Creed: Uma outra luta, um outro boxe

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Victor Pinheiro

Apesar de Creed se passar no universo da franquia Rocky e ressuscitar a nostálgica figura do lutador interpretado por Sylvester Stallone, o filme dirigido por Ryan Coogler não pode ser visto como uma mera continuação da saga e sim como um produto à parte, uma nova luta, um outro confronto.

Creed satisfaz os fãs que se identificam com a imagem e a história de Balboa e acerta ao não inventar lutas absurdas como a que se vê em Rocky Balboa (2006), sexto filme da saga, na qual Rocky, já na casa dos cinquenta, enfrenta um campeão no auge da carreira. Além disso, Creed oferece um novo e interessantíssimo protagonista, Adonis Johnson (Michel B. Jordan).

Donnie é um personagem contraditório e sofre com a sombra de seu pai que nem conheceu, o lendário boxeador Apollo Creed. Johnson tem uma infância difícil. Sem notícias de seus pais, vive em casas de apoio até que Mary Anne (Phylicia Rashad), esposa de Apollo, encontra Adonis e passa a criá-lo em sua casa em Los Angeles.

Apaixonado pelo esporte e pela carreira do pai, Donnie larga um emprego estável no setor financeiro para seguir o sonho de lutar boxe. O jovem planeja sua carreira como lutador fora das sombras de Apollo, no entanto, ao mesmo tempo aproveita-se da amizade do falecido pai com Balboa para fazer de Rocky seu treinador. Ryan Coogler acerta em cheio ao combinar a incidência da imagem de Apollo sobre a identidade de Donnie às contradições na personalidade do protagonista.

Outra grande sacada é o deslocamento do personagem de Stallone para o papel de coadjuvante. Mesmo em Rocky 5 (1990) quando Balboa treina um jovem pugilista, o enredo da história ainda prioriza a figura de Rocky. Dessa vez não, o protagonismo é todo sobre Johnson, que tem seus sentimentos e personalidade esmiuçados. Se não bastasse, Balboa ainda compete com a imagem do pai de Donnie. Apesar de não estar presente em carne e osso no longa, o personagem de Apollo Creed representa um dos mais importantes pilares da trama e age com certo protagonismo.

Ainda que fora do ringue, a figura de Balboa ainda é motivadora e nostálgica. A simplicidade e a evidência das limitações impostas pela idade de forma casada entre ator e personagem permitem uma ótima atuação de Stallone. Além disso, a qualidade de mentor, não só na carreira mas na vida de Adonis, atribuída a Rocky mantém a identificação dos fãs com as mensagens de perseverança do filme, um dos pontos chave de toda a franquia.

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Existe ainda uma mudança sobre outro personagem que representa a essência tanto de Creed como dos seis filmes de Rocky, o boxe. De uma perspectiva técnica, Creed se distancia dos filmes protagonizados por Stallone ao trazer aspectos mais realistas pra dentro do ringue. Os golpes e sequências são mais condizentes e os lutadores não tomam dezenas de socos no rosto sem responder ou ao menos erguer a guarda. Não há exagero dramático no levantar dos atletas depois de um nocaute e mesmo após sofrer vários golpes, Donnie não parece um bêbado lutando de guarda baixa, a exemplo de Balboa.

A simulação de  transmissão de TV nas grandes lutas, a câmera lenta para enfatizar os nocautes, os gritos clichês dos conhecidos de “se levanta” ou “você consegue” e as corridas ‘heróicas’ são alguns dos elementos que resistiram. No entanto, isso não significa que são ruins, muito pelo contrário, ganham por saudosismo.

Fora dos ringues, o filme mostra a influência de empresários e o boxe enquanto negócio, o que não foge a regra da saga de Balboa, mas é um aspecto importante de ressaltar. Uma novidade é a ligação do esporte com a imprensa. A mídia ganha um forte papel no enredo do filme principalmente em relação a Donnie e a identidade do pai. Mas, talvez o debate mais importante esteja ligado a fatores socioeconômicos.

