Por meio do voyeurismo, Animais Perigosos manifesta seu olhar sobre o Terror

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme Animais PerigososNa imagem, do ponto de vista de cima para baixo, o personagem Moses está, de costas para a câmera, preso em um gancho, servindo de isca para tubarões. Ele está pendurado, acima do mar, balançando as pernas em desespero. Na água há sangue e um tubarão nadando. No canto superior direito da foto, há a popa de um barco.
50 anos após o clássico Tubarão de Spielberg, Sean Byrne cria sua própria caçada (Foto: Diamond)

Davi Marcelgo

Sentir medo não é a única forma de se conectar com um filme de Terror. Ora, podemos ser atingidos por outras facetas, do prazer à indiferença. Essa relação é guiada por particularidades de quem assiste, como crenças, familiaridade com o gênero e sensibilidade. O Terror Frontal, aquele que dispensa a construção psicológica para assustar, parte do que está no plano para apavorar ou causar nojo. Animais Perigosos parte do voyeurismo para criar catarse e prazer – características intrínsecas do slasher mainstream.  

O Cinema foi e é formado pela presença esmagadora de homens brancos em sua produção. É claro que o olhar de quem filma será determinante para a forma como as cenas são concebidas. Sobretudo, o slasher sempre gostou de centralizar a violência em corpos femininos, embora sejam protagonistas, as final girls e suas amigas que quebram as regras são esfaqueadas por assassinos (homens) há mais de 50 anos. Sean Byrne norteia seu longa nos moldes do subgênero, colocando Zephyr (Hassie Harrison) em todo tipo de adversidade, levando-a ao extremo. 

O que torna este filme diferente de seus contemporâneos, afinal, falar de tesão pela violência não é a descoberta do fogo, é a sua frontalidade em assumir esse perfil: seu antagonista é obcecado pelo registro de tubarões devorando iscas humanas. Se, em 1978, John Carpenter fazia o espectador vestir a máscara no POV da abertura de Halloween: A Noite do Terror, Byrne, por sua vez, a cada grito emitido pela protagonista, transforma o observador em filmmaker.

Cena do filme Animais PerigososNa imagem, a personagem Zephyr está com os pulsos algemados nos braços de uma cadeira metálica. Ela está apavorada, gritando. O cenário é em um barco, atrás da personagem, em desfoque, há várias tralhas. No lado esquerdo, há uma câmera apoiada em um tripé. Está de noite e as luzes do veículo iluminam a mulher. Zephyr é uma mulher branca, de cabelos longos e loiros, na faixa dos 35 anos. Veste um uniforme de surfe na cor azul e shorts curto.
Hassie Harrison fez parte do elenco de Yellowstone (2018-2024) [Foto: Diamond]
A obsessão de Tucker (Jai Courtney) por tubarões tem origem em sua infância: ele carrega a cicatriz de uma mordida. O fascínio habita uma linha tênue entre respeito e poder sobre as criaturas, pois ele compreende a magnitude da força e instinto do predador. Porém, ao se manter distante, usando pessoas como iscas e se escondendo atrás de uma câmera, o personagem se posiciona como um cineasta que entrega ao público a catártica vitória da heroína, só que dotado de uma agência sobre seus corpos, suas ações e suas vidas, um poder na história. 

O antagonista age pela satisfação toda vez que revisita as fitas em que registra o ataque dos animais, obtendo prazer – podendo ser decifrado como a sensação de orgulho ou domínio – de cada experiência voyeurística. Os diretores e o público acenam para a mesma direção, afinal, um cria o regozijo e o outro paga para ver. Um domina, o outro goza. Nessa relação, principalmente quanto ao papel feminino nessas narrativas, muito já foi discutido e ainda é, por exemplo, a presença de mulheres como protagonistas (e sobreviventes) no gênero é apontado como uma representação boa sob a perspectiva de ter, em cena, uma mulher que não é a mocinha indefesa, mas uma lutadora (é Zephyr quem salva seu par romântico). Porém, outras leituras afirmam que essa representatividade é contraditória, pois essas personagens sempre aparecem em condições degradantes e agressivas. 

