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	<title>Arquivos Estante do Persona Fevereiro de 2022 &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Estante do Persona Fevereiro de 2022 &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Apr 2023 20:51:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori Outono. Todo encontro com o Outro revela-se como uma experiência de arrebatamento: da violência de deixar um pedaço de si e desprender-se da unidade do Eu ao movimento da alteridade de achar-se nos olhos do desconhecido. No caso da antropóloga Nastassja Martin, ressonante no livro Escute as feras, a experiência é do deslumbramento &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/escute-as-feras/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30726" aria-describedby="caption-attachment-30726" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-30726" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-800x420.png" alt="Imagem retangular de fundo branco. No canto superior, está centralizado a logo do Persona, um olho com íris na cor cinza e pupila em preto no formato triangular de play. Ao lado da logo, está o selo “Clube do Livro” em letras transparentes colocadas sobre um fundo preto. Abaixo está escrito “Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin” em letras pretas, sendo &quot;escute as feras&quot; em letras cinzas. Mais abaixo, no canto esquerdo, há a capa do livro cujo fundo é branco. Na parte superior direita da capa, há o nome da autora Nastassja Martin escrito em letras pretas. Na parte superior esquerda, há o título do livro “Escute as Feras” escrito em letras pretas. Mais abaixo, está uma ilustração de um borrão preto com uma silhueta similar ao de um urso. Ao lado direito da imagem da capa, está o escrito &quot;Ao encontrarem-se uma no olhar da outra, a antropóloga e a ursa, próximas a um vulcão no extremo leste siberiano, marcam mutuamente os seus destinos e fundem a condição de fera e humana.&quot; em letras pretas. Abaixo do texto está escrito “Por&quot; em letras pretas e &quot;Enzo Caramori&quot; em letras cinzas." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS.png 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30726" class="wp-caption-text">Nastassja Martin esteve na programação principal da 20ª Flip junto a Tamara Klink na mesa ‘‘<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Gcn42bH6IkA">Desterrando o susto</a>’’, e seu Escute as feras foi a leitura do Clube do Livro do Persona em Fevereiro (Foto: Editora 34/Arte: Ana Cegatti)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outono. Todo encontro com o Outro revela-se como uma experiência de arrebatamento: da violência de deixar um pedaço de si e desprender-se da unidade do Eu ao movimento da alteridade de achar-se nos olhos do desconhecido. No caso da antropóloga </span><a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/noticias/flip/cinco-curiosidades-sobre-nastassja-martin"><span style="font-weight: 400;">Nastassja Martin</span></a><span style="font-weight: 400;">, ressonante no livro </span><a href="https://www.editora34.com.br/detalhe.asp?id=1111&amp;busca=escute%20as%20feras"><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a experiência é do deslumbramento de um beijo e da brutalidade de um ataque e contra-ataque. Ao encontrarem-se uma no olhar da outra, a antropóloga e a ursa, próximas a um vulcão no extremo leste siberiano, marcam mutuamente os seus destinos e fundem a condição de fera e humana.</span></p>
<p><span id="more-30721"></span></p>
<p><a href="https://leituras.org/escute/"><span style="font-weight: 400;">Ursa-mulher e mulher-ursa</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma foge para dentro da bruma, com pedaços de uma mandíbula e ferida por um quebra-gelo; a outra, guarda-se na neve, vermelha de seu próprio sangue. Na falta do que se doou na troca desse primal encontro, refunda-se um sistema de crenças de povos como os </span><a href="https://www.editionsladecouverte.fr/a_l_est_des_reves-9782359251241#:~:text=Apr%C3%A8s%20avoir%20travaill%C3%A9,monde%20sa%20vitalit%C3%A9."><i><span style="font-weight: 400;">evenki</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – estudados por Martin em 2015, quando é desfigurada – em que a predestinação do enlace de seus destinos é a base do exercício da vida, animal e humana, em comunidade. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras, </span></i><span style="font-weight: 400;">trazido ao Brasil pela tradução de Camila Boldrini e Daniel Lühmanné, é regido pelo atrito que a própria autora estabelece entre si mesma e sua imersão em modelos de visualização da vida vinculados ao </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1010200620.htm"><span style="font-weight: 400;">animismo</span></a><span style="font-weight: 400;">: uma união do ambiente e da existência humana e animal em um único fluxo vital. </span><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Miêdka”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e “</span><i><span style="font-weight: 400;">matukha”</span></i><span style="font-weight: 400;"> são termos do idioma </span><i><span style="font-weight: 400;">even</span></i><span style="font-weight: 400;"> que identificam sua condição de sobrevivência e transmutação, após o enfrentamento com o urso, à situação anormal de humanidade que lhe é atribuída. À </span><a href="https://erratanaturae.com/autores/nastassja-martin/"><span style="font-weight: 400;">antropóloga</span></a><span style="font-weight: 400;">, esse estado de pária estrutura uma mudança na maneira que enxerga a si mesma – em um espaço de excepcionalidade, um tanto </span><a href="https://www.newyorker.com/books/page-turner/learning-to-love-the-bear-that-attacked-you#:~:text=I%20assumed%20that,of%20her%20experience."><span style="font-weight: 400;">inadequado</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao seu desenvolvimento de pesquisadora –, que altera o tom etnográfico para, também, hibridizar o texto.</span></p>
<figure id="attachment_30723" aria-describedby="caption-attachment-30723" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-30723" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-800x471.jpg" alt="Foto em preto e branco da antropóloga Nastassja Martin. No primeiro plano, uma mulher branca, de cabelos loiros presos em um coque desarrumado que cai em sua nuca. Ela olha ao horizonte e está vestida com uma blusa clara e um casaco, similar a uma jaqueta, preto. Ao fundo, montanhas rochosas e um céu nebuloso." width="800" height="471" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-800x471.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-1024x602.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-768x452.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-1200x706.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1.jpg 1224w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30723" class="wp-caption-text">Orientada pelo antropólogo Philippe Descola, Nastassja Martin escreve sua tese de doutorado sobre o povo Gwich’in, do Alasca (Foto: Alexandre Lacroix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Estilisticamente, Martin constrói um registro experimental e total do que se dedicou a analisar, no exercício de sua ciência, e de suas inscrições sensíveis aos acontecimentos, meticulosamente medidas pela sua escrita. Entre a etnografia e a autobiografia, a metodologia de Martin é o cruzamento de dois cadernos de viagem, descritos como diurno e noturno. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro tem suas páginas preenchidas por notas de viagem, fragmentos do que percebe em sua imersão com os </span><i><span style="font-weight: 400;">even </span></i><span style="font-weight: 400;">e a desperta atenção, mesmo com todos os dilemas que atravessam a etnografia. O segundo é do âmbito da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=D7Z6AZnD9hc"><span style="font-weight: 400;">escrita do sonho</span></a><span style="font-weight: 400;">, que evoca o íntimo e o exterior numa poética de imagens quase ritualísticas, como pinturas rupestres que reincidem um mundo do sentimento selvagem e da máxima expressão da vida, na igualdade da relação animal ou humana. São contrastes significativos tanto em sua maneira de visualização do mundo e de sua própria sobrevivência que, na narrativa, não se institui de uma moralização da violência nem de um arco de redenção; quanto de sua escrita: variável de momentos cirúrgicos de descrição a até fluxos bestiais e oníricos de prosa.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">‘‘Fantasmático do desejo próprio às florestas, aos predadores solitários, à sua raiva, ao seu orgulho e à sua vigília. Tensão de seus encontros inesperados, inconfessáveis, improváveis, em devir, no entanto. Porque sozinhos eles se perdem, porque sozinhos eles se fecham, porque sozinhos eles esquecem. O cruzamento de seus olhares os salva de si mesmos ao projetá-los na alteridade daquele que os enfrenta. O cruzamento de seus olhares os mantém vivos.’’</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Na dualidade estabelecida à estrutura de seu texto, a autora mobiliza a etnografia para a escrita de si quando desafiada a </span><a href="https://www.philomag.com/articles/nastassja-martin-je-minteresse-la-possibilite-dune-metamorphose"><span style="font-weight: 400;">redescobrir</span></a><span style="font-weight: 400;"> a si mesma – com seu rosto desfigurado, do qual a ursa tomou-lhe parte da maçã do rosto e da mandíbula –, nesse novo território tomado de tensões: o seu próprio corpo. As questões psicológicas que a atravessam durante transferências incessantes por antigos hospitais da antiga ordem soviética, onde é posta à selvageria dos procedimentos médicos e legais envolvendo nacionalidade e gênero, é onde pensa um motivo maior a seu fatal encontro, que lhe propõe um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2021/10/antropologa-perdoa-urso-que-a-atacou-em-livro-que-iguala-homens-e-animais.shtml"><span style="font-weight: 400;">novo significado</span></a><span style="font-weight: 400;"> por ainda estar viva. Portanto, no equívoco de sua epistemologia mas no exercício de uma liricidade autobiográfica, a evidente marca deixada pela espécie companheira à crença </span><i><span style="font-weight: 400;">even </span></i><span style="font-weight: 400;">é mais uma oportunidade individual de entender-se do que realmente uma maneira de debruçar-se sobre sua estrutura de pesquisa.</span></p>
