The Buccaneers entrega vestidos lindos, romances arrastados e menos alma feminina em sua 2º temporada

 Imagem promocional da série The Buccaneers. Cinco mulheres estão deitadas de costas em um campo verde cheio de pequenas flores brancas. Elas usam vestidos de cores suaves e românticas, com flores presas no cabelo. Elas estão dispostas em círculo com as cabeças próximas e olhando para cima
A amizade e irmandade feminina – que era pra ser o foco da série – acabou sendo deixado para segundo plano na nova temporada (Foto: Apple TV+)

Stephanie Cardoso

A segunda temporada de The Buccaneers, série original da Apple TV+, chega tentando manter o charme, mas tropeça justamente onde era mais potente: a amizade entre mulheres. O que na estreia parecia um manifesto delicado sobre juventude feminina, pertencimento e afeto – aquele calor de girlhood, para usar o termo consagrado nos círculos culturais – agora vira pano de fundo para intrigas românticas e melodramas em câmera lenta. Visualmente, continua um deslumbre, porém, narrativamente é como trocar um diário íntimo por uma coluna social de revista de época.

Inspirada no romance inacabado de Edith Wharton – publicado postumamente em 1938 – The Buccaneers tinha tudo para ser uma adaptação literária com fôlego crítico e emoção à flor da pele. A escritora, conhecida por obras como A Época da Inocência (1993) – que foi adaptada por Martin Scorsese – e A Casa da Alegria (1995), já explorava as tensões entre mulheres e sociedade com rara sofisticação. A primeira temporada honra esse legado – garotas americanas ricas invadindo a aristocracia britânica com vestidos ousados, atitudes mais ainda, e uma solidariedade de fazer inveja a muitos clubes de cavalheiros. Havia ternura, tensão, pequenas revoluções cotidianas e falava de girlhood – essa experiência densa, confusa, brilhante e, por vezes, sombria de ser jovem mulher num mundo que te julga antes mesmo de você se descobrir.

Cena da série The Buccaneers. Vemos na imagem Nan, uma mulher branca, de cabelo preso para trás, usando um vestido vermelho elegante e tomara que caia. Ela está de perfil para a direita e tem um batom vermelho. Ao fundo, há um grupo de pessoas vestidas formalmente em trajes de época, em um jardim com vegetação verde
A produção foi a segunda adaptação da obra literária, sendo a primeira uma série em 1995 (Foto: Apple TV+)

A nova temporada parece desconfortável com o próprio silêncio. Tudo precisa ser resolvido com escândalo, cartas escondidas ou paixões proibidas. O núcleo da amizade entre Nan (Kristine Froseth), Conchita (Alisha Boe), Jinny (Imogen Waterhouse), Lizzy (Aubri Ibrag) e Mabel (Josie Totah) – o coração da história – praticamente evapora. Em seu lugar, surgem rivalidades forçadas, decisões passionais e um clima de ‘vale tudo pelo plot twist’. A sensibilidade dá lugar ao choque, e o olhar delicado sobre o feminino vira vitrine para dilemas de novela das cinco com produção de Oscar.

Kristine Froseth perde parte da força que a tornava tão magnética, a personagem que antes parecia movida por princípios, agora age com hipocrisia e uma certa arrogância disfarçada de empoderamento. Ela cobra dos outros uma honestidade emocional que a própria não pratica. Diz lutar por liberdade e autonomia, mas manipula os sentimentos de Guy (Matthew Broome) e Theo (Guy Remmers) com uma ambiguidade moral desconcertante. Ao esconder verdades importantes e seguir tomando decisões impulsivas – algumas que afetam diretamente a vida das pessoas ao redor – se torna menos uma heroína feminista e mais uma anti-heroína mimada. A série parece não perceber essa virada de tom e continua tratando suas atitudes como grandes gestos de coragem, quando na verdade são, muitas vezes, apenas egoísmo disfarçado de protagonismo.

