![[Texto alternativo: O ator Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, está localizado no centro da foto, olhando para seu filho Carlinhos, à esquerda. Ao fundo, há um céu nublado e acinzentado.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-800x444.jpg)
Tão emblemática quanto polêmica, Marighella, cinebiografia dirigida por Wagner Moura, completa cinco anos em Novembro de 2024. Inspirado no livro Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães, o filme foi o primeiro trabalho do ator como diretor de Cinema e emplacou como uma de suas produções mais complexas, desafiadoras e, sobretudo, emocionantes. A partir do fascínio do cineasta por movimentos populares de resistência, fica claro que o longa-metragem foi pensado a partir da necessidade de recontar a história da Ditadura Militar por um ponto de vista mais vermelho e visceral.
O Carlos Marighella da história nasceu em Salvador e foi o mais velho de oito irmãos. Seu pai, Augusto Marighella, era um imigrante italiano que veio para o Brasil em uma das ondas de incentivo à imigração após a abolição. No século XIX, sua mãe, Maria Rita dos Santos, era filha de escravos e tinha origem sudanesa, da etnia haussá. Desde cedo, o menino se destacava pela habilidade com as palavras na escola. Anos mais tarde, ele teria se radicalizado e passado a militar como deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), com o qual rompeu após a renúncia de João Goulart. Depois, juntou-se à Aliança Nacional Libertadora (ANL), pela qual lutou até o ano da sua morte (1969).
![[Texto alternativo: Na foto, há quatro pessoas enumeradas da esquerda para a direita, sendo elas Seu Jorge, Wagner Moura, Bruno Gagliasso e Bella Camero, segurando uma camiseta vermelha de tom vibrante com o rosto de Carlos Marighella. O fundo atrás é de cor azul e é do Festival Internacional de Cinema de Berlim.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-800x481.jpg)
Em 2019, o longa tinha sido cancelado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) devido à produtora não ter entregue a documentação sobre os investimentos que custearam o filme dentro do prazo. Ao mesmo tempo, a agência era ameaçada de extinção caso o seu catálogo não fosse revisto. Isso foi mais uma adição à lista de dificuldades que quase custaram a estreia de Marighella.
![[Texto alternativo: Ao centro da foto, nota-se Carlos Marighella (Seu Jorge) vestindo uma regata branca com uma blusa azul claro de manga por cima. Ele aparenta estar conversando, dada a abertura da boca e a direção dos seus olhos. No fundo, há uma parede de tom esverdeado, devido à iluminação, com alguns objetos encostados nela, como um lampião, dois bastões e um vaso de planta.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-800x487.jpg)
A sucessão rápida e violenta das cenas fomenta sensações de ansiedade e tensão no espectador, com o objetivo de transmitir a adrenalina, o amor pelo próprio país e o medo das personagens. As câmeras são rápidas para acompanhar os momentos de embate e fuga dos combatentes, mas também conseguem captar fielmente a essência de cenas mais paradas de diálogo, com sombreados sempre presentes e que se tornam responsáveis pela carga de seriedade. A narrativa progride com a execução de membros da ALN: primeiro Maria (Ana Paula Bouzas), depois Guilherme (Guilherme Ferraz), Rafael (Rafael Lozano), Humberto (Humberto Carrão), Jorge (Jorge Paz) e Jorge Salles (Herson Capri).
Era questão de tempo para que as autoridades chegassem até o protagonista e a ambientação, marcada pelo maior contraste das cores e iluminação escurecida, também incita essa agonia. O trabalho com as câmeras – com direção de Adrian Teijido – e o uso dos diferentes tipos de luz foram essenciais para acompanhar toda a dinamicidade da luta armada no ambiente urbano. Além disso, o trabalho de produção, coordenado por Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck, contou com muitas cenas gravadas no período da noite, quando a penumbra intensifica as expressões das personagens e as sensações incitadas no público.
![[Texto alternativo: O GIF mostra um recorte do trailer oficial do filme Marighella, em que o guerrilheiro (Seu Jorge) está olhando fixamente para a câmera e se aproxima enquanto ela o grava. Há um fundo amarronzado, borrado e escuro por trás da personagem. Em seguida, os nomes do diretor e do longa são exibidos.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-4.gif)
O fardo da morte, em Marighella, é tratado da forma mais fria possível. O lado amargo da luta armada é retratado a todo momento ao mostrar a discrepância entre guerrilheiros e militares, esses que tinham todo o aparato bélico e midiático a seu favor. A ambientação sombria das cenas evidencia a solidão e desumanização dos combatentes que, enquanto questionadores, não eram vistos e nem tratados como brasileiros. A angústia e melancolia tomam conta do enredo e de quem o assiste como uma neblina, dificultando a digestão de cenas mais leves, que se tornam cada vez mais escassas frente às diversas cenas gráficas de violência.
![[Texto alternativo: À direita da fotografia, o ator Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, carrega seu filho nos braços, que os envolvem no pescoço. O adulto está de cabeça baixa, enquanto a criança observa a passagem de militares pelas ruas do Rio de Janeiro.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1.jpg)
Marighella passa obrigatoriamente pelo campo de debate político e dialoga com aqueles que têm interesse em conhecer os valores de uma das pessoas mais controversas do país, seja para questioná-la ou admirá-la. Apesar do salto temporal do enredo para os dias atuais, muitas questões permanecem as mesmas, especialmente a distorção dos fatos sobre o revolucionário. A obra conseguiu entregar uma cinebiografia condizente com a história conturbada e mal interpretada de Carlos, permanecendo como uma crítica ácida à sociedade brasileira.