<figure id="attachment_30724" aria-describedby="caption-attachment-30724" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-30724" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear.jpg" alt="Rascunho feito a grafite pelo artista expressionista Edvard Munch. Na esquerda, observa-se um vulto de uma mulher ajoelhada abraçando um urso, não preenchido, o que lhe dá a impressão de ser branco ou claro. Os traços de grafites são evidentes. À direita, observa-se uma figura parecida, no entanto a mulher está mais agachada e abraça um urso agora escuro, negro, preenchdio pelo grafite." width="800" height="607" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear-768x583.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30724" class="wp-caption-text">‘‘Há tempos vim preparando o terreno que me levaria até a boca do urso, em direção ao seu beijo’’ (Arte: Edvard Munch)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda é tempo das mitologias. Existe, nos gestos conflitantes do enquadramento de seu encontro com a ursa — muitas vezes descrito enquanto um abraço e um beijo — uma determinada </span><a href="https://thebaffler.com/latest/bear-witness-goldman"><span style="font-weight: 400;">eroticidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que parte da percepção de uma afetação, para além de necessariamente, de afeto, na qual a violência torna-se um espaço de proximidade inigualável. Se </span><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma fábula calculada nesses contrastes e escrita sobre a tradição indígena do sonho explorada por Ailton Krenak e pelas filosofias yanomami estudadas por </span><a href="https://gamarevista.uol.com.br/semana/sonhou-com-o-que/hanna-limulja-fala-da-cultura-yanomami-a-partir-de-seus-sonhos/"><span style="font-weight: 400;">Hanna Limulja</span></a><span style="font-weight: 400;">, sua moral naturalmente reivindica outros modos de vida, ou, como colocado pela pensadora </span><a href="https://personaunesp.com.br/eo-critica/#:~:text=pensadora%20Donna%20Haraway"><span style="font-weight: 400;">Donna Haraway</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">autre-mondialisation</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; (outra-mundialização). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o pulso ferino de primalidade toma conta da experimentação de Nastassja Martin, é pela memória que constrói um espaço conjunto e verdadeiro. Aquele que, como nas imagens feitas a dedo em escuras grutas, remonta um </span><a href="https://autonomialiteraria.com.br/sonho-de-outras-feras/"><span style="font-weight: 400;">passado mágico</span></a><span style="font-weight: 400;"> e possível, por outros exercícios de fazer o mundo, onde a técnica não colocou um corpo acima do outro, uma mulher abaixo de um homem e um humano-bixo acima de outras vidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escavar o susto é, para essa </span><a href="https://12ft.io/proxy?q=https%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2021%2F12%2Fescute-as-feras-nos-desperta-o-desejo-de-conhecer-um-urso.shtml"><span style="font-weight: 400;">narrativa de sobrevivência</span></a><span style="font-weight: 400;"> tomada de divagações — importantes para a composição do retrato sensível de si mesma —, encontrar sua própria essência, ao mesmo tempo que acessa a realidade antropológica da península de </span><span style="font-weight: 400;"> Kamtchátka, o lugar de</span><span style="font-weight: 400;"> seus estudos. Para a mitologia </span><i><span style="font-weight: 400;">even, </span></i><span style="font-weight: 400;">o olhar do urso em si não é perigoso pela tentativa de vingança do antropocentrismo ou do domínio de um espaço vital, mas sim pelo fato de que, nos olhos da animalidade humana, as outras formas de vida encontram-se e entendem a si próprias em sua condição de alteridade. </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/11/24/books/review-in-eye-of-wild-nastassja-martin.html"><span style="font-weight: 400;">A ursa</span></a><span style="font-weight: 400;"> é tanto atacada por Nastassja – uma fera, em seus próprio papel – quanto devolve o susto, em uma metáfora da vida real sobre o misterioso assombro que é entender a si no outro.</span></p>
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		<title>Carolina Maria de Jesus e o Quarto de despejo persistem</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Mar 2022 18:53:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Lopes Gomez Das confissões mais íntimas de Carolina Maria de Jesus, surge Quarto de despejo. Mesmo com mais de 1 milhão de cópias vendidas &#8211; 10 mil só na primeira semana -, tendo ganhado traduções para 13 idiomas e sendo comercializado em mais de 40 países, o nome da autora não significava tanto, à &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/quarto-de-despejo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Carolina Maria de Jesus e o Quarto de despejo persistem"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26714" aria-describedby="caption-attachment-26714" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26714" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-800x420.jpg" alt="Montagem com a capa do livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada. Ao centro, em frente a um fundo amarelo, vemos a capa azul clara. No topo, vemos grafismos em branco, que aparentam imitar a silhueta das casas de uma favela. Ao centro, vemos a palavra “QUARTO” e, abaixo, “de DESPEJO”, em branco, uma letra sem serifa, estilizada. Logo abaixo, vemos as palavras “Diário de uma favelada”, em branco. Abaixo, vemos as palavras “CAROLINA MARIA DE JESUS”, em caixa alta, em uma fonte serifada e branca. Na parte inferior central, vemos o logo da editora Ática e, logo abaixo, as palavras “editora ática”, em caixa baixa e em branco." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26714" class="wp-caption-text">Quarto de despejo foi o livro debatido em Fevereiro pelo Clube do Livro do Persona; hoje, 14 de março, sua autora completaria 108 anos (Foto: Editoria Ática)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Lopes Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das confissões mais íntimas de Carolina Maria de Jesus, surge </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo com mais de 1 milhão de cópias vendidas &#8211; 10 mil só na primeira semana -, tendo ganhado traduções para 13 idiomas e sendo comercializado em mais de 40 países, o nome da autora não significava tanto, à época, quanto agora &#8211; que ainda é pouquíssimo, se comparado aos devidos créditos merecidos. Mulher negra, mãe solo, moradora da favela, antes de ter seus diários publicados, a luta do dia a dia de Carolina era por comida. </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-10-08/carolina-maria-de-jesus-a-escritora-da-favela-que-virou-fenomeno-editorial.html"><span style="font-weight: 400;">Seus escritos</span></a><span style="font-weight: 400;"> sempre foram importantes para ela, mas nunca mais do que os filhos e o árduo trabalho diário, o único meio de alimentá-los.</span></p>
<p><span id="more-26694"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, na favela do Canindé, a poeta &#8211; como ela mesmo se intitulava &#8211; foi encontrada. A descoberta aconteceu corriqueiramente, quando o jornalista Audálio Dantas caçava uma reportagem no local, no final da década de 50. Ele buscava retratar o cotidiano e as pessoas que ocupavam aquele espaço, mas os relatos de Carolina, escritos em mais de 35 diários encontrados onde ela vivia, contavam a história do lugar e de seus habitantes melhor do que qualquer matéria jornalística faria. E assim foi: compilando e editando os cadernos da autora, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g4iqwB1QUn8"><span style="font-weight: 400;">Dantas</span></a><span style="font-weight: 400;"> primeiro publicou trechos nos jornais </span><i><span style="font-weight: 400;">Folha de São Paulo</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">O Cruzeiro</span></i><span style="font-weight: 400;">; depois, a coletânea final foi lançada em 1960 como o livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26695" aria-describedby="caption-attachment-26695" style="width: 680px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26695" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/foto-audalio-dantas.jpg" alt="" width="680" height="470" /><figcaption id="caption-attachment-26695" class="wp-caption-text">Em 2022, o Instituto Moreira Salles organizou a exposição “Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros”, dedicada à trajetória e produção literária da autora (Foto: Editora Malê)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na obra, Carolina Maria de Jesus retrata as vivências na favela, que, antes de ser </span><a href="https://treinamento24.com/library/lecture/read/373070-como-era-a-favela-do-caninde-em-1960"><span style="font-weight: 400;">desocupada</span></a><span style="font-weight: 400;">, ficava às margens do Rio Tietê, em São Paulo. Documentando o dia a dia, ela discorre sobre a fome, sobre as condições de moradia, saneamento básico e saúde, sobre as relações e dinâmicas interpessoais, preconceitos e violências, e sobre o estado de invisibilidade social a qual os favelados eram submetidos. Inclusive, apesar da autora deixar claro sua aversão pela vida que era obrigada a levar, ela emprega “favelados” não como uma injúria, mas descrevia os moradores da comunidade se reconhecendo entre eles.