Wishbone confessa muito mais que sentimentos e relata experiências que Conan Gray antes deixou em branco

Capa do álbum Wishbone, do artista Conan Gray. Pessoa vestida com uniforme de marinheiro branco com detalhes azuis, chapéu com fita vermelha e sapatos pretos aparece saltando contra um fundo de céu nublado. A fita do chapéu se movimenta no ar, reforçando a sensação de dinamismo.
No quarto álbum de estúdio, Conan Gray apresenta um de seus trabalhos mais introspectivos, honestos e pessoais até hoje (Foto: Republic Records)

Gabriel Diaz

Found Heaven, de 2024, representou uma incursão audaciosa de Conan Gray pelos sintetizadores brilhantes e pela nostalgia new wave. Em contraponto direto do seu último trabalho, Wishbone assume o regresso deliberado e consciente às suas raízes confessionais. Mais do que um mero exercício de estilo, o novo disco é uma escavação emocional profunda na qual Conan troca as luzes de discoteca pela exposição crua. Se o predecessor soava como uma fuga para os anos 80, o quarto álbum de estúdio emerge como um diário íntimo, escrito na solidão dos quartos de hotel durante digressões – a ‘trilha sonora absurdamente nichada’ da sua própria vida, nas palavras do artista.

O cantor oferece ao ouvinte um mergulho profundo e sem disfarces em tudo o que gira em torno do amor. Com uma paciência quase cirúrgica, ele detalha cada etapa de um relacionamento, desde a paixão inicial até os momentos de incerteza sobre um coração em pedaços. Mas, o artista não se prende apenas a declarações melancólicas; ele vai além, buscando respostas para perguntas ainda não respondidas. Seja sobre aquela paixão que nunca o colocou como prioridade ou sobre aquela pessoa egoísta que abandonou suas angústias, mesmo tendo prometido que elas seriam suas também.

Actor inaugura o álbum com uma vulnerabilidade crua, onde os arranjos mínimos de violão gradualmente dão lugar a cordas dramáticas, espelhando a intensidade emocional da narrativa – a qual ressalta a autenticidade própria diante de situações indesejadas, relembrando algumas particularidades de seu debut, Kid Crow. Vodka Cranberry é o ápice máximo do disco e explode em clímax catártico, com a, agora, famosa nota alta que funciona como grito de libertação em trechos como “Se você não quiser terminar as coisas / Eu mesmo irei”. Em contraponto disso, This Song captura a doçura ingênua do amor nascente através de melodias que flutuam levemente e revela um lado mais otimista de Conan num futuro próspero.

Acompanhando a faixa, destaca-se o seu videoclipe que constitui uma peça cinematográfica autônoma sobre a formação identitária juvenil. Através de uma linguagem visual que remete ao cinema coming-of-age, com planos sequência elaborados e uma paleta de cores saturadas que evocam nostalgia estetizada, a narrativa visual constrói uma representação sensível do amor queer. A câmera intimista acompanha a jornada estival de Wilson e Brando, capturando com delicadeza os pequenos gestos e olhares que compõem a cartografia afetiva de dois jovens se descobrindo e se apaixonando.

Romeo se destaca pela sua atitude mordaz e guitarras incisivas, oferecendo um contraponto necessário de empoderamento pós-término. Em My World, Conan entrega talvez sua letra mais afiada, criticando ironicamente performances de masculinidade tóxica sobre uma base musical aparentemente descontraída, apesar de uma sonoridade enjoativa. Class Clown revela camadas de vulnerabilidade escondidas sob uma melodia aparentemente simples, expondo como o trauma infantil molda relações adultas.

A tríade Caramel, Connell e Sunset Tower forma o núcleo emocional. Caramel se destaca pela produção impecável que constrói gradualmente até um clímax de guitarra distorcida, capturando a paradoxal doçura amarga da nostalgia tóxica. Connell mergulha na autodepreciação mais sombria com uma harmonia enganadoramente suave, enquanto Sunset Tower joga com a negação afetiva através de um refrão hipnótico e repetitivo. As faixas finais não decepcionam: Eleven Eleven tece superstições e numerologia numa tapeçaria de esperança desesperada, e Care encerra o álbum com majestade contida, sua construção lenta culminando em vocais quase gospel que fornecem o fecho comovente e perfeito para esta jornada.

