
Talita Mutti
No dia 13 de Junho de 2019, uma jovem chamada Jaylah Ji’mya Hickmon publicou um vídeo em seu canal no YouTube questionando o porquê da transição para a vida adulta ser tão difícil. Como poder investir nos próprios sonhos, se ela precisava pagar contas e lidar com a vida real? “Eu só quero atingir meus objetivos, ser uma grande estrela, […] mas eu sinto que preciso fazer uma escolha”, diz. Arriscar continuar lutando pelos seus sonhos talvez tenha sido a melhor decisão da vida de Doechii, rapper que usou um trecho de seu desabafo em uma das faixas de sua mixtape Alligator Bites Never Heal, lançada em Agosto de 2024. Com o projeto, se tornou a terceira mulher a faturar o Grammy de Melhor Álbum de Rap na história da premiação, além de ter sido uma das nomeadas ao prêmio de Artista Revelação, junto de Sabrina Carpenter e a vencedora Chappell Roan.
Com uma lírica e narrativa complexas, Doechii lançou uma mixtape que reafirmou seu potencial como rapper na indústria musical. Alligator Bites Never Heal possui um nome e simbolismo que dão muito significado ao projeto – jacarés (tradução de alligator) são animais predominantes da Flórida, estado em que a compositora nasceu. Além disso, eles também são animais que conseguem se adaptar a diversos tipos de meio ambiente, fazendo com que sejam mais resistentes. Essa foi a comparação que a cantora fez consigo mesma ao mostrar que ela é do tipo de artista que se perpetua em diferentes momentos e ambientes da cena, sem deixar sua essência se corromper, desenvolvendo o conceito em toda a narrativa.
A compositora já havia lançado outros projetos que a colocaram nos holofotes. Seu EP de 2020, Oh The Places You’ll Go, carrega hits virais, como Yucky Blucky Fruitcake, que fizeram a cantora assinar com a Top Dawg Entertainment (TDE), mesma gravadora de Kendrick Lamar. Em 2022, Doechii lançou seu segundo EP, she / her / black bitch, pela TDE. Logo no ano seguinte, ela fez colaborações com grandes nomes na cena, como Kodak Black no single What It Is (Block Boy), que marcou sua entrada na Billboard Hot 100 e faturou a certificação de platina pela Recording Industry Association of America (RIAA). A ironia aqui é que muitos fãs que consomem hip-hop questionaram o tipo de artista que Doechii gostaria de estabelecer na cena. Uma rapper cantando pop? Para o fã que ainda tem dúvidas sobre isso, ela trouxe a resposta em Alligator Bites Never Heal.
Com referências profundas aos ícones do hip-hop e um flow que dita o ritmo do álbum, a rapper desenvolve uma sequência de faixas que se interligam entre si. Há uma construção inteligente da lírica em toda a mixtape; sem economizar nas rimas, ela mescla o significado dos versos ao pegar palavras com diferentes significados e com sons parecidos. Inicialmente, reconhecemos uma jovem adulta narrando seus pensamentos mais sinceros e externando-os em uma sequência de três faixas. Começamos com STANKA POOH, BULLFROG e BOILED PEANUTS, que possuem uma temática introspectiva, com medos universais e inseguranças da artista. “E se eu engasgar com este Slurpee? E se eu fizer sucesso?/E se meu carro explodir enquanto estou casualmente abastecendo e fumando um cigarro?“, pondera em STANKA POOH.
Entretanto, Doechii usa da sequência para externar os medos e enfrentá-los ao mesmo tempo. A rapper não dá espaço para a vulnerabilidade. Ela não pode se dar ao luxo de ser vista como fraca. “E se esses forem os únicos medos que levarei para o túmulo/Estou mijando em vocês, vadias, viva ou morta“, conclui. Em CATFISH, uma das faixas mais famosas da mixtape, ela traz à tona a falsidade, a mentira e o desgaste social. Doechii é agressiva e não aceita o fato de alguém estar à espreita, esperando uma brecha para atacar. Ela é impaciente com pessoas que falam, sondam e que, na verdade, não são ninguém.

A compositora parece se provar em cada verso. Ela é a “Madonna do hip-hop”. São barras e barras afirmando que ela é a maior e melhor, e a forma como ela externa isso realmente faz você não querer duvidar dela. Aqui é importante citar o flow impecável. A artista constrói sua lírica de maneira fluida, parecendo que as palavras seguidas uma das outras formam um corpo que tem um encaixe perfeito no projeto. Além de investir em rimas que agradam sonoramente, ela também usa e abusa de metáforas que, para entender, é necessário prestar atenção no que ela tem a dizer. Na faixa STANKA POOH, “Eu sujo os tênis e os coloco de volta na caixa/Como se fosse os Looney Tunes de volta em estoque”, a cantora se refere à uma coleção que a animação fez com a Nike e revela que é uma metáfora de como ela gosta propositalmente de destruir, desmontar e sujar coisas ‘brilhantes’. “Do jeito que eu venho […] exatamente como entrei na indústria, eu só gosto de sujar as coisas e depois colocá-las de volta na prateleira”, menciona a rapper em entrevista sobre o projeto.