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como Audálio Dantas constatou, o livro é um documento digno de uma análise sociológica, mas mesmo um profissional da área não conseguiria entender a totalidade das palavras escritas por Carolina. “</span><i><span style="font-weight: 400;">É um documento que um sociólogo poderia fazer estudos profundos, interpretar, mas não teria condição de ir ao cerne do problema e ela teve, porque vivia a questão</span></i><span style="font-weight: 400;">”, </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-03/brasil-lembra-centenario-de-escritora-que-definiu-favela-como-quarto-de"><span style="font-weight: 400;">afirmou</span></a><span style="font-weight: 400;"> o jornalista na época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante as 200 páginas do trabalho, a autora conta situações, misturando-as com sentimentos e percepções. Em um trecho, por exemplo, ela descreve a fome em cores. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Mesmo que as </span><span style="font-weight: 400;">condições de precariedade</span><span style="font-weight: 400;"> fossem conhecidas, Carolina, que </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/14/cultura/1521065374_369396.html"><span style="font-weight: 400;">as viveu</span></a><span style="font-weight: 400;">, as colocou no papel melhor do que qualquer escritor de ficção ou repórter conseguiria, simplesmente por entendê-las. “</span><i><span style="font-weight: 400;">A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela escreve em outro momento.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visitas com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quanto estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo</span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais triste que seja, é a pessoalidade da poeta que torna </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">potente, impactante e triste como é. Características essas que se estendem à Literatura de Carolina. Antes de rumar a São Paulo, em 1937, e à favela do Canindé, em 1947, </span><a href="https://ponte.org/carolina-maria-de-jesus-a-escritora-que-ainda-precisa-ser-conhecida-e-reconhecida/"><span style="font-weight: 400;">Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;"> nasceu no interior de Minas Gerais, vinda de família simples, sofreu maus tratos na infância e frequentou a escola por menos de dois anos. O pouco tempo de estudo, porém, foi o suficiente para que ela desenvolvesse gosto pela leitura e pela escrita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que não haja provas concretas, é provável que a autora tenha sido autodidata. Semianalfabeta, os livros tiveram influência em sua vida, como ela mesmo destaca em trechos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">: em mais de um momento, ela declara o desejo de comprá-los e lamenta que gaste o pouco dinheiro que ganha somente com alimentos. O papel importante da Literatura também é percebido na forma como ela escreve: misturado à redação com erros gramaticais e expressões próprias, </span><a href="https://ims.com.br/exposicao/carolina-maria-de-jesus-ims-paulista/"><span style="font-weight: 400;">Carolina</span></a><span style="font-weight: 400;"> emprega um vocabulário rebuscado, provavelmente espelhado de obras que consumia.</span></p>
<figure id="attachment_26696" aria-describedby="caption-attachment-26696" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26696" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-800x518.jpeg" alt="Recorte de jornal antigo. O recorte de jornal, duas páginas abertas, mostra, do lado esquerdo, uma foto em preto e branco de Carolina Maria de Jesus escrevendo em um caderno. Ao lado dela, vemos o título “A fome fabrica uma escritora” e um bloco de texto. Na página da direita, vemos duas fotos em preto e branco, uma seguida da outra ao longo da página. A primeira mostra crianças brincando e um menino pulando de braços abertos. A segunda mostra crianças e mulheres adultas pegando alguma coisa do chão de grama, às margens de um rio." width="800" height="518" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-800x518.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-1024x663.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-768x497.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-1200x777.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26696" class="wp-caption-text">“Será que Deus sabe que existe as favelas e que os favelados passam fome?” (Foto: O Cruzeiro)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">narra o cotidiano completo da favela. Escritos ao mesmo tempo que a autora trabalhava como catadora de papel para sustentar a </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/netas-de-escritora-carolina-maria-de-jesus-dizem-viver-quarto-de-despejo-2.shtml"><span style="font-weight: 400;">família</span></a><span style="font-weight: 400;">, os diários ganhavam mais páginas completas quando sobrava tempo. Em trechos, ela descreve a penosa rotina: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Saí indisposta, com vontade de deitar. Mas, o pobre não repousa. Não tem o privilegio de gosar descanço</span></i><span style="font-weight: 400;">” e “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando</span></i><span style="font-weight: 400;">” são alguns dos exemplos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E se a obra é sobre a favela, sob o olhar e as palavras de uma favelada, o vocabulário próprio de Carolina é fundamental para o entendimento do livro e da jornada de sua autora. Erros gramaticais, de concordância e pontuação, além do uso de expressões próprias, foram mantidas em todas as edições publicadas e destacam ainda mais para o dom de Maria de Jesus. As peculiaridades do texto de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-fevereiro-de-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> o tornam cru: dos diários, íntimos e pessoais, ouvimos a versão dela sobre sua própria vida, impactante por si só.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Passei no Frigorífico, peguei uns ossos. As mulheres vasculham o lixo procurando carne para comer. E elas dizem que é para os cachorros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até eu digo que é para os cachorros…</span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da intimidade dos diários, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qRjDmmWAFEo"><span style="font-weight: 400;">Carolina Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;"> não escondia que tinha o sonho de publicá-los. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Tem hora que eu odeio o repórter Audalio Dantas. Se ele não prendesse o meu livro eu enviava os manuscritos para os Estados Unidos e já estava socegadaI</span></i><span style="font-weight: 400;">”, escreve. Inclusive, a poeta usava seu trabalho como sua arma, tanto para manter a esperança no presente, para o futuro, quanto para se portar frente aos outros moradores do Canindé. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela declara, depois de citar nomes e descrever situações ao pé da letra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/09/01/obra-musical-de-carolina-maria-de-jesus-vem-a-tona-em-exposicao-sobre-a-escritora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">voz da escritora</span></a><span style="font-weight: 400;">, porém, já chegou a ser desacreditada. Como disserta Maria Lúcia de Barros Mott, no artigo </span><i><span style="font-weight: 400;">Escritoras negras: resgatando a nossa história</span></i><span style="font-weight: 400;">, alguns críticos “</span><i><span style="font-weight: 400;">olhavam com reservas a obra de Carolina, negando inclusive a autoria de seus livros, atribuindo Quarto de despejo ao jornalista Audálio Dantas. E esta não é a primeira vez que o livro de uma escritora negra tem autoria atribuída ao apresentador da obra</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Os descréditos foram constantes, mas a obra, de início, foi sucesso de vendas Brasil à fora e chamou atenção do </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/08/4944037-casa-de-alvenaria-de-carolina-de-jesus-recupera-diario-da-escritora.html"><span style="font-weight: 400;">mercado literário</span></a><span style="font-weight: 400;"> nacional.</span></p>
