
Mariana Bezerra
Toda história de amor deveria poder ser vivida em alto e bom som, mas, nas trincheiras, resistem aquelas que precisaram criar uma melodia própria – e silenciosa – para si. A História do Som, dirigido por Oliver Hermanus, é baseado em um conto homônimo de Ben Shattuck, responsável pela adaptação do próprio texto em roteiro. O longa teve sua primeira exibição no Brasil na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo nas seções Foco Reino Unido e Perspectiva Internacional. O filme apresenta a música em um lugar quase de protagonista e mergulha na Quarta Arte para contar a história de Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor), dois artistas que se conhecem em Boston, no fim da década de 1910, e cuja relação reverbera para muito além de sua breve duração.
The History of Sound, título original, traz dois atores que estão em voga e cuja fama vem acompanhada de uma jornada convincente sobre seus talentos. No longa em questão, ambos conseguem definir bem seus personagens através de suas performances – o que, nesse caso, não significa limitá-los, porém expressar justamente as camadas que os constroem. Lionel foi criado em uma fazenda no Kentucky, onde se apaixonou por música popular. Ele tem laços muito fortes com a sua família; é um homem doce, que está descobrindo o mundo, de certa forma – e o faz de um modo tímido e com o coração sempre perto de casa. David, por outro lado, cresceu em uma lógica familiar marcada pelo luto; órfão desde cedo, foi criado pelo tio, falecido há pouco tempo, e que o influenciou na paixão musical.
Os cursos de vida de ambos os protagonistas parecem criar espaços para que um possa completar o outro. O encontro, no primeiro momento, é marcado pela paixão que compartilham e uma coreografia perfeita: uma troca de olhares sensível e um gestual carregado de leveza. Apesar de carnal à princípio, Hermanus nunca deixou que a natureza desse encontro fosse pura, uma vez que ele provoca diálogos que revelam uma conexão que vai além da atração física, mas que explica de onde ela surge. Aqui, a parceria de Hermanus e Shattuck carrega algo extraordinário: a capacidade de gritar no silêncio. Durante todo o filme, existe um ar de desejo, um sentimento estranho de que essa relação parece nunca chegar perto de seu ápice. E isso é completamente proposital.

A ambientação nos anos 1920 é feita com maestria. Muito mais do que reconstruir uma época com cenários e caracterização, o longa consegue fazer retratos específicos dos lugares pelos quais percorrem os personagens. Entre eles: a faculdade de música, em Boston, a fazenda no Kentucky onde Lionel foi criado, Roma e Londres, onde esse também vive em alguns períodos, além das vilas, nos Estados Unidos. Nessas pequenas civilizações, ambos os protagonistas passaram coletando canções folk em um fonógrafo de cilindro, o primeiro aparelho gravador, com o objetivo de guardá-las para a posteridade.
O termo em inglês, folk, faz referência ao folclore, ao que é popular dentro de uma comunidade e tange muito mais o que é ‘dito’ e ‘por quem’ é dito do que ‘como’ e em que ‘ritmo’. Assim, os dois músicos mergulham na intimidade dessas histórias, através das canções, enquanto estreitam seus laços. Afinal, é nessa jornada, isolada da cidade e das outras partes de suas vidas, que a conexão dos dois ganha espaço físico para se expandir. Esse é um contexto em que ser queer é, inevitavelmente, algo vivido no silêncio. É nele que, de novo, a coreografia e as atuações encontram um meio para se expressarem sem precisarem de uma única palavra.
Existe uma sutileza ao transmitir a dor de quem gostaria de abraçar e beijar o parceiro que parte para a guerra. No entanto, quando Lionel vê David vestido em sua farda, é seu corpo quem fala: sua garganta se movimenta transportando de volta para dentro o choro que insiste em sair. A viagem dos dois é justamente o reencontro após esse momento. Em seguida, depois de um desentendimento, Lionel segue para Roma, e então para Londres, onde exerce funções de prestígio e se envolve em outras relações, inclusive com uma mulher. É claro para o espectador e para os personagens que ilustram essa nova vida do protagonista que existe um resíduo de passado nele, algo que o descola da realidade: o luto por algo que poderia ter sido mais.

