
Henrique Marinhos e Maira Cavenaghi
Originalmente marcado do dia 18 de setembro ao dia 1 de outubro de 2025, a primeira parte do Ghibli Fest, festival de cinema realizado a fim de comemorar os 40 anos do célebre estúdio de animação japonesa Ghibli, fez tanto sucesso entre o público brasileiro que estenderam a programação em mais 15 dias. Durante quase um mês, 14 longas metragens foram relançados em cinemas de todo o país, incluindo tanto grandes clássicos, como A Viagem de Chihiro (2001) e Meu Amigo Totoro (1988), quanto obras menos conhecidas do estúdio, porém não menos surpreendentes, como Eu Posso Ouvir o Oceano (1993).
O Studio Ghibli foi fundado em 1985 pelos diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata em parceria com o produtor Toshio Suzuki. Antes do início formal do estúdio, o trio de cineastas desenvolveu junto o filme Nausicaä do Vale do Vento (1984), baseado em um mangá escrito por Miyazaki. Após a boa recepção da animação pelo público, o grupo de animadores dedicou-se na produção do primeiro filme oficial do recém criado Studio Ghibli: Castelo no Céu (1986). Ambos já trazem como ponto principal da narrativa a crítica à crise climática, tema constantemente explorado por Miyazaki em grande parte de suas obras. Outro ponto marcante é a abordagem fantástica e poética escolhida para os filmes, tanto no aspecto narrativo quanto nas suaves ilustrações, estilo que tornou-se marca registrada do estúdio.
Na sequência, em 1988, o estúdio lançou dois filmes no mesmo dia: Meu Amigo Totoro, dirigido por Miyazaki, e Túmulo dos Vagalumes, de Takahata. Essa estratégia foi adotada devido ao caráter contrastante das animações, uma vez que, enquanto Meu Amigo Totoro continuava a atmosfera fantástica das primeiras obras do diretor, inclusive amenizando a narrativa para uma abordagem mais mágica e lúdica, própria para o público infantil, o filme Túmulo dos Vagalumes focava no impacto da Segunda Guerra Mundial na população civil japonesa. Ambos são considerados marcos do Cinema, porém a obra de Miyazaki consolidou o Studio Ghibli no imaginário popular mundial, com a imagem do Totoro sendo utilizada até os dias atuais como a principal logo do estúdio.

O Studio Ghibli está, definitivamente, consolidado no panteão da indústria cinematográfica mundial. A recente consagração com uma Palma de Ouro honorária no Festival de Cannes – a primeira concedida a uma entidade coletiva como um estúdio – e a conquista de um segundo Oscar de Melhor Animação por O Menino e a Garça (2024) também reconhecem seu sinônimo de Cinema da mais alta estirpe.
Para além da beleza e técnica, suas narrativas exploram a complexidade da experiência humana, a nossa relação com a natureza e a busca por identidade, tudo envolto em um profundo senso de humanismo. Essa perpetuação também tem o Ghibli Fest como mecanismo para além de sua celebração de 40 anos, que leva os clássicos do estúdio de volta às salas de cinema em escala global e possibilita que sejam redescobertos por novas gerações e reinterpretados pelas antigas, agora dialogando com as ansiedades contemporâneas.

Entre uma cultura de burnout, crise climática e instabilidade geopolítica, não assistimos a O Serviço de Entregas da Kiki (1989) ou Nausicaä do Vale do Vento (1984) da mesma forma que o público de suas épocas. Sentimos até de forma mais íntima. A partir disso, podemos nomear esse gigante da animação como um dos embaixadores do Cool Japan – o nome do soft power que apresenta a cultura japonesa para o mercado global –, que molda e constrói a ponte cultural que volta a audiência internacional e sua percepção quanto ao país e sua cultura.
O sucesso do estúdio não se restringe apenas às bilheterias arrecadadas, com diversos produtos derivados das animações comercializados internacionalmente, desde os mais comuns, como roupas, até réplicas de itens célebres dos longas-metragens. Assim como o seu contraponto ocidental, a Disney, o Estúdio Ghibli também abriu seu próprio parque de diversões em Nagoia com ambientações inspiradas nos universos fantásticos das suas histórias, tornando realidade o sonho dos fãs de explorar florestas com seres mágicos e visitar chalés aconchegantes, como em Meu Amigo Totoro (1988). Em menor escala, em Tóquio tem o Museu Ghibli, onde, além de exposições sobre a história do estúdio, os visitantes podem apreciar curtas-metragens exclusivos, inclusive alguns dirigidos pelo Miyazaki.