<figure id="attachment_26697" aria-describedby="caption-attachment-26697" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26697" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-2.jpg" alt="" width="800" height="662" /><figcaption id="caption-attachment-26697" class="wp-caption-text">Carolina Maria de Jesus faleceu em Fevereiro de 1977, aos 62 anos, vítima de uma crise de insuficiência respiratória (Foto: Acervo UH/Folhapress)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O problema veio poucos anos depois. O </span><i><span style="font-weight: 400;">boom </span></i><span style="font-weight: 400;">arrecadou elogios e reconhecimentos para Carolina, suficientes, inclusive, para que ela realizasse o sonho de sair da favela do Canindé. Ela, os filhos José Carlos e João José e a filha Vera Eunice </span><a href="https://elle.com.br/cultura/carolina-de-jesus"><span style="font-weight: 400;">foram residir em Santana</span></a><span style="font-weight: 400;">, bairro de classe média em São Paulo. Porém, logo, Jesus, seus escritos e os assuntos sobre os quais escrevia foram esquecidos, condenados à indiferença, mais uma vez. Prova disso é o livro</span> <span style="font-weight: 400;">ser estudado e disseminado em países estrangeiros mais do que nacionalmente: </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">virou </span><a href="https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/livro-de-carolina-maria-de-jesus-e-resgatado-em-vestibulares-da-ufrgs-e-unicamp-40-anos-apos-morte-de-escritora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">leitura obrigatória em vestibulares</span></a><span style="font-weight: 400;">, pela primeira vez, só em 2017, 40 anos depois da morte da escritora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desinteresse se estende à autora, mesmo depois de falecida. </span><a href="https://deliriumnerd.com/2019/09/04/diario-de-bitita-a-infancia-de-carolina-maria-de-jesus/"><i><span style="font-weight: 400;">Diário de Bitita</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra póstuma, foi publicado primeiro na França, em 1982, e somente quatro anos depois chegou ao Brasil. Esse </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/"><span style="font-weight: 400;">apagamento</span></a><span style="font-weight: 400;">, porém, não foi &#8211; e não é &#8211; surpresa. Em meio ao governo de Juscelino Kubistchek, em que o avanço prometido não se estendia às populações marginalizadas, Carolina também denunciava os políticos e as instituições, assistencialistas e oportunistas, que pouco se mobilizavam para mudar as condições da favela e só visitam o local em época de eleições. “</span><i><span style="font-weight: 400;">O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela defende.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não me convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não pode lutar com os produtos da Natureza. Deus criou todas as raças na mesma epoca. Se criasse os negros depois os brancos, ai os brancos podia revoltar-se”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Os diários de Maria Carolina de Jesus, além de oferecerem o cruel panorama da realidade da favela, também destacam a personalidade de sua autora. Em meio à luta diária por </span><a href="https://g1.globo.com/google/amp/sp/sao-paulo/noticia/2021/10/08/pessoas-buscam-ossos-de-carne-na-cacamba-de-descarte-do-mercadao-centro-de-sp.ghtml"><span style="font-weight: 400;">sobrevivência</span></a><span style="font-weight: 400;">, Carolina se mostrava extremamente perspicaz e contundente em suas percepções. As farpas aos políticos explicitavam isso, mas a poeta também criticava os próprios moradores locais, que, segundo ela, reforçavam a barbaridade, e os provocava para a necessidade de </span><a href="http://www.justificando.com/2018/02/21/livro-quarto-de-despejo-e-suas-questoes-juridicas/"><span style="font-weight: 400;">revolta</span></a><span style="font-weight: 400;">, ao invés de aceitarem as precariedades. Muito consciente e crítica da sociedade, ela também comentava sobre sua independência como mulher, em não ser casada por opção e conseguir criar e sustentar os filhos sozinha, e dissertava sobre questões de raça e classe.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma obra completa, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t3dzlAr4euo"><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">mostra a realidade nua e crua, melhor do que qualquer reportagem faria. A narrativa forte, difícil e tocante é, também, surpreendente, principalmente pela naturalidade e verdade de sua autora. Merecidamente, Carolina Maria de Jesus foi reconhecida com o título de doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2021, uma homenagem póstuma. Antes disso, em vida, teve de se mudar de Santana para um sítio em Parelheiros, extrema zona sul de São Paulo, no que seus livros já não emplacavam mais. Hoje, 45 anos após a morte da escritora, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">persiste: </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/cerca-de-8-da-populacao-brasileira-mora-em-favelas-diz-instituto-locomotiva/"><span style="font-weight: 400;">17,1 milhões</span></a><span style="font-weight: 400;"> de pessoas vivem em favelas, em todo o Brasil.</span></p>
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		<title>Estante do Persona &#8211; Fevereiro de 2022</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Mar 2022 20:49:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Fevereiro oficializou uma tradição do Clube do Livro: se no começo não passava de um mero acaso, cinco meses depois, os membros da Editoria não conseguiram mais negar que são as autoras que dominam nossas leituras em grupo. Com o Mês da Mulher em mente, a decisão pela obra da segunda rodada do ano não &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-fevereiro-de-2022/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona &#8211; Fevereiro de 2022"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26364" aria-describedby="caption-attachment-26364" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26364 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/capa_wordpress_estante_fevereiro_22.png" alt="Arte retangular de cor amarela. Ao centro há uma estante branca com três prateleiras. A primeira prateleira é dividida ao meio, a segunda prateleira é dividida em três e a terceira prateleira é dividida em três. Na parte superior lê-se em preto 'estante’, na primeira prateleira lê-se em preto 'do persona', à direita nessa prateleira está a logo do Persona, um olho com íris amarela. Na segunda prateleira, ao meio, está a capa do livro “Quarto de despejo”. Na terceira prateleira, à direita, está o troféu com a logo do persona. Na parte inferior lê-se em branco ‘fevereiro de 2022'." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/capa_wordpress_estante_fevereiro_22.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/capa_wordpress_estante_fevereiro_22-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/capa_wordpress_estante_fevereiro_22-768x404.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26364" class="wp-caption-text">Conversando com o Mês da Mulher, a quinta edição do Estante do Persona foi ambientada pela leitura do Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus (Foto: Reprodução/Arte: Vitor Tenca/Texto de Abertura: Vitória Lopes Gomez)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Fevereiro oficializou uma tradição do Clube do Livro: se no começo não passava de um mero acaso, cinco meses depois, os membros da Editoria não conseguiram mais negar que são as </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">autoras</span></a><span style="font-weight: 400;"> que dominam nossas leituras em grupo. Com o Mês da Mulher em mente, a decisão pela obra da segunda rodada do ano não poderia ser diferente. A escolhida? Carolina Maria de Jesus e seu impactante </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contemplando, também, o mês de aniversário da escritora, o Clube mergulhou em sua primeira história não-ficcional, e uma das produções mais doloridas lidas em conjunto até então. Publicado em 1960, o livro foi um achado do jornalista Audálio Dantas, que se deparou com Carolina e seus diários ao reportar o cotidiano da favela do Canindé, na cidade de São Paulo. Por sorte, </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-11-30/o-que-audalio-dantas-fez-com-carolina-maria-de-jesus.html"><span style="font-weight: 400;">Dantas</span></a><span style="font-weight: 400;"> reconheceu o poder daquela documentação e revelou ao mundo o simples, mas potente, dom da autora de contar sua história. Da vida de Carolina Maria de Jesus, nasceu </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo: Diário de uma favelada</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No encontro único de Fevereiro, os membros do projeto literário do Persona se chocaram com os </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-novembro-de-2021/"><span style="font-weight: 400;">relatos</span></a><span style="font-weight: 400;"> crus e cruéis da obra. Também, exercitaram seu entendimento das vivências do outro, investigaram o título do trabalho, se impressionaram com a figura articulada e à frente de seu tempo que foi Carolina, além de discutirem o valor das narrativas não-ficcionais. De acordo, o Clube compreende que a importância de uma história verídica é documentar e fazer entender a realidade de quem escreve.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de se surpreenderem com as similaridades das </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-janeiro-de-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> com nosso mundo, os membros mergulharam na vida real, de fato. Firme e forte em suas leituras, renovadas no mês dedicado a </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">, o Persona continua empenhado em expandir seu escopo de gêneros e obras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nisso, o projeto aproveitou o gás dos encontros mensais e emplacou a renovação da colaboração com a </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">: agora, o projeto ganha o crachá de Parceria Fixa. Enquanto os próximos conteúdos do mundo literário não chegam, o </span><b>Estante do Persona </b><span style="font-weight: 400;">segue com seus comentários e com as Dicas do Mês, de obras escritas exclusivamente por autoras, em homenagem ao Mês da Mulher.</span></p>
<p><span id="more-26347"></span></p>
<h3><b>Livro do Mês</b></h3>
