da franquia se distancia de seu antecessor, O Caminho da Água (2022), ao deixar de lado a contemplação do ecossistema e a fusão de gêneros narrativos. Ao introduzir o clã Metkayina, Cameron dedicou longas sequências desbravando cada centímetro da cultura daqueles seres que vivem com o mar, enquanto apresentava novos conflitos e personagens por meio da ficção científica, do drama familiar e de pequenos lastros de John Hughes. Porém, no enredo da nova história, apesar de a tribo do fogo ser novidade, o diretor não repete o que fez antes.
Avatar: Fogo e Cinzas é um filme denso – uma espécie de cura aos protagonistas – em que muitos eventos acontecem ao mesmo tempo e a trama avança, maximizando os problemas. Sully (Sam Worthington) toma uma decisão para ajudar a família a lidar com a morte de Neteyam (Jamie Flatters) e, a partir disso, consequências são desencadeadas. O roteiro (de Cameron, Amanda Silver e Rick Jaffa) tenciona questões passadas, como a insubordinação de Lo’ak (Britain Dalton), para erradicar, no clímax, todos os fantasmas que assombram essa família. Neste ponto, o longa se assemelha ao segundo: a batalha é no mesmo cenário e contra os mesmos adversários. Ali, esses personagens têm a chance de fazer diferente – e isso é feito.

Este capítulo é sobre as oportunidades que surgem para deixar o passado. Sully confronta seu nêmesis, Quaritch (Stephen Lang), com a proposta de aventurar-se em Pandora e abandonar o posto de coronel. Diante disso, o vilão perde a dicotomia estabelecida principalmente na história de 2009 (homem X natureza) e passa a ter acenos de empatia e carinho, somando novas camadas a ele, que vai se apropriar do local, de seu modo, é claro. O trio de roteiristas aproveitou a brecha para se redimir do que foi feito com Neytiri (Zoë Saldaña) em O Caminho da Água, lá a protagonista foi ofuscada pelas peripécias dos filhos e o arco de Quaritch.
No lançamento, ela retorna ao seu posto, tendo sua própria jornada e vários momentos de agência no enredo, tanto que a adição ao time de vilões, Varang (Oona Chaplin), foi feita especialmente para que existisse um desafio para Neytiri. Até terciários têm espaço para as novas narrativas, como o caçador de baleias interpretado por Brendan Cowell, que teve seu braço arrancado em um embate contra as criaturas colossais em 2022 – ele continua no exercício, utilizando uma prótese mecânica.
É notório que “conexão” é uma palavra presente nas tramas e no visual de Avatar, repare que o principal elo dos alienígenas com seu ambiente é o kuru na trança de seus cabelos. Cameron, portanto, constrói rimas para diferenciar os vínculos da humanidade e do povo Na’vi; eles se unem fisicamente com seres aquáticos rumo à batalha e os terráqueos entram em cápsulas submarinas – o espectador também se conecta com o artificial: as imagens digitais e plásticas. Ainda existe uma temática de aço contra madeira (isso fica claro na diferença gritante entre o cinza da base militar e o verde dos habitats naturais), porém a produção aprofunda essa noção.

Sendo assim, há outra pessoa interessada em conexão: James Cameron. A franquia Avatar pretende imergir o público naquele universo, seja com o 3D ou com o melodrama. Isso faz parte do texto e da forma. O canadense usa planos fechados em seus personagens diversas vezes para captar a performance dos atores, engrandecer a tecnologia de captação de movimento e para envolver o espectador. Cenários monumentais existem em qualquer blockbuster – o trailer de Mortal Kombat 2 antes da sessão começar é um exemplo –, mas poucos sabem filmar essas locações falsas como o diretor de Titanic (1997). A geografia dos espaços sempre está presente.
Os sons das ondas no horizonte, a influência do solo na luta, as árvores como esconderijos, a semelhança entre criaturas para gerar tensão e a potência dos tiros de armas para reforçar que aquele instrumento é uma novidade sedutora ao Povo das Cinzas demonstram o rigor na cenografia. Este trabalho pode passar despercebido para quem fica esperando um roteiro inovador ao invés de pensar na forma como os eventos acontecem e para aqueles que discutem se Avatar: Fogo e Cinzas vale a pena ser visto. Torcer para que um filme encha os bolsos da Disney é uma posição desconfortável, mas se essa for a única forma de James Cameron manter uma das únicas franquias interessantes e sem ramificações da contemporaneidade, então que seja.