Pessoa sentada em um peitoril de janela grande com vidro fosco. Veste camiseta branca estampada com a palavra “Wishbone” e calça azul larga. O ambiente é iluminado de forma suave, criando um clima intimista e urbano.
O álbum foi escrito durante dois anos, sem o conhecimento de ninguém além do próprio Conan Gray (Foto: Dillon Matthew)

Sob uma abordagem técnica, a produção do álbum é um estudo de minimalismo estratégico. O retorno do produtor executivo Dan Nigro é significativo: as músicas são tecidas com violões acústicos, cordas doloridas e batidas que imitam batimentos cardíacos ansiosos. O projeto explora as diversas formas de encarar um relacionamento, seja com raiva, angústia ou nostalgia, unindo todas essas camadas emocionais à delicadeza poética de um vocal calmo e sutil. A mistura de pop-rock que embala o trabalho se assemelha às perturbações mentais da vida do próprio Conan, que, mais uma vez, se vê tendo que elaborar uma separação.

A jornada narrativa de Wishbone é a sua espinha dorsal. Talvez este seja seu disco mais pessoal, e mesmo carregando o rótulo de artista que sempre relatou sentimentos, desta vez as músicas soam menos como faixas para serem ouvidas e mais como páginas de um diário que guarda segredos sensíveis. Nesse contexto, o trio de videoclipes levanta uma questão crucial: seria toda a produção um ciclo virtuoso sobre o amor ou apenas um compilado de dores não correspondidas e insuperáveis? Conan parece explicar meticulosamente todas as consequências de amar alguém a partir do descontrole – da euforia inicial aos pensamentos mutáveis que assombram a mente com o rosto de quem já foi familiar.

Talvez, a evolução lírica de Conan Gray seja o aspecto mais marcante. Ele evita clichês fáceis, optando por imagens visceralmente específicas. Nauseous explica isso perfeitamente na constituição do momento mais lírico do álbum, com sua descrição física e intrínseca da ansiedade amorosa que evita estereótipos com maestria – os sons de piano abafados pelo vocal do cantor remetem ao seu trauma de abandono à medida que a música se segue.  

Na composição, ele canta “O teu amor é uma ameaça e estou nauseado / Assusta-me até à morte como o quero“, capturando a dualidade do desejo e do medo. Essa pessoa pode ter seguido em frente, vivido outras coisas longe de sua presença, mas ele ainda permanece preso naqueles dias em que os sonhos ainda não haviam se tornado pesadelos. No entanto, há um risco inerente nesta abordagem: a especificidade excessiva pode, por vezes, limitar a universalidade das emoções.

Pessoa de cabelos escuros e cacheados posa encostada a uma porta de madeira. Usa camisa branca com grande laço no pescoço e colete azul escuro texturizado. O olhar é direto para a câmera, transmitindo intensidade.
Wishbone estreou no Metacritic com uma pontuação de 82/100, ultrapassando Superache e se tornando seu álbum mais bem avaliado até agora (Foto: Dillon Matthew)

O contexto histórico da carreira de Conan Gray é crucial para entender Wishbone. Após o sucesso estrondoso de Heather, que se tornou um hino da nova geração, o cantor se solidificou como um cronista dos amores não correspondidos. Pelo jeito, ser amigo próximo de Olivia Rodrigo não lhe proporciona apenas boas risadas, mas também um conhecimento devastador sobre amores passados – formando uma dupla artisticamente afinada para descrever, com crueza, o que é se sentir insuficiente. Quanto aos boatos de que o álbum seria secretamente dedicado ao ator Kit Connor, as coincidências podem até existir, mas a maturidade do cantor parece desmentir essa ligação.

É possível dizer que o disco é uma experiência catártica. A obra transcende a mera especulação biográfica para tocar em uma universalidade mais sombria: a do amor como um ato de fé num mundo secularizado, um risco soberano do coração que, ao se entregar, assina um pacto não escrito com a própria possibilidade da dor. A maturidade de Conan compreende que a verdadeira tragédia do amor não está em para quem se canta, e sim no abismo intransponível entre duas subjetividades. Manter um relacionamento sob tais condições é sempre, em alguma medida, irreal. O que resta, então, é a Arte: monumento solene erguido não sobre os escombros de um affair, mas sobre a profunda e humana solidão de quem ousou amar.

Em síntese, Wishbone não é um álbum sobre um coração partido; é sobre a anatomia desse coração – cada veia, cada cicatriz, cada pulsão de memória. Conan Gray se elevou além do pop convencional para criar uma obra que é tanto pessoal quanto universal, um testemunho do poder do storytelling na música contemporânea. Se Found Heaven foi um experimento sonoro, o lançamento é a consolidação de uma voz artística que recusa ser categorizada. Nesta sincronia entre o singular e o plural, entre a vulnerabilidade confessional e a resiliência musical, o artista originário do YouTube não apenas entrega seu trabalho mais coerente e profundo, mas estabelece um novo paradigma para a narrativa contemporânea: a que reconhece que a maior revolução possível é, ainda, a coragem de sentir.

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