<figure id="attachment_26356" aria-describedby="caption-attachment-26356" style="width: 518px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26356" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/quarto-de-despejo-518x800.jpg" alt="Capa do livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada. A capa é azul clara. No topo, vemos grafismos em branco, que aparentam imitar a silhueta das casas de uma favela. Ao centro, vemos a palavra “QUARTO” e, abaixo, “de DESPEJO”, em branco, uma letra sem serifa, estilizada. Logo abaixo, vemos as palavras “Diário de uma favelada”, em branco. Abaixo, vemos as palavras “CAROLINA MARIA DE JESUS”, em caixa alta, em uma fonte serifada e branca. Na parte inferior central, vemos o logo da editora Ática e, logo abaixo, as palavras “editora ática”, em caixa baixa e em branco." width="518" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/quarto-de-despejo-518x800.jpg 518w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/quarto-de-despejo-663x1024.jpg 663w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/quarto-de-despejo-768x1187.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/quarto-de-despejo-994x1536.jpg 994w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/quarto-de-despejo-1325x2048.jpg 1325w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/quarto-de-despejo-1200x1854.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/quarto-de-despejo.jpg 1618w" sizes="auto, (max-width: 518px) 85vw, 518px" /><figcaption id="caption-attachment-26356" class="wp-caption-text">Em sua segunda edição de 2022, o Estante do Persona adentra Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, e dá dicas de obras escritas por mulheres (Foto: Ática)</figcaption></figure>
<p><b>Carolina Maria de Jesus &#8211; Quarto de despejo (200 páginas, Ática)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na favela do Canindé, na cidade de São Paulo, os diários de Carolina Maria de Jesus documentavam a realidade do local e de seus moradores. A coletânea desses relatos deu origem a </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Como Audálio Dantas, o jornalista responsável por publicar os escritos, já antecipava quando trombou com </span><a href="https://ims.com.br/por-dentro-acervos/o-impacto-da-miseria-viva/"><span style="font-weight: 400;">Carolina</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra não só destaca a potente capacidade da autora de colocar em palavras uma totalidade de vivências, mas mostra que a visão interna da situação serve melhor do que qualquer reportagem sobre o assunto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hoje desocupada, a favela se faz quase um personagem principal. Dentro da comunidade em que vive, Carolina descreve a fome &#8211; incessamente recorrente, a ponto de motivar cortes de trechos na primeira edição publicada -, as incertezas e as dores de uma vida de privações e precarizações, todas incorporadas naquele ambiente. Os “favelados” de Carolina Maria de Jesus não são pejorativos, são simplesmente os moradores daquele local, o mesmo que o dela, que vivem e convivem com as mesmas situações. Além do tema de </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo: Diário de uma favelada</span></i><span style="font-weight: 400;">, um relato impactante e brutal sobre o cotidiano na favela, a </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/livros/a-literatura-de-carolina-maria-de-jesus-do-quarto-de-despejo-para-mundo-13843687"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> da autora se destaca: apesar de simples e com um vocabulário próprio, a condução do livro mergulha o leitor na realidade, tornando-a ainda mais impactante.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Quarto de Despejo - Clube do Livro Fevereiro 2022" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/1ZzmkJOK9lMgjyr93iO8JY?si=80afd793a00f4642&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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<h2>Dicas do Mês</h2>
<figure id="attachment_26355" aria-describedby="caption-attachment-26355" style="width: 534px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26355" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/svetlana-1-534x800.jpg" alt="Capa do livro Meninos de Zinco, da escritora Svetlana Aleksiévitch. Na imagem colorida, vemos ao lado esquerdo um soldado soviético prestando continência com a mão direita levada à testa.Ele veste uma jaqueta militar de cor marrom, uma camiseta branca com listras azuis e uma ushanka de cor cinza, que se convencionou a chamar de chapéu russo. Ele é um homem branco de olhos azuis. À direita, está escrito na parte superior Da vencedora do prêmio nobel de literatura 2015, em fonte de cor branca. Abaixo, escrito svetlana aleksiévitch em fonte de cor branca e meninos de zinco, também em fonte de cor branca. Na parte inferior, está o logo da editora Companhia das Letras, também em fonte de cor branca. O fundo da imagem é um borrão embaçado, com predominância das cores azul e cinza." width="534" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/svetlana-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/svetlana-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/svetlana-1-768x1151.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/svetlana-1-1025x1536.jpg 1025w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/svetlana-1-1367x2048.jpg 1367w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/svetlana-1-1200x1798.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/svetlana-1.jpg 1655w" sizes="auto, (max-width: 534px) 85vw, 534px" /><figcaption id="caption-attachment-26355" class="wp-caption-text">Com tradução de Cecília Rosas, Meninos de Zinco retrata o horror da guerra através do olhar sempre humano de Svetlana Aleksiévitch (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Svetlana Aleksiévitch &#8211; Meninos de Zinco (368 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre 1979 e 1989, as tropas soviéticas se envolveram em uma guerra horripilante no Afeganistão; pouco depois, em 1991, a União Soviética declarou sua dissolução. Em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14560"><i><span style="font-weight: 400;">Meninos de Zinco</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1991), a jornalista </span><a href="https://www.otempo.com.br/diversao/nao-contenho-as-lagrimas-diz-svetlana-aleksievitch-sobre-novo-livro-1.2514478"><span style="font-weight: 400;">Svetlana Aleksiévitch</span></a><span style="font-weight: 400;"> se debruça sobre o ocorrido, e tenta jogar luz aos motivos ocultos que fizeram jovens pegarem em armas e depois serem devolvidos às famílias em caixões de zinco lacrados. Nesse contexto bélico, pequenos momentos cotidianos ganham uma beleza inexplicável, transcritos nas páginas do livro em forma de verdade cortante. Todavia, a humilhação vivida pelos sobreviventes que retornaram à URSS é igualmente confusa, deixando em evidência os sentimentos intensificados que foram levados às últimas consequências durante o período.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente do que ocorre em </span><a href="https://personaunesp.com.br/uma-mulher-alta-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Guerra Não Tem Rosto de Mulher</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1985) – obra igualmente fantástica –, na qual Svetlana narra do ponto de vista de mulheres ex-combatentes na Segunda Guerra Mundial, aqui, a autora realmente cobre o conflito como uma repórter de guerra no Afeganistão, porém, seu estilo permanece inalterado quando decide não misturar sua própria voz narrativa com a das pessoas entrevistadas – as verdadeiras protagonistas dos livros. Além de entrevistas com combatentes soviéticos, a escritora vai atrás de vozes afegãs, estabelecendo um autêntico mosaico polifônico de histórias orais. A obra de Svetlana Aleksiévitch demorou para chegar ao Brasil, pois somente em 2016 a editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras </span></i><span style="font-weight: 400;">começou a publicá-la, um ano depois da autora ter recebido o </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2015/10/svetlana-alexievich-vence-nobel-de-literatura-2015.html"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é estranho afirmar que os livros da escritora ucraniana se complementam, pois uma informação deixada de lado ou não aprofundada em um deles – como o ideal soviético que fez com que os </span><i><span style="font-weight: 400;">meninos de zinco </span></i><span style="font-weight: 400;">fossem às guerras – é totalmente explorado em outros livros – como em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14084"><i><span style="font-weight: 400;">O Fim do Homem Soviético</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2013). Dentre as obras de Svetlana, tanto </span><i><span style="font-weight: 400;">Meninos de Zinco </span></i><span style="font-weight: 400;">quanto </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14085"><i><span style="font-weight: 400;">Vozes de Tchernóbil</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1997) – adaptado na premiada série </span><a href="https://personaunesp.com.br/1986-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Chernobyl</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2019), da </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i><span style="font-weight: 400;"> – profetizam a derrocada da União Soviética, e ajudam a entender a marca profunda e permanente deixada pela guerra. </span><strong>&#8211;</strong><b> Bruno Andrade</b></p>