A identidade artística do Studio Ghibli é também resultado de uma coalizão criativa entre seus dois fundadores/diretores, Miyazaki e Takahata. A relação entre eles, documentada em obras como O Reino dos Sonhos e da Loucura (2013), é frequentemente descrita como uma rivalidade de mangá shounen em que dois amigos e rivais que se impulsionam mutuamente para a excelência, cada um buscando superar o trabalho do outro. Essa tensão dialética e não monolítica foi, possivelmente, um dos ingredientes na fórmula para o sucesso arrebatador do estúdio.
Miyazaki infunde em suas obras um otimismo humanista fundamental, uma crença resiliente de que, apesar de tudo, vale a pena viver neste mundo. Takahata, por outro lado, inclinava-se para um realismo frequentemente doloroso e pessimista. Seus filmes, como o devastador O Túmulo dos Vagalumes, tocam em nervos expostos da história e da condição humana. Essa dicotomia estendia-se também à sua abordagem estilística.
Takahata era um experimentalista, alterando radicalmente o estilo de animação para servir à história, como visto na estética de tirinhas de jornal de Meus Vizinhos os Yamadas (1999) ou na beleza etérea de aquarela de O Conto da Princesa Kaguya (2013). Já Miyazaki, embora igualmente detalhista, opera dentro de uma fantasia mais consistente, onde o realismo serve para ancorar o fantástico e dar peso a mundos imaginários.

Lançado antes da fundação oficial do estúdio, mas considerado seu precursor espiritual, Nausicaä do Vale do Vento (1984) foi concebido na Guerra Fria. Sua narrativa é em um mundo pós-apocalíptico, devastado pelo dito Sete Dias de Fogo e coberto por uma selva tóxica, uma alegoria ao medo de um inverno nuclear. Hoje, essa mesma imagem adquire uma relevância literal e assustadora.
Uma década depois, Miyazaki revisitaria a tensão entre a humanidade e a natureza de uma forma ainda mais conflituosa em Princesa Mononoke (1997). Se em Nausicaä a esperança reside na compreensão e coexistência com uma natureza alienígena, Mononoke apresenta um conflito irreconciliável entre o progresso industrial da Cidade de Ferro, liderada pela pragmática Lady Eboshi, e os deuses-animais da floresta, representados pela selvagem San. A violência é explícita e as lealdades são complexas, no entanto a possibilidade de um equilíbrio, ainda que frágil, permanece como um ideal miyazakiano.

À primeira vista e por outro lado, de Takahata, PomPoko – A Grande Batalha dos Guaxinins (1994) parece uma fábula ambientalista sobre a luta de tanukis (cães-guaxinim) mágicos contra a expansão urbana de Tóquio. No entanto, fala sobre a destruição da cultura, do folclore e das tradições diante do avanço implacável do ‘progresso’ capitalista.
Quando os tanukis usam sua magia para projetar uma visão fantasmagórica da paisagem como ela era antes do desenvolvimento – não uma natureza selvagem, mas um mosaico de fazendas, santuários e vilarejos. Isso revela que a luta é por um estilo de vida. Enquanto Miyazaki, tanto em Nausicaä quanto em Mononoke, busca um caminho, por mais difícil que seja, para a harmonia ou um novo começo, a conclusão de Pom Poko é majoritariamente pessimista e socialmente realista. A magia dos tanukis falha em deter o dito progresso. Não há pacto com a natureza ou vitória moral; a única saída é a assimilação, a perda de identidade em troca da sobrevivência.