As mulheres, majoritariamente brancas, são escolhidas pela suposição de que elas representam sentimentos melhores do que homens, além da construção social sobre a delicadeza e vulnerabilidade feminina agirem como pontos para gerar empatia e sensação de ameaça para quem vê. A pesquisadora Carissa Vieira diz que existe até uma relação fálica nessa dinâmica: para obter empatia do espectador masculino, as finals girls se equivalem aos assassinos quando usam objetos em formato de pênis para se defender: facas, tacos, pistolas e serras, assim se assemelham aos homens cis.

Cena do filme Animais PerigososNa imagem, Tucker oferece, com a mão direita, uma bandeja com dois copos com bebidas e um sanduíche para Zephyr, que está no canto esquerdo da imagem, apenas com a parte de trás da cabeça visível, em desfoque. Ao fundo, há uma mulher de cabelos escuros, apenas sua testa e o topo da cabeça estão visíveis. Tucker, no centro da imagem, usa uma camisa de botões na cor azul marinho. Ele é um homem branco, de cabelos e barba loiros, na faixa dos 40 anos de idade. O cenário se trata de um quartinho em um barco cheio de encanamentos.
Nick Lepard assina o roteiro (Foto: Diamond)

Alguns filmes reforçam essa lógica, como O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986), que enquadra o equipamento na região da genitália da personagem de Caroline Williams, em uma construção de cena que remete à pornografia. Já outras obras tentaram desconstruir, criticar ou assimilar a violência nas mulheres de diferentes formas. Corrente do Mal (2014) tematiza a experiência sexual feminina e O Massacre (1982), da diretora Amy Holden Jones, incorpora os elementos sobre dominação masculina e nudez das vítimas de forma exagerada. No pôster, o assassino aparece de costas, na altura da virilha, enquanto as personagens estão no chão, apenas de lingerie, encarando a figura acima delas. 

Arraste-Me para o Inferno (2009), de Sam Raimi, perscruta o Terror Frontal a partir das relações de Christine Brown (Alison Lohman) com o mercado de trabalho e com os padrões corporais da sociedade. Ao longo das décadas, cineastas entenderam qual é a presença das mulheres nas produções e passaram a fazer narrativas que centralizassem o protagonismo para além de um corpo que apanha e revida, agora essencial para o sentido do enredo. Entre suas contradições, o slasher era o gênero hollywoodiano que ia contra o conservadorismo de Ronald Reagan (presidente dos Estados Unidos entre os anos de 1981 a 1989), havia nudez, sexo, corpos filmados e coloridos causando desejo no público, álcool e muito sangue, porém também uma moralidade embutida, através das regras do subgênero que Pânico (1996) revelou aos cinéfilos, entre elas, a castidade feminina como forma de salvação.

Cena do filme O Massacre da Serra Elétrica 2Na imagem, no canto direito, uma serra elétrica prateada encosta na região da genital de uma mulher, que está no canto esquerdo.. A parte íntima está protegida, coberta por um short jeans curto que ela usa. A pele da mulher é na cor clara e as cores da imagem são escuras, mas com a presença de tons vermelhos. Da personagem, apenas vemos o short e as coxas, que estão abertas, em posição de penetração.
Esta cena de O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986) garante discussões na bolha cinéfila até hoje (Foto: Cannon Films)

Animais Perigosos parte da consciência sobre o olhar como mediador da experiência cinematográfica e meio de difundir ideias e provocar sentimentos. Existe o prazer em ver Zephyr quebrando uma janela com a mão, arrancando o próprio dedo ou nadando de braçada por quilômetros, afinal, existe o pacto do Terror com seu público, que espera encontrar na obra o que o gênero promete: a protagonista que sofre e a sanguinolência. Mas também existe a câmera de Sean Byrne, que assimila até mesmo a catarse de Tucker sobre os tubarões, quando ele é engolido pelos animais.

A cena em slow motion, com o assassino aparecendo dentro da boca da criatura e respingos da água do mar enfeitando a lente, dá a sensação de ver o Capitão Gancho de Peter Pan (1953) ser engolido pelo crocodilo Tic-Tac. Naquele momento, a câmera, aquela que filmava as iscas de Tucker ganchadas, se esperneando para evitar o inevitável, ganha a ótica da garota final e da contemporaneidade que assume esse ponto de vista feminino em algumas narrativas. Zephyr derrota seu algoz por um instrumento masculino, mas se antes era qualquer um fálico, neste filme, passa a ser o olhar, que também é capaz de assediar e transmitir dominância.  

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