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<figure id="attachment_26350" aria-describedby="caption-attachment-26350" style="width: 536px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26350" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/aline-1-536x800.jpg" alt="Capa do livro Pequena coreografia do adeus. A imagem é composta por uma ilustração abstrata, que mostra duas figuras. A primeira está segurando a segunda, que cai para trás, mas é segurada pelos braços da primeira. As cores são em tons de rosa e laranja e os rostos das figuras são desenhados abstratamente com cinza. Ao redor da segunda figura, está o nome do livro, em caixa alta e preto, do lado direito da capa. Na linha inferior e ao centro, está o nome da autora, na mesma estilização do título do livro. Embaixo, em tamanho menor, está escrito “Autora de O peso do pássaro morto”. No canto inferior direito, está o selo da editora Companhia das Letras. " width="536" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/aline-1-536x800.jpg 536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/aline-1.jpg 686w" sizes="auto, (max-width: 536px) 85vw, 536px" /><figcaption id="caption-attachment-26350" class="wp-caption-text">Como parte da parceria com a Companhia em 2021, o Persona teve acesso ao livro e ainda entrevistou a autora (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Aline Bei &#8211; Pequena coreografia do adeus (264 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Rodopiando entre o desafeto familiar e o senso de despertencimento, Júlia Terra não desiste de criar raízes e firmar seu papel nesse mundo tão ao avesso. Para tal, a aspirante a bailarina se mune das palavras de sua criadora, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-melhores-livros-de-2021/"><span style="font-weight: 400;">talentosíssima Aline Bei</span></a><span style="font-weight: 400;">. Seguindo o lançamento do aclamado e premiado </span><a href="http://www.achadoselidos.com.br/2018/01/31/resenha-o-peso-do-passaro-morto/"><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, publicado de maneira independente, a escrita migra para uma casa editorial para dar vida a sua dança de despedida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, lançamento do ano passado e um dos grandes destaques literários do momento, a trama segue os descompassos de Júlia, uma garota muito machucada pelas circunstâncias de sua infância, a falta de ligação emocional com a mãe e o rombo no peito causado pela ausência do pai. A fim de se libertar de todos esses galhos secos que poluem sua paisagem natural, Aline Bei e Júlia Terra se dão as mãos, passeando pelas dificuldades da vida, sempre unidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escrita em forma de versos espaçados (e que calcificam a estética em adição ao fator narrativo da obra) imprime uma ótica muito particular para a visão de Bei, alguém à flor da juventude e </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">com muitas histórias para contar</span></a><span style="font-weight: 400;">. O amargo está na curta duração do livro, já que menos de trezentas páginas estão longe do suficiente para suprir a carência da Literatura enriquecedora dali. Como leitor, descobrir situações triviais sob esse olhar particular da autora é um deleite, um rastro de mel abaixo da colmeia. A esperança reside no que vem por aí: e que Aline Bei continue enxergando o mundo como só ela o faz. </span><b>&#8211; Vitor Evangelista</b></p>
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<figure id="attachment_26354" aria-describedby="caption-attachment-26354" style="width: 533px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26354" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/ravena-1-e1646620145304-533x800.jpg" alt="Capa do livro Jovens Titãs: Ravena. A imagem é uma ilustração da super-heroína Ravena. Ela está com o rosto de perfil, virado para a esquerda, com o queixo apoiado em seus braços dobrados. Ravena é uma jovem branca, de cabelos roxos, lisos e curtos; ela usa um headphone em sua cabeça. Na parte superior, há a frase “Assim que começar a ler Jovens Titãs: Ravena, você não vai querer parar - Stephanie Garber, autora best-seller do New York Times pela série Caraval”, em fonte preta. Abaixo, está escrito “Autora da série Beautiful Creatures e best-seller do New York Times, Kami Garcia” em fonte roxa. Em cima do braço de Ravena, está escrito “Jovens Titãs Ravena” em fonte verde. E, ao lado, está escrito “Ilustrado por Gabriel Picolo”." width="533" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/ravena-1-e1646620145304-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/ravena-1-e1646620145304.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 533px) 85vw, 533px" /><figcaption id="caption-attachment-26354" class="wp-caption-text">A coletânea já ganhou continuação com as obras Jovens Titãs: Mutano e Teen Titans: Beast Boy Loves Raven, esta última ainda não lançada no Brasil (Foto: Panini)</figcaption></figure>
<p><b>Kami Garcia &#8211; Jovens Titãs: Ravena (192 páginas, Panini) </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre </span><a href="https://personaunesp.com.br/vingadores-ultimato-critica/"><span style="font-weight: 400;">Vingadores</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/liga-da-justica-de-zack-snyder-critica/"><span style="font-weight: 400;">Liga da Justiça</span></a><span style="font-weight: 400;">, se tem um grupo de super-heróis que também nunca deixa de ficar em alta é o dos Jovens Titãs. Com as </span><a href="https://personaunesp.com.br/titas-3a-temporada-critica/"><span style="font-weight: 400;">inúmeras adaptações</span></a><span style="font-weight: 400;"> para as telinhas, agora foi a hora de reinventá-los nos quadrinhos, resgatando a história da sombria Ravena. Escrito por Kami Garcia, </span><i><span style="font-weight: 400;">Jovens Titãs: Ravena</span></i><span style="font-weight: 400;"> se propõe a contar uma nova versão das origens da anti-heroína criada por Marv Wolfman. Aos 17 anos, Ravena Roth sofre um trágico acidente de carro, que acaba por tirar a vida de sua mãe, e também a sua memória. Com isso, ela vai morar com a tia em Nova Orleans, contando com a companhia de sua prima Max para recomeçar em meio ao conturbado Ensino Médio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Compondo o selo </span><i><span style="font-weight: 400;">DC Teens</span></i><span style="font-weight: 400;">, a HQ assume um teor diretamente voltado ao público mais jovem, tratando sobre a descoberta dos poderes de Ravena, de uma forma menos sinistra da que estamos acostumados, ao mesmo tempo que ela tem que lidar com interesses amorosos e questões de sua adolescência. E a história não poderia ter saído das mãos de uma autora mais ideal que Kami Garcia, responsável pela saga </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g0Oo3brIJIQ"><i><span style="font-weight: 400;">Dezesseis Luas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Beautiful Creatures</span></i><span style="font-weight: 400;">), ganhando ainda mais força com os traços do ilustrador brasileiro Gabriel Picolo, que ficou conhecido justamente por </span><a href="https://www.omelete.com.br/quadrinhos/jovens-titas-20-artes-de-gabriel-picolo-que-transformaram-os-herois#3"><span style="font-weight: 400;">desenhar </span><i><span style="font-weight: 400;">fanarts</span></i><span style="font-weight: 400;"> do grupo</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">Jovens Titãs: Ravena</span></i><span style="font-weight: 400;"> não cria nenhuma narrativa inovadora, mas faz o essencial ao trazer um olhar voltado para uma nova geração, originando uma história importante sobre laços familiares e força feminina. Além de ter a chance de poder recontar a trajetória de uma das heroínas mais interessantes do mundo dos quadrinhos.</span><b> &#8211; Vitória Silva</b></p>
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<figure id="attachment_26349" aria-describedby="caption-attachment-26349" style="width: 529px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26349 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a-esperanca-1-529x800.jpg" alt="Capa do livro A Esperança. Um fundo azul com símbolos circulares em um tom mais escuro, no centro da imagem um tordo branco - pássaro fictício do mundo de Jogos Vorazes - está voando. Na parte de cima da capa está o nome do livro em letras grandes brancas e na parte de baixo, a direita, está o nome Suzanne Collins também em branco. " width="529" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a-esperanca-1-529x800.jpg 529w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a-esperanca-1-678x1024.jpg 678w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a-esperanca-1-768x1161.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a-esperanca-1-1016x1536.jpg 1016w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a-esperanca-1-1355x2048.jpg 1355w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a-esperanca-1-1200x1813.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a-esperanca-1.jpg 1618w" sizes="auto, (max-width: 529px) 85vw, 529px" /><figcaption id="caption-attachment-26349" class="wp-caption-text">Em 2021, a saga Jogos Vorazes ganhou um novo livro, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (Foto: Rocco)</figcaption></figure>
<p><b>Suzanne Collins &#8211; A Esperança (424 páginas, Rocco)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o assunto é livros de ficção, as possibilidades são infinitas. Sagas de distopias com sociedades que espelham de forma fantasiosa aquilo que vivemos é o que não falta. A coleção de livros <a href="https://personaunesp.com.br/a-esperanca-o-final-5-anos/"><em>Jogos Vorazes</em></a> acompanha a história da Katniss em sua jornada do Distrito escasso em que nasceu até os luxo da Capital e sua participação na revolução contra o sistema corrupto do país. O sucesso das obras desencadeou uma adaptação para o Cinema, de muita aclamação, e uma abertura para uma popularização dos livros de mesmo gênero.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em<em> A Esperança</em>, Suzanne Collins explora o íntimo e as influências não só da protagonista como também de todos os envolvidos na jornada para <a href="https://personaunesp.com.br/jogos-vorazes-10-anos/">derrubar Snow e a Capital</a>, depois dos acontecimentos caóticos de <em>Em Chamas</em>, segundo livro da saga. A trama é ampliada para muito além dos Jogos Vorazes e as narrativas dos tributos, tocando em temas como política, abuso, manipulação e família. Katniss, a personagem principal, desenvolve habilidades para se tornar cada vez mais envolvida nas mudanças de seu país, passando por traumas, transformações e perdas, mas conquistando liberdade e, finalmente, esperança. &#8211; </span><b>Marcela Zogheib</b></p>