A produção de O Castelo Animado (2004) foi uma resposta de Miyazaki à Guerra do Iraque de 2003. Nesse mesmo ano, ele não estava presente na cerimônia do Oscar quando ganhou Melhor Animação pelo filme A Viagem de Chihiro. Em entrevista ao LA Times, explicou que “Não queria estar presente em um país que estava bombardeando o Iraque”, destacando, novamente, os valores pacifistas do diretor. No filme, a guerra é retratada como anônima, sem sentido e terrivelmente destrutiva. Enormes naves de guerra bombardeiam cidades civis, as transformando em infernos de fogo.
Howl, o protagonista subverte o arquétipo do herói de guerra. Ele é, na essência, um objetor de consciência que usa sua magia para evitar o combate. Quando é forçado a lutar, ele se transforma em uma criatura monstruosa, vez que a participação na violência é inerentemente desumanizadora. Sua luta, em paralelo, também é para proteger as pessoas que ama. Miyazaki, assim, transforma o pacifismo de dogmas em resistência pessoal e existencial.

Entre as obras mais aclamadas do Studio Ghibli, A Viagem de Chihiro e O Serviço de Entregas da Kiki exemplificam a dualidade em conter críticas sociais e ao mesmo tempo, construídas como peças de entretenimento de altíssima qualidade. Em A Viagem de Chihiro, vencedor do Oscar e um fenômeno global, a crítica ao capitalismo tardio e à cultura de consumo que permeia todo o longa.
A casa de banhos dos espíritos é um microcosmo da sociedade, regida por Yubaba, uma feiticeira em trajes ocidentais como poder corporativo personificado. Seu primeiro ato é roubar o nome de seus empregados, apagando sua identidade em troca de trabalho. Assim, o consumo é associado à perda enquanto os pais de Chihiro viram porcos por sua avidez, e o Sem Rosto, personificação da ansiedade de identidade, tenta preencher seu vazio consumindo os outros, tornando-se um monstro insaciável.
Contudo, parte do apelo universal de Chihiro reside em sua capacidade de ser apreciado puramente como uma espetacular aventura de amadurecimento. A construção de seu mundo, repleto de deuses e espíritos da mitologia japonesa é visualmente deslumbrante. Da mesma forma, O Serviço de Entregas da Kiki, traz crise de Kiki, na qual ela perde sua capacidade de voar em uma metáfora para a exaustão criativa que ocorre quando a paixão vira trabalho, e sua ruca reside em seus afetos e nas pequenas felicidades e gentilezas do dia-a-dia.

Produzido como um filme para a televisão por uma equipe mais jovem do estúdio e por outro diretor, Tomomi Mochizuki, Eu Posso Ouvir o Oceano (1993) é uma obra singular no cânone Ghibli – um drama realista e contido. Visto hoje, a produção é uma cápsula do tempo de um mundo brevemente pré-internet. Sua trama de triângulo amoroso adolescente é impulsionada por mal-entendidos, telefonemas perdidos, encontros desencontrados e a lenta troca de cartas – conflitos inconcebíveis hoje. O longa serve como um contraponto melancólico e fora da curva no estúdio, com apenas uma hora é também um dos menos vistos e aclamados.
Ao incluir esses filmes menos consolidados, o Ghibli Fest cria espaço para celebrar não apenas seus grandes mestres, como Miyazaki e Takahata, mas também todos os outros diretores e profissionais que participaram ativamente da formação da filmografia do estúdio. No início de 2026, está programada para acontecer a segunda parte do festival, com oito novos filmes ainda não relançados durante essa fase inicial. É a oportunidade perfeita para rever seus filmes favoritos ou se aventurar pela primeira vez no universo encantador das animações do Studio Ghibli.
