Um garoto com uma câmera, em Yalla Parkour

Cena do filme Yalla Parkour Na imagem, um garoto está de costas para a câmera, de ponta-cabeça na beirada de um topo de um prédio. Ele se apoia com as mãos e deixa as pernas abertas, em posição de V. No fundo, está a cidade de Gaza, com vários prédios e um céu azul com nuvens claras no horizonte. O garoto palestino veste uma camisa azul clara, tênis e calça moletom cinza.
O documentário foi exibido no Festival de Berlim (Foto: Kinana Films)

Davi Marcelgo 

Em 1929, quando o cineasta Dziga Vertov criou um dos mais emblemáticos filmes da história, Um Homem com uma Câmera, ele não apenas fundamentou a montagem como uma das principais linguagens do Cinema, mas documentou aquele período da União Soviética. Os avanços da tecnologia, a desigualdade social, os meios de transporte, rituais da época, tudo é registrado a partir daquele indivíduo que perambulou pela cidade e privilegiou seu olhar para reunir vários acontecimentos e relacioná-los. Enquanto Vertov brinca de mágico por meio da sequência das imagens, a diretora Areeb Zuaiter (e o garoto Ahmed Matar), em Yalla Parkour, imprime Gaza por outro tipo de encantamento.

Concorrente na seção Competição Novos Diretores da 49ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, o documentário usa imagens de arquivos gravados por Matar e seus amigos na adolescência, praticando parkour na cidade palestina. Entre praias e solos arenosos, o grupo se arrisca em escombros de ataques e estruturas de prédios abandonados ou inacabados. O menino, que durante uma conversa com Zuaiter diz ser filmmaker, tinha como objetivo ficar conhecido pelos vídeos, porém, ao criar o diário coletivo naquela paisagem, fazendo aquele esporte, o sentido foi reformulado. 

Assim que descobriu os vídeos na internet, a diretora, também de origem palestina, se conectou com o sorriso no rosto daquelas crianças, pois elas a fizeram lembrar do sorriso de sua falecida mãe. Zuaiter vai conduzir o filme por essa ideia de pertencimento e memórias, criando, pela montagem, um sentido íntimo. Entretanto, essa pessoalidade não é a única (nova) forma de enxergar cada vídeo que saiu do celular da galera do parkour

Cena do filme Yalla Parkour Na imagem, três garotos caminham no topo de uma estrutura de um aeroporto abandonado. O céu está nublado e não dá para identificar os garotos, pois a câmera está bem afastada. O edifício não possui portas ou janelas, apenas sua estrutura crua.
Yalla Parkour participou do festival suíço Visions du Réel (Foto: Kinana Films)

Ahmed Matar vai, indiretamente, registrar a realidade de Gaza. Os sons das explosões, os prédios destruídos e os lugares fantasmas. Essas gravações vão exercer o papel das câmeras no século XXI, sobretudo em sua segunda década, o de vigilância e de denúncia. Embora as imagens impressionem, seja pela decadência dos edifícios ou pelas manobras perigosas que os meninos fazem, elas são potencializadas pela montagem de Phil Jandaly e a narrativa de Areeb Zuaiter, o que vai aproximá-los do longa de 1929. 

O Cinema, principalmente em seus primeiros anos, foi encarado como uma forma de captar o momento, reproduzindo o real, assim como a famosa projeção de A chegada do trem na estação (1896), dos irmãos Lumière. Conforme o método foi se desenvolvendo como Arte, percebeu-se o potencial de criar histórias e manipulá-las por meio da ordem em que as cenas aparecem. Em Yalla Parkour, nas falas da cineasta ou na intercalação das acrobacias com os retratos da mãe, as produções do grupo passarão a projetar outros sentidos, como o de encontrar beleza na guerra e de ocupar os lugares desabitados, afinal, aqueles escombros abrigaram por muito tempo sorrisos e firmaram lembranças. 

Nesse sentido, há dois cineastas no filme: o da velha-guarda e o discípulo de Vertov, sendo a existência do primeiro apenas possível pela popularização dos aparelhos móveis. Porém, só a partir disso a diretora pode exercer suas habilidades como filmmaker, de algo mais simples, que veio antes, mas conectado, como ela e Matar estiveram durante os anos que mantiveram contato por ligações. Se o diretor polonês recorta a realidade e engana o público, em cenas que não se passam no mesmo lugar, apesar de parecer, a mágica de Zuaiter é assumir que está em uma localidade e uma posição diferente de seu personagem, relacionando imagens do passado e presente para gerar sentidos, em um movimento de expressão da identidade palestina, que se conecta com gerações distantes da dela. 

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