Cena da série The Buccaneers. Vemos Nell (Leighton Meester), uma mulher branca com cabelo ruivo, preso em cachos e enrolado ao redor da cabeça. Ela usa um chapéu azul decorado com flores e um vestido azul claro com detalhes em renda preta, gola alta com babados brancos. O fundo está desfocado e escuro
Uma das surpresas da temporada foi ver Leighton Meester interpretar a mãe biológica de Nan – e tentar não lembrar da Blair de Gossip Girl enquanto assistia os episódios (Foto: Apple TV+)

Esse descompasso fica ainda mais evidente em seu arco com a sua mãe biológica, Nell (vivida por Leighton Meester, a Blair de Gossip Girl). O reencontro entre elas tinha tudo para ser emocionalmente devastador, um mergulho nas origens e nas contradições sociais que cercam a trajetória de Nan. Contudo a produção passa por isso com pressa, sem dar tempo para a dor, o confronto, a reconciliação ou mesmo para o conflito real. O que poderia ser um dos momentos mais ricos da temporada se dilui em cenas rápidas, quase esquecíveis, que tratam com superficialidade um tema que merecia muito mais densidade. A impressão é de que até esse pedaço da história foi sacrificado para abrir espaço para mais um drama romântico qualquer.

Talvez por isso, quem vem roubando os holofotes nesta temporada é a personagem vivida por Aubri Ibrag. Lizzy, que antes orbitava discretamente a história principal, ganhou corpo, carisma e uma profundidade emocional mais convincente que a da própria protagonista. Nas redes sociais, o culto a personagem cresceu a cada episódio: vídeos, fan edits e discussões exaltam sua sensatez, sua trajetória silenciosa e sua autenticidade – tudo o que parece ter evaporado do arco de Nan. É como se o público tivesse encontrado nela aquilo que a série prometeu com a protagonista, entretanto, não entregou: uma mulher jovem, complexa, ética e que amadurece sem precisar passar por cima dos outros.

Para além das presenças femininas da obra, a figura do Theo é uma das poucas surpresas agradáveis. Durante a temporada, seu arco entrega um dos raros momentos de sinceridade emocional ao passar dos episódios. Já Guy, o antigo amor de Nan, vira quase um mártir passivo, preso numa dinâmica injusta onde o afeto nunca é retribuído com a mesma integridade. A série parece querer que o público torça por sua ex-parceira a qualquer custo, contudo ignora o quanto ela se afasta da empatia e da ética em nome de sua própria narrativa.

Cena da série The Buccaneers. Cinco mulheres estão em pé, lado a lado, segurando suas saias ou mãos, olhando para a direita. Elas vestem roupas de época em tons pastel e terrosos, com detalhes bordados ou rendados. O jardim atrás delas tem plantas verdes e uma casa antiga parcialmente visível
O que era pra ser uma série sobre amizade e empatia feminina se tornou tudo menos isso (Foto: Angus Pigott/Apple TV+/The Forge Entertainment)

Ainda assim, não dá para dizer que The Buccaneers virou um desastre, a obra ainda é belíssima, tem um elenco com química e apresenta momentos isolados de potência – como as tramas centradas em Jinny e Mabel, que falam de temas como abuso e sexualidade com alguma coragem. Mas tudo isso parece surgir em meio ao caos, como relances de um seriado que já foi mais consciente de si mesma. Há menos escuta entre as personagens, afeto genuíno e espaço para as pequenas revoluções que antes costuravam cada episódio.

Talvez o problema seja justamente o tom, a série parece querer crescer junto com suas personagens, entretanto confunde o amadurecimento com o abandono de suas raízes. O foco deslocado da amizade para o drama romântico esvazia o que havia de mais revolucionário: mulheres que se escolhem, se defendem e se reconhecem. Sem isso, sobra só o que vemos em outras dezenas de dramas de época: bailes, vestidos, beijos proibidos. Bonito? Sempre. Original? Nem tanto.

The Buccaneers seguiu os passos da primeira temporada, ou seja, continuou sendo um deleite visual. Porém, para uma produção que começou com promessas de romper padrões e recontar o feminino com nuance e afeto, essa segunda temporada parece ter trocado a alma pelo verniz – e uma protagonista complexa por uma figura contraditória que se recusa a lidar com suas próprias falhas. Ainda há tempo para voltar a navegar com propósito, mas, por enquanto, o navio parece à deriva – lindo, caro, porém sem bússola.

The Buccaneers – trailer 2° temporada

 

 

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