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<figure id="attachment_26361" aria-describedby="caption-attachment-26361" style="width: 432px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26361" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/12-malala-1.jpg" alt=" Capa do livro Eu Sou Malala. No canto superior esquerdo da capa, vemos o logo da Companhia das Letras, em branco. Ao centro, por toda a extensão da capa, vemos Malala em frente a um fundo verde. Ela é uma mulher paquistanesa, de cabelos pretos lisos e olhos castanhos, com um hijabe rosa sob a cabeça. Ao centro, sob a foto dela, vemos as palavras “Eu sou Malala”, em uma fonte serifada em branco. Abaixo, vemos a frase “A HISTÓRIA DA GAROTA QUE DEFENDEU O DIREITO À EDUÇÃO E FOI BALEADA PELO TALIBÃ”, em caixa alta, em branco, disposta em duas linhas. Abaixo, vemos a palavra “MALALA YOUSAFZAI” e, abaixo, “com CHRISTINA LAMB”, ambas frases em uma fonte serifada, em amarelo. " width="432" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-26361" class="wp-caption-text">Além de discursos na ONU junto de lideranças globais, a ativista Malala Yousafzai venceu o Prêmio Nobel da Paz aos 17 anos (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Malala Yousafzai e Christina Lamb &#8211; Eu Sou Malala &#8211; A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã (360 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Papai argumentava que a única coisa que sempre quis foi criar uma escola para ensinar as crianças. Não nos restava alternativa, a não ser o envolvimento em política e em campanhas pela educação</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span><i><span style="font-weight: 400;">Eu sou Malala &#8211; A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a autobiografia da ativista Malala Yousafzai, escrita em parceira com a jornalista Christina Lamb, e traça a trajetória dela desde o começo da sua luta, no Vale do Swat, no Paquistão. Luta essa que, como os depoimentos deixam claro, começou muito antes do atentado que a tornou um ícone de militância pelos direitos da educação para mulheres.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No livro, Malala relata seus dias de infância, adolescência e seu cotidiano, seu caminho no ativismo, junto de seu pai Ziaudin, e quando a situação do país começou a mudar, com a chegada do Talibã, até o atentado de 2012. Além de sua própria história, a obra fornece um panorama da vida no Vale, com suas belezas e desigualdades, e do contexto geopolítico local, assim como as tradições, culturas e crenças religiosas do povo patchun. Com o reconhecimento internacional por sua luta, Malala venceu o <a href="https://oglobo.globo.com/mundo/malala-kailash-satyarthi-vencem-nobel-da-paz-2014-14202949">Prêmio <em>Nobel</em> da Paz</a>, em 2014, se tornando a pessoa mais jovem a receber o reconhecimento. </span><i><span style="font-weight: 400;">Eu Sou Malala</span></i><span style="font-weight: 400;"> é leitura obrigatória para todos que já ouviram o nome da ativista &#8211; e ainda não sabem que precisam conhecer mais sobre ela, pela voz da mesma. </span><b>&#8211; Vitória Lopes Gomez</b></p>
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<figure id="attachment_26352" aria-describedby="caption-attachment-26352" style="width: 536px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26352" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/fun-home-1-536x800.jpg" alt="Uma tragicomédia em família. Imagem composta por uma ilustração em estilo quadrinho, delimitada por um balão quadrado. A ilustração parece ser feita por aquarela e nanquim, em tons de azul e preto. Nela, está a visão externa de uma janela azul aberta voltada para uma biblioteca interna. A parte de vidro da janela possui esquadrias e duas cortinas abertas pintadas em preto. Dentro da biblioteca está um homem adulto sentado em uma poltrona requintada com espaldar alto. O homem usa um óculos redondo, camiseta e calça listrada. Ele olha para baixo, com a cara séria, enquanto lê um livro de título Zelda. Suas pernas estão cruzadas. Ao fundo estão mobiliários antigos lotados de livros em suas estantes. As laterais da capa estão em tom que varia do branco ao palha, com exceção da lateral esquerda, na qual a ilustração vai até o limite da imagem. Na parte superior central pode-se ler o título do quadrinho em fonte preta não serifada e feita à mão. Na parte inferior, dentro do balão da ilustração, está o nome da autora, Alison Bechdel, na mesma fonte. Abaixo, já fora da ilustração, está o símbolo da editora Todavia, quatro círculos pretos que vão se diminuindo irregularmente entre si." width="536" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/fun-home-1-536x800.jpg 536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/fun-home-1-686x1024.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/fun-home-1-768x1146.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/fun-home-1.jpg 869w" sizes="auto, (max-width: 536px) 85vw, 536px" /><figcaption id="caption-attachment-26352" class="wp-caption-text">Referência da literatura LGBTQIA+ contemporânea, Fun Home ganhou adaptação em um musical da Broadway vencedor de cinco prêmios Tony em 2015, que conta com a primeira protagonista lésbica da história dos musicais (Foto: Todavia)</figcaption></figure>
<p><b>Alison Bechdel &#8211; Fun home: Uma tragicomédia em família (240 páginas, Todavia)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1980, com 19 anos, Alison Bechdel se descobriu lésbica. Desde então, a cartunista norte-americana conhecida pelo </span><a href="https://institutodecinema.com.br/mais/conteudo/o-que-e-o-teste-de-bechdel"><span style="font-weight: 400;">Teste de Bechdel</span></a><span style="font-weight: 400;"> – critério de avaliação que mede a representatividade feminina no Cinema –, decidiu que seria uma “</span><i><span style="font-weight: 400;">lésbica profissional</span></i><span style="font-weight: 400;">”, orgulhosamente aberta sobre sua sexualidade. Durante 25 anos, ela publicou uma série de tirinhas, </span><a href="https://dykestowatchoutfor.com/strip-archive-by-number/"><i><span style="font-weight: 400;">Dykes to Watch Out For</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (lançada no Brasil como </span><i><span style="font-weight: 400;">O Essencial de Perigosas Sapatas</span></i><span style="font-weight: 400;">, com tradução de Carol Bensimon), acompanhando o cotidiano de um grupo de amigas lésbicas dos Estados Unidos, em meio à transformações políticas e culturais: da </span><a href="https://personaunesp.com.br/pose-3a-temporada-critica/"><span style="font-weight: 400;">epidemia de AIDS</span></a><span style="font-weight: 400;"> nos anos 90 até o recente </span><a href="https://personaunesp.com.br/harry-potter-7-parte-2-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">conservadorismo das feministas radicais</span></a><span style="font-weight: 400;"> (as “</span><i><span style="font-weight: 400;">radfems</span></i><span style="font-weight: 400;">”) sobre a transexualidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desenhando personagens brancas e negras, </span><a href="https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/butchfemme"><i><span style="font-weight: 400;">femmes </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">butches</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, magras e gordas, jovens e velhas, o olhar de Bechdel se manteve multidisciplinar. Ela estendia suas mãos em favor, puxando quem precisasse para fora de um armário empoeirado. Mas esse desejo revolucionário não foi nada inconsciente, pelo contrário, foi uma decisão tomada em reação à vida do pai, que morreu em sigilo dentro desse mesmo armário. Tema central da primeira </span><span style="font-weight: 400;">HQ </span><span style="font-weight: 400;">autobiográfica da autora, </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-fun-home/"><i><span style="font-weight: 400;">Fun Home</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (reeditada pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Todavia</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">com tradução de André Conti) revisita a memória controversa da figura paterna de Bechdel na infância, juventude e início da fase adulta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambos compartilhavam o comportamento introvertido, a paixão pela Literatura e o </span><a href="https://www.npr.org/2015/08/17/432569415/lesbian-cartoonist-alison-bechdel-countered-dads-secrecy-by-being-out-and-open"><i><span style="font-weight: 400;">queerness</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Dentro do lar dissimulado – um palacete centenário ornado pelos mais requintados mobiliários, também espaço do negócio da família por três gerações, uma casa funerária (</span><a href="https://open.spotify.com/track/3rJDsZjIaCfJQSqRUvl0BM?si=8577235eead54b99"><i><span style="font-weight: 400;">Fun‘eral’</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> Home</span></i><span style="font-weight: 400;">) –, a presença do patriarca era de tirania, apatia e ausência. Sob o mesmo teto, as muitas semelhanças nunca foram suficientes para unir pai e filha, que permaneceram estranhos, um para o outro, até o fim. Numa observação sensível, porém honesta, dos frágeis laços afetivos forjados pelo ambiente familiar, Bechdel entende que o pai não era herói, nem nunca foi, mas compreende todas as idiossincrasias que fizeram dele a pessoa que era, e que, consequentemente, se refletiram na pessoa que ela mesma se tornou, encontrando, na Arte, sua própria maneira de perdoá-lo. </span><b>&#8211; Ayra Mori</b></p>