O filme faz menção ao boxe como uma oportunidade de cidadãos pobres garantirem uma melhor condição de vida. Essa questão implica inclusive na contradição de Donnie, que apesar de uma infância dura, passa a ser rico ao ser adotado por Mary Anne Johnson  e acaba constantemente questionado a respeito dos motivos dele ser boxeador, principalmente por seu pai ter falecido em consequência do esporte.

Esse problema acende outro discurso explícito na obra, a brutalidade do boxe. No longa, o próprio Balboa aconselha Johnson a não trilhar o caminho de pugilista. Vale lembrar que Rocky entrou para o boxe não apenas pela paixão pelo esporte, mas também por necessidades financeiras. Para piorar, a figura de Apollo sobre Adonis passa a impressão que o jovem lutador quer usar a imagem do pai para se promover enquanto atleta. Cria-se então uma pergunta ao fundo do filme: Donnie luta por paixão ou por vaidade?

Se o boxe está relacionado a condições socioeconômicas também está à questão racial. Um ator negro assumir o protagonismo do filme mais famoso sobre o esporte é algo a ser notado e discutido, isso porque o pugilismo possui uma forte ligação com a identidade negra.

maxresdefault (3)O pugilista Jack Johnson

Em 1908, Jack Johnson entrou para a história ao vencer o australiano Tommy Burns e tornar-se o primeiro pugilista negro campeão peso-pesado na história. Dois anos depois venceu a ‘luta do século” contra o branco James Jeffries, o que representou um marco para identidade negra ao consolidar Johnson como um dos melhores da história batendo um oponente branco em meio a uma sociedade extremamente racista. Porém, Johnson ainda sofreu problemas com a justiça na época por andar com mulheres brancas.

Em 1937, foi a vez do afro-americano Joe Louis se consagrar campeão mundial. Louis tornou-se um ícone da identidade negra na época sendo exaltado por figuras como Malcolm X, icônico ativista racial. O campeão chegou a ser convidado a Casa Branca, ato simbólico devido a forte segregação racial na época.

Quase 30 anos depois surgiria a imagem de Muhammad Ali, considerado o maior pugilista de todos os tempos. Ali também é conhecido por denunciar e problematizar o racismo, principalmente na sociedade norte-americana, se tornando não só motivo de orgulho por sua lendária carreira no boxe, mas também como importante ícone do movimento negro. Hoje o boxe ainda é representado por atletas negros, a exemplo do ex-campeão Floyd Maywheater.

O que poucos sabem é que o próprio personagem de Rocky Balboa foi inspirado em um boxeador negro, ícone do esporte. Joe Frazier, que nasceu em Beaufort mas surgiu para o boxe na Filadélfia, foi espelho para a composição do pugilista interpretado por Sylvester Stallone. As corridas nas escadarias do centro da cidade faziam parte da rotina do atleta no começo da carreira. Em 71, Frazier se tornaria um dos poucos a derrotar Muhammad Ali. Ambos se enfrentaram mais duas vezes com duplo triunfo de Ali.

Joe-Frazier-007Joe Frazier, inspiração real de Rocky Balboa

A figura de Rocky, branco e com características europeias, como o herói do boxe norte-americano fica de lado em Creed. O filme endeusa a imagem de Apollo e o considera o melhor de todos os tempos dentro do universo da saga. Em meio ao racismo presente em Hollywood admitir um protagonista negro vencendo homens brancos dentro do ringue é realmente um motivo de destaque para o longa. Entender um personagem negro maior do que o herói da saga é um feito gigantesco.

Contudo, se Creed mostra evolução tanto no âmbito cinematográfico quanto nas questões sociais, a Academia anda na direção contrária ao indicar Sylvester Stallone, que tem seus méritos, ao Oscar de melhor ator coadjuvante e ignorar a atuação de Michel B. Jordan como Adonis Johnson. O diretor, Ryan Coogler, também negro, é outro ignorado pela premiação. Anteriormente, Coogler já havia abordado o tema do racismo em obras como “Fruitvale Station”, sobre a violência policial.

Creed representa um rompimento do protagonismo de Rocky e de seu heroísmo intocável e por isso não podemos considerá-lo uma extensão da saga. Chegou a vez de Apollo e Adonis Creed brilharem e desafiarem a academia, os críticos e o público em geral para mais doze rounds e quem sabe os efeitos de uma vitória por nocaute.

 

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