Apesar da melancolia que a realidade social força sobre a história do casal, a forma como a conexão entre eles se apresenta é muito genuína e terna. Especialmente, durante a viagem em conjunto ou a qualquer momento em que falam sobre música. Infelizmente, (ou não) nem o texto, nem a direção conseguem impor sobre a narrativa um esquecimento dessa dor que é um fato histórico. Nesse sentido, é interessante que a repressão não seja um tópico discutido diretamente pelo casal, que, com certeza, a sentem, mas se ocupam em falar sobre o universo interno da relação.
Muitas vivências têm o poder de marcar a vida dos envolvidos para sempre, e expressar essa potência nas telas não é uma tarefa fácil. Para cumpri-la com êxito, Shattuck cria uma linha do tempo em que a narrativa de Lionel e David ecoa: após a morte de sua mãe (Molly Price), o primeiro decide ir à cidade em que o ex-parceiro e eterno amor morou, para recuperar os cilindros das gravações que fizeram. No local, ele descobre que essa viagem não havia sido um pedido da universidade em que David trabalhava, como ele havia afirmado – na verdade, tratava-se de um projeto pessoal. Além disso, ele encontra uma personagem inesperada: a esposa do então professor e em uma condição ainda mais perturbadora – a de viúva.
Belle (Hadley Robinson) entrega ao personagem de Mescal as cartas que recebeu dele após a morte do marido. Nesse momento, a atriz também se destaca conseguindo retratar esse novo conflito da trama. Entre o ciúme, o luto e a compreensão do amor que aquele homem sentia pelo seu parceiro falecido, ela se expressa de forma confusa e emotiva, completamente natural. Filmes são feitos por humanos para outros humanos, e, portanto, é primordial que seus personagens tenham a liberdade para agir como tal.

Aquele pedaço de vida compartilhado entre Lionel e David era tão valioso que ele não recebe um desfecho nesse encontro com Belle. Na verdade, ele nunca acontece. Nos anos 80, Lionel, agora interpretado por Chris Cooper, se tornou um professor de música e escritor. Ele publica um livro sobre a jornada musical com seu ‘amigo’ – descrição que aponta, ainda que indiretamente, para as questões sociais que circundam essa história. Apenas nesse momento, décadas depois, o músico consegue acesso aos cilindros com as gravações das canções. Muito mais do que isso, aquela caixa com pequenos tubos metálicos materializa algo que estava invisível na sua alma e no ar, assim como as ondas mecânicas que compõem o que chamamos de som.
A História do Som cria uma narrativa que reflete amores e traumas sem deixar as lindas partes de um encontro de lado. Apesar da tragicidade, fica claro que os criadores entendem que uma jornada não precisa durar para sempre para ser considerada importante. Cooper tem uma performance mágica, que transmite tudo que essa relação continua a provocar dentro dele mesmo que tanto tempo depois. Além disso, a presença de canções folk incríveis nas vozes dos atores completa a sensibilidade do enredo.
Os envolvidos nessa narrativa constroem algo encantador, que emociona pelo amor que se viveu e por tudo mais que lhes foi roubado. Uma das músicas mais marcantes da história é a que David estava escrevendo enquanto vivia em Boston. Nela, uma pessoa chora a morte da amada sob seu túmulo; ela pede para que ele a deixe descansar. Esse desejo do personagem musical nunca foi respeitado. Talvez, David pensasse tal qual sua criação, mas a verdade é que estamos inclinados a fazer como o homem da canção e como Lionel. O que o filme de Hermanus nos mostra é que ser ouvido é um privilégio, e enquanto ele o for, o registro será uma forma de amar e de lembrar do que um dia foi a época mais feliz da vida de alguém.
