Vincent Lima revive o trágico amor de Orfeu e Eurídice em To Love a Thing That Fades

No centro da imagem, um pequeno barco navega em direção ao horizonte. Está cercado por águas escuras que contrastam com o céu em tons rosados. A luz do céu reflete ao redor do barco em um leve tom amarelado. O barco está vazio.
“Você ficará comigo? / Enquanto eu viro pó? / Quando você contar a história deles / Diga que eu fui amado” (Foto: Island Records)

Vitória Mendes

Se tudo o que você ama estivesse fadado a desaparecer, ainda assim você escolheria amar? Esse é o questionamento que segue Vincent Lima em To Love a Thing That Fades. Lançado em setembro de 2025 pela Island Records, a estreia do artista leva o ouvinte a uma jornada onde romance e perda são separados por uma linha tênue, que tende a desaparecer com cada passo em direção ao futuro ou ao passado. Com 15 faixas, o álbum se destaca dentro do cenário atual da música folk, principalmente por explorar as nuances emocionais da vida. Acima de tudo, apresenta uma história repleta de vulnerabilidade, sensibilidade, amor e a luta silenciosa contra a inevitabilidade do destino.

Ao longo de sua trajetória, o cantor estadunidense desenvolveu uma estética sonora e vocal que privilegia o compartilhamento das emoções. Na obra, essa fórmula é aprofundada de forma positiva por meio da narrativa que espelha o mito de Orfeu e Eurídice. Na mitologia grega, Orfeu, um músico com talentos sobrenaturais, faz uma jornada ao submundo em busca de sua amada Eurídice, que morreu prematuramente. Hades, o rei do local, se comove por sua música e permite que Orfeu a leve de volta, com a condição de que ele não pode olhar para trás durante o retorno ao seu destino. Vencido pela dúvida, Orfeu olha para trás, vê Eurídice e a perde para sempre. 

A produção reflete a inevitável tragédia que cerca a temática e idealiza o ponto de vista de Orfeu, explorando os momentos simbólicos nos quais esperança, medo e coragem andam juntos e definem cada decisão. Nessa atmosfera mitológica e dramática, o ouvinte é absorvido pela intensa ficção e acompanha em primeira mão a nova abordagem de Lima para a lenda. Ele o reimagina com delicadeza e, ao assumir a perspectiva do herói grego, cria uma estética repleta de contrastes físicos e sentimentais.

Cada faixa foi construída para integrar o conjunto, e apesar de serem similares em temática e estilo, contribuem individualmente para a narrativa contínua. Apesar das referências específicas e nichadas, a escrita permite que o público que não tem familiaridade ou conhecimento de mitologia grega absorva a história e se conecte emocionalmente. Outro ponto alto da produção é a composição sonora. Com o uso expressivo do violoncelo, violão, bateria e violino, tradicionais no folk, o resultado final é marcante e dinâmico. Em sincronia com as técnicas vocais que transmitem a visceralidade na voz, a urgência e a devoção de Lima, ouvir a obra completa é como apreciar uma história contada ao redor de uma fogueira. É imersivo, íntimo e comovente.

A abertura Orpheus já define o tom do álbum com uma interpretação potente e sincera, sintetizando o estilo musical e lírico do compositor. O cenário sombrio sustenta o reconto e dá vida ao conflito entre realidade e memórias, assim como entre o que está presente e o que não pode ser recuperado. Em Eurydice, o piano ganha protagonismo e os elementos mitológicos se tornam mais evidentes. A forma como ficção e experiências reais se entrelaçam torna a narrativa identificável para o público. A fragilidade e veneração presentes na faixa remetem à produção de artistas como Hozier, mas com o toque pessoal de Lima.

A partir de In The Cold, o disco explora as inseguranças dentro de um relacionamento, o luto pela juventude perdida e as dificuldades de amar sob condições adversas, usando o frio como metáfora para o afastamento e a ausência. Por sua vez, The Fire revela traumas e traz o contraponto de que amor não é salvação, é uma luta diária como uma caminhada pelo fogo, que apesar de machucar, mantém a chama acesa. Em The Only Thing Left, esperança e desespero são o foco quando duas almas se unem em meio à ruína e se perguntam quando serão destruídas também. A entrega mútua é o último refúgio antes da inevitável tragédia e, de fato, uma das faixas mais notáveis e significativas do álbum. 

Um homem branco de cabelos castanhos curtos está sentado tocando piano e cantando. Não é possível ver seu rosto inteiro, apenas o perfil. Ele usa uma jaqueta escura que reflete a luz de um abajur amarelo e das luzes do palco ao fundo. Ele está inclinado para o microfone a sua frente. As luzes trazem um tom laranja e amarelo para a imagem.
“Porque você ficou de pé e me abraçou enquanto tudo queimava / Agora estou a um dia de distância do pior dia da Terra” (Foto: Steven Nguyen)

À medida que o disco avança, a tensão aumenta sem romper a coesão construída. Faixas como Dance Here Slowly e Captured desenrolam a história de forma lenta, representando um momento de silêncio antes de uma tempestade. Apesar de serem menos impactantes, contribuem para o drama e para a ambientação adequada. Em Fair To You e nas faixas que marcam a metade da obra, surgem referências ao mito de Ícaro que traz à tona a fragilidade emocional humana e explora o amor como uma âncora estável em tempos difíceis.

Nas últimas canções, a dor e a vulnerabilidade são essenciais e criam uma atmosfera de devastação e de amor que ultrapassa as barreiras do espaço e tempo. Entre dúvidas e perdas, The End of Eurydice é o ápice da tragédia e representa o fim da história de Orfeu e Eurídice. A partir desse ponto, o narrador na forma de Orfeu percebe que deseja reescrever a história, porém não consegue e se concentra em não deixar a memória de seu amor desaparecer também. A jornada é encerrada em Inner Peace e Charon Retires, que refletem a derrota, a paz interna e resignação serena, enquanto Caronte, o barqueiro do submundo, sorri e carrega as almas dos mortos pelo mar. O ciclo se fecha como uma respiração profunda que reflete alívio e contemplação.

O álbum é uma construção minuciosa de sonoridades e letras que dialogam entre si com naturalidade. A produção é coesa e sensível, sendo possível sentir e absorver cada parte do conjunto. A mitologia foi retratada com uma autenticidade que mistura referências clássicas a partir de experiências pessoais de forma agradável. Por meio das composições que trabalham diversos aspectos, o disco tenta entender o sentido de tudo em uma epifania, mesmo que seja uma missão impossível. Afinal, há complexidades e catástrofes até no mais lindo dos amores.

To Love a Thing That Fades não apenas visita uma antiga história. A produção exibe a caminhada em uma estrada devastadora em busca daquilo que se perdeu. Com honestidade brutal e um trabalho que respeita cada nuance das emoções, Vincent Lima entrega uma experiência que vai além do folk tradicional. É um convite para aproveitar a jornada ao passado, aceitar as tragédias e ainda assim encontrar beleza e paz no caminho de volta. 

Deixe uma resposta