Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria é o retrato torturante, mas necessário do esgotamento feminino

Linda está deitada na cama, com a cabeça apoiada na mão olhando para a filha fora de cena. Sua expressão é cansativa e ela está de regata, mostrando algumas tatuagens no braço em um quarto com uma iluminação
O filme já acumula mais de 60 indicações e 32 vitórias na temporada de premiações de 2025 (Créditos: A24)

Isabela Nascimento

A ‘histeria feminina’, ou melhor, os sentimentos incompreendidos de mulheres sempre foram abordados nas grandes telas. Por muito tempo, essas emoções eram demonstradas por um olhar masculino extremamente limitado. Porém, agora vemos essas produções lideradas por diretoras que exploram as complexidades e consequências das opressões que as mesmas sofrem ou já presenciaram.

Em Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria, há um foco em retratar uma dificuldade conhecida por muitas mulheres: o fantasma do abandono que desgasta os aspectos de suas vidas. Linda (Rose Byrne) é uma terapeuta e mãe de uma criança com uma doença que necessita de cuidados especiais. Ela tem um marido que trabalha à distância e se vê ainda mais sozinha quando o teto de seu apartamento cai, obrigando ela a se mudar para um hotel barato.

Sem uma rede de apoio e incompreendida pela médica de sua filha e pelo seu próprio terapeuta, a sua sanidade vai se deteriorando a cada minuto do filme. A solidão e o desespero dominam a sua vida, enquanto sua única vontade é receber ajuda, mas ninguém responde às suas súplicas. Nas sessões com o seu médico (Conan O’Brien), o telespectador sente a dor da protagonista, com a ausência de sensibilidade por parte do profissional.

Linda está em na sala de consultório azul de seu terapeuta, que está sentado à esquerda cum uma expressão indiferente, enquanto ela está deitada no sofá à direita com a mão na cabeça e uma expressão triste no rosto.
A escolha de Rose Byrne para o papel foi feito após a diretora assistir Physical, série protagonizada por Byrne (Créditos: A24)

Este sentimento de incapacidade é perceptível durante todo o longa. A cada situação, Linda é culpada pelas decisões que toma e suas necessidades são ignoradas, enquanto sua ansiedade e agonia dominam estes momentos. As emoções destas cenas, apesar de torturantes, são verdadeiras e essa semelhança com sentimentos reais ganha um novo significado quando a diretora explica a inspiração para a obra.

Em entrevista ao Cinema Femme, Mary Bronstein conta que a história não é autobiográfica, porém é emocionalmente honesta. Segundo ela, anos atrás sua filha precisou fazer um tratamento na Califórnia durante oito meses. Apesar de não ter as mesmas atitudes da personagem, a solidão também foi sua companheira nesse período. Enquanto estava sozinha, ela começou a criar a narrativa.

O roteiro demorou dois anos para ser finalizado e tem uma trama bem delimitada, porém, não é rebuscada ou grandiosa. É notável que o objetivo da criadora era mostrar as dificuldades da vida de Linda que, mesmo cansada, implora por ajuda enquanto é constantemente ignorada. Este foco é tão bem construído que, durante uma hora e cinquenta minutos de filme, o telespectador se sente preso nessa prisão mental que ela se encontra.

A escalação de Rose Byrne como protagonista foi o maior acerto da produção. A dedicação que ela dá para a personagem é extremamente visível e atenciosa. A missão era difícil – envolver o público em uma teia de ansiedade agonizante – e ela faz isso de uma maneira surpreendente. Sua atuação causa um desconforto real em quem assiste, cumprindo o objetivo da diretora. Como recompensa, a atriz está recebendo diversas indicações nesta temporada de premiações, tendo recebido sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz e a primeira estatueta do Golden Globes.

Além de Byrne, o elenco coadjuvante também contribui de forma decisiva para a construção do isolamento da protagonista. O psicólogo (Conan O’Brien), a Dra. Spring – curiosamente interpretada pela própria diretora, Mary Bronstein –, James (ASAP Rocky) e a filha (Delaney Quinn) entregam atuações sólidas, que reforçam o quanto essa mulher está sozinha e emocionalmente negligenciada.

Linda está deitada na areia com uma expressão triste, a câmera está focada em seu rosto.
O filme foi filmado em 27 dias, em Montauk em Nova York (Créditos: A24)

A imersão nessa narrativa sufocante também se constrói por meio das escolhas de imagem (Christopher Messina) e da montagem (Lucian Johnston). Em diversos momentos, a câmera se fixa no rosto da protagonista ou evidencia a ausência da filha em cena, que passa a existir apenas como voz ou por meio de planos fragmentados do aparelho utilizado em seu tratamento. Somam-se a isso as recorrentes imagens do buraco, que funcionam como um símbolo condensador: não apenas um espaço físico, mas a materialização de todas as dores que ela carrega.

Após assistir o longa, compreendemos melhor a escolha de seu título. Apesar de Linda reagir e demonstrar seu descontentamento, ela continua sendo ignorada e invalidada. Quando seu marido chega, a oportunidade de descansar e fugir das consequências toma sua mente e ela corre para o mar. O filme retrata de forma crua as dificuldades enfrentadas por muitas mulheres, marcadas pela solidão e pela incompreensão, frequentemente confundidas com histeria e usadas como mecanismo para forçá-las a retornar a uma realidade torturante.

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