Mesmo com uma sequência mais voltada para o hip-hop, a artista não deixa o pop de fora. No final do projeto, encontramos outra série de faixas interligadas entre si, mas dessa vez com uma temática e melodias diferentes. Em BLOOM, reconhecemos uma menina jovem com sonhos que, até então, eram impossíveis de serem alcançados. Surge o desespero em se tornar alguém na vida que ela se orgulhe, ao mesmo tempo, é necessário saber pôr os pés no chão e lidar com o mundo real, com as pessoas ao seu redor e consigo mesma. Na faixa, ela se conecta com aqueles que se veem em uma posição parecida e estão estagnados. Só que, logo depois, Doechii muda completamente de perspectiva e tranquiliza o ouvinte em WAIT, trazendo uma temática reconfortante que abraça e serve de apoio para aqueles que têm sonhos destruídos e estão insatisfeitos. Para ela, a vida “é como um acordo, esperando você sacar a dela”. Se entender como ela funciona, é possível alcançar os objetivos que deseja – e aqui ela tem lugar de fala, uma vez que foi nomeada em três categorias do Grammy 2025 ‘apenas’ acreditando em si mesma.
No projeto como um todo, é possível observar a sinceridade de cada faixa que Doechii compôs. BOOM BAP serve como resposta para aqueles que questionam a forma como ela mistura rap, pop e outros gêneros, característica que a destaca na cena. DENIAL IS A RIVER narra um acontecimento real da vida da artista, mas de uma forma dinâmica que traz o ouvinte a acompanhar uma sucessão de acontecimentos que facilmente seriam retratados em uma sitcom, como foi feito no próprio videoclipe.
Vale citar que o trabalho de Doechii nesse projeto não focou tanto na produção. O beat nas faixas em que o rap predomina é constante e monótono. Não é como se a música não tivesse altos e baixos, pelo contrário: ela só não precisou desse recurso, bastou o flow para ditar a crescente de cada faixa. Usando referências fortemente ligadas à essência do hip-hop, a compositora mostra que ela é o que o legado que o gênero forneceu. Em NISSAN ALTIMA, a artista usa uma referência do videoclipe de Alright, de Kendrick Lamar, ao compor uma cena cantando no carro com os membros da produtora, gesticulando enquanto canta, assim como o rapper. Em CATFISH, a cantora usa de referência Woo-Hah!! Got You All In Check, de Busta Rhymes, que também serve de inspiração para a música de Kendrick. Woo-Hah!!, por sua vez, cita o grupo de hip-hop The Sugarhill Gang – que, coincidentemente, utiliza o som ‘woo hah’ inspirado em DJ Hollywood, um dos progenitores do rap e do hip-hop.
Doechii, sem saber, trilhou o mesmo caminho que muitas figuras do hip-hop trilharam antes dela. Ela é o tipo de artista que respeita e aprende com aqueles que a antecederam. Em entrevista, ela menciona nomes que a inspiraram no processo de se tornar a artista que queria ser: Beyoncé como mulher negra e autêntica à frente da indústria musical; Kanye West como um produtor que veio do completo nada, mas que sabia do seu potencial e provou para o mundo, através de disciplina e insistência, quem ele é. Ela acrescenta, ainda, que a virada de chave em sua vida para juntar ambição e talento para viver da Música veio por meio do álbum The Miseducation of Lauryn Hill (1998). Diante disso, Doechii mostra que tem o repertório necessário para se tornar um dos grandes nomes da cena atual. Ela exala a cultura do rap, mesmo se arriscando no pop e R&B, conseguindo sustentar com maestria o que produz. Ela pode fazer tudo, ou melhor, ela é “tudo!”, como grita a rapper ao final de BOOM BAP.

Vencedora de um Grammy sem nem mesmo ter lançado seu álbum de estreia, Doechii fez um discurso sincero na cerimônia de premiação que emocionou e revelou o tipo de artista que ela é. Uma sonhadora que, mesmo enfrentando diversos desafios em sua trajetória, apostou em si mesma para crescer e se orgulhar do que se tornou. “Eu sei que tem uma garota preta, tem muitas mulheres negras me assistindo. Eu quero dizer para vocês: vocês conseguem! Tudo é possível. Se vocês quiserem, é possível. Não permitam que ninguém projete estereótipos sobre vocês. […] Vocês são exatamente quem deveriam ser“, afirmou em sua fala, com o gramofone em mãos. Hoje, ela serve de inspiração para outras jovens como ela, elevando a autoestima e confiança daquelas que são ou já foram rejeitadas pela sociedade.
Alligator Bites Never Heal é um soco no estômago da cena do rap, que ainda se mantém majoritariamente masculina nos Estados Unidos. Trata-se de uma mixtape que transita entre diferentes gêneros ao longo das faixas, mas sem perder a essência do hip-hop, trazendo inovação e dinamismo ao estilo. Doechii desenvolveu o projeto a partir de experiências pessoais e vivências sensíveis, que moldaram tanto sua identidade como artista quanto como pessoa. O resultado é um trabalho sincero e transparente, que desperta a curiosidade do público sobre quem é essa jovem e qual seu potencial para o futuro na cena musical. Nesse caso, não será necessário esperar muito, já que ela anunciou seu álbum de estreia para 2025, em entrevista à revista Variety.