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<figure id="attachment_26351" aria-describedby="caption-attachment-26351" style="width: 462px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26351" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cornelia-1.jpg" alt="Capa do livro Coração de Tinta apresenta diversos quadrados de tamanhos variados, em que cada um exibe uma letra e uma ilustração que remete a um livro antigo. Como elemento central da imagem há um retângulo escrito em amarelo Cornelia Funke em cima, Coração de Tinta em bege no centro e Seguinte em amarelo e no canto inferior da foto. O fundo desses quadros é vermelho." width="462" height="664" /><figcaption id="caption-attachment-26351" class="wp-caption-text">Os personagens dos livros são mais carismáticos dentro da ficção (Foto: Seguinte)</figcaption></figure>
<p><b>Cornelia Funke &#8211; Coração de Tinta (432 páginas, Seguinte)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As boas histórias sempre tiveram o poder de encantar os apreciadores da leitura. Mas, imagine a capacidade de dar vida aos personagens dos livros. Essa é justamente a habilidade peculiar de Mortimer Folchart, que há anos vive sozinho com sua filha, Meggie, após ter enviado por acidente sua esposa Teresa para dentro do livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Coração de Tinta</span></i><span style="font-weight: 400;">. Desde então, Língua Encantada, como foi apelidado por aqueles que trouxe para o mundo real, nunca mais leu em voz alta. Esse cenário se perpetuou até que, durante uma noite chuvosa, personagens extraídos do </span><a href="https://osmelhoreslivros.com.br/mundo-de-tinta-ordem/"><span style="font-weight: 400;">Mundo de Tinta</span></a><span style="font-weight: 400;"> voltam com interesse nos poderes fantásticos de Mortimer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história pitoresca de </span><i><span style="font-weight: 400;">Coração de Tinta</span></i><span style="font-weight: 400;">, escrito pela alemã Cornelia Funke, em 2003, deu início à trilogia do </span><i><span style="font-weight: 400;">Mundo de Tinta</span></i><span style="font-weight: 400;">, que se desenrola com os personagens adentrando à fantasia do livro e enfrentando vilões terríveis. Além da narrativa apresentada, a obra de Funke encanta com sua apresentação estética repleta de ilustrações realizadas pela própria autora e com citações para iniciar os capítulos geralmente retiradas de grandes peças da literatura. Desse modo, a notoriedade de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=L4HtNuJU2ow"><i><span style="font-weight: 400;">Coração de Tinta</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> fez com que este fosse adaptado para o Cinema, em 2008, que reuniu atores como Brendan Fraser, Jennifer Connelly e Andy Serkis. </span><b>&#8211; Gabriel Gatti</b></p>
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<figure id="attachment_26362" aria-describedby="caption-attachment-26362" style="width: 533px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26362" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/18-raven-1-533x800.jpg" alt="Capa do livro Luxúria, de Raven Leilani. A imagem mostra, ao centro, uma fotografia em close da parte de baixo do rosto de uma mulher negra, com foco para os seus lábios, que estão entreabertos e pintados com batom vermelho alaranjado. Ao redor da foto, existe uma moldura branca. Na linha inferior da capa, está escrito o nome do livro em fonte de caixa alta e branco. Embaixo, está o nome da autora, na mesma estilização, porém em vermelho alaranjado. Depois, existe o selo da editora Companhia das Letras, na mesma cor. Na linha superior da capa, em cima da fotografia, existe uma citação atribuída a Zadie Smith, que diz “Um livro tenso, afiado e engraçado sobre ser jovem, brutal e brilhante.”" width="533" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/18-raven-1-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/18-raven-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/18-raven-1.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 533px) 85vw, 533px" /><figcaption id="caption-attachment-26362" class="wp-caption-text">O livro esteve nas listas de melhores do ano do The New York Times, The Guardian e também do <a href="https://personaunesp.com.br/os-melhores-livros-de-2021/">Persona</a> (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Raven Leilani &#8211; Luxúria (232 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a seleção especial da nossa Estante que se dedica a indicar o trabalho de escritoras, um nome em especial não poderia deixar de ser mencionado. Em sua estrondosa estreia de 2021, Raven Leilani permitiu-se influenciar por duas das obras culturais mais importantes no que diz respeito a encarar o recorte de gênero na atualidade. Para o seu primeiro livro, a jovem escritora nova-iorquina encontra a comédia ácida de </span><a href="https://personaunesp.com.br/fleabag-2a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e a criatividade crítica de </span><a href="https://personaunesp.com.br/i-may-destroy-you-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">I May Destroy You</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> sob o título de </span><i><span style="font-weight: 400;">Luxúria</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O romance se dedica à história de Edie, que, em seus vinte e poucos anos, tenta viver em uma Nova Iorque inóspita aos jovens de classe baixa e especialmente hostil às mulheres negras. Entre os altos e baixos de sua vida perfeitamente comum à </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2021/jan/17/luster-raven-leilani-review"><span style="font-weight: 400;">juventude do século 21</span></a><span style="font-weight: 400;">, ela cai nas teias de um relacionamento aberto com um casal branco e, ao mesmo tempo, parte de sua vida começa (mais uma vez) a desmoronar. A partir daí, </span><a href="https://www.nytimes.com/2020/07/31/books/raven-leilani-luster.html"><span style="font-weight: 400;">Raven Leilani</span></a><span style="font-weight: 400;"> cria uma comédia dramática sagaz e ácida, que reflete sobre as expressões de poder das relações de </span><a href="https://harpersbazaar.uol.com.br/cultura/raven-leilani-busca-libertar-mulheres-negras-de-rotulos-e-estereotipos/"><span style="font-weight: 400;">gênero, classe e raça</span></a><span style="font-weight: 400;"> numa linguagem corajosamente singular para a Literatura contemporânea. </span><b>&#8211; Raquel Dutra</b></p>
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<figure id="attachment_26353" aria-describedby="caption-attachment-26353" style="width: 534px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26353" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Lygia-1-534x800.jpg" alt="Capa do livro As Meninas, de Lygia Fagundes Telles. No fundo, vemos várias linhas de cor rosa e branca. Em cima dessas linhas, vemos uma flor de diversas cores próxima do canto superior direito, uma flor azul embaixo dela e, perto do canto inferior direito, um galho com mais flores coloridas, com algumas folhas verdes ao redor. Próxima ao canto superior esquerdo, vemos o que parece ser uma mandala, de cor marrom, e uma flor rosa embaixo dela. A flor rosa está em cima de um retângulo branco. Dentro do retângulo branco, lê-se “Lygia Fagundes Telles” e o título da obra, “As Meninas”, seguido da editora responsável pela publicação, “Companhia das Letras”. " width="534" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Lygia-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Lygia-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Lygia-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Lygia-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Lygia-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Lygia-1-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Lygia-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 534px) 85vw, 534px" /><figcaption id="caption-attachment-26353" class="wp-caption-text">As meninas foi um livro bastante corajoso na época de seu lançamento, em 1973, pois descrevia uma sessão de tortura em um período que o assunto era proibido (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Lygia Fagundes Telles &#8211; As meninas (304 páginas, Companhia das Letras) </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um pensionato de freiras na capital paulista, vivem três jovens universitárias bem diferentes: Lorena, Ana Clara e Lia. A partir dessa premissa, </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/colunas/pagina-cinco/2021/03/10/conto-perdido-de-lygia-fagundes-telles-e-resgatado-leia-um-trecho.htm"><span style="font-weight: 400;">Lygia Fagundes Telles</span></a><span style="font-weight: 400;"> constrói uma narrativa intensa, de múltiplas vozes que dialogam em um fluxo de consciência vertiginoso. Ambientado na década de 1970, em plena ditadura militar, o livro consegue captar com precisão o espírito de profunda transformação política e comportamental que permeou a época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos livros mais celebrados da autora, tanto pelo público quanto pela crítica especializada, é uma obra que conquista o leitor aos poucos, sem pressa. De início, as trocas súbitas da primeira pessoa para a terceira na narrativa podem causar certo estranhamento, mas, conforme a trama se desenrola, essas mudanças se provam fundamentais e demonstram o pleno domínio que </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2020/06/em-cronica-de-1952-lygia-fagundes-telles-mostra-que-unica-certeza-e-o-imprevisivel.shtml"><span style="font-weight: 400;">Telles</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem da própria escrita. É um mosaico cuidadoso de vidas muito diversas em uma das maiores metrópoles do país, com um final impactante que fica marcado na cabeça daqueles que o leem. </span><b>&#8211; Caio Machado </b></p>
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