
Eduardo Dragoneti
Há filmes que parecem nascer do silêncio – não o que acalma, mas o que grita. Terra Perdida, de Akio Fujimoto, é um desses. Exibido na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa do diretor japonês surge para contar uma história antiga, porém que o mundo insiste em não ouvir. A trama acompanha dois irmãos Rohingya, minoria muçulmana apátrida de Mianmar, Somira (Shomira Rias), de nove anos, e Shafi (Muhammad Shofik), de quatro, que partem ao lado da tia e do avô para uma jornada perigosa rumo à Malásia junto a outros refugiados, movidos pela esperança de reencontrar a família.
O destino é a casa de um tio, descrita pela tia simplesmente como uma casa com uma grande mangueira no quintal. Essa árvore, símbolo de tudo o que eles sonham em recuperar – abrigo, pertencimento e família – é também o ponto de partida para a visão que o cineasta tem sobre a infância em meio ao desamparo. Enquanto os adultos veem na mangueira uma promessa de estabilidade, as crianças a enxergam apenas como uma árvore grande e encantadora, sem compreender o peso simbólico que encontrá-la carrega.

O diretor recusa qualquer forma de estetizar o sofrimento dos Rohingya na tela. Sua câmera, quase sempre na altura das crianças, capta a vulnerabilidade humana. O uso da língua nativa do povo e o elenco formado por não-atores da própria comunidade transformam Terra Perdida em uma representação política e ética. Fujimoto filma com respeito, permitindo que cada olhar e cada pausa digam o que o roteiro não verbaliza. O realismo nasce da confiança entre quem filma e quem é filmado, mostrando a honestidade da produção em retratar as travessias de refugiados com a maior fidelidade possível.
Os silêncios são a base de todo o subtexto do longa. Em alguns momentos, eles funcionam como um convite à escuta e o espectador é levado a compartilhar o tempo das crianças. Seja procurando por comida, caminhando ou brincando de esconde-esconde – como deveria ser o comum –, a quietude engole quem assiste. Em outros instantes, porém, o silêncio se prolonga demais, e o que antes era imersão se aproxima da lentidão. É notável que Fujimoto sabe brincar com essa ideia, por já ter se aproveitado dela em Passage of Life (2017) e Along the Sea (2020), produções anteriores do diretor, mas escorrega nessa balança entre o silêncio que revela e o que esconde, o que aproxima e o que afasta o espectador.
Entre os dois irmãos, é Somira quem carrega o fardo da maturidade precoce. Aos nove anos, torna-se guardiã do irmão, mãe e guia por territórios que ela mesma desconhece. Infelizmente, esse papel se torna comum entre famílias refugiadas – a irmã mais velha tem a infância interrompida, convertida em uma responsabilidade que ela nunca deveria ter. O olhar da garota, que vai perdendo o brilho, é o eixo moral do enredo. Ela fica com a missão de proteger o caçula, contudo, ao mesmo tempo, precisa preservar nele a ideia de que ainda existe leveza no mundo, e a fotografia de Yoshio Kitagawa capta isso com delicadeza. Quando Shafi sorri, é porque Somira o permite.

A cinematografia é um dos grandes trunfos do filme. Kitagawa compõe imagens de uma beleza contida, com tons terrosos no ambiente que comunicam o emocional dos personagens. Seja no balanço do mar, na densidade da floresta ou nas cidades que parecem engolir os pequenos corpos cansados dos protagonistas, as lentes nunca invadem, apenas observam. Esse olhar ajuizado é o que sustenta a verdade da obra, que prefere a empatia ao artifício e mantém o tom quase documental.
O desfecho, com a morte de Somira, rompe qualquer idealização de superação. É um gesto duro, mas coerente com a lógica da travessia. A cena final em que Shafi brinca de esconde-esconde sozinho, já abrigado por uma nova família, acreditando que a irmã voltará, devolve ao filme o ponto de partida: a infância como resistência em um cenário onde o direito de ser criança é tomado. A perda não é um evento isolado, e sim uma condição de quem precisa continuar sem saber o que resta.
Terra Perdida chega como um testemunho dos Rohingyas. Um Cinema que não busca por piedade, e sim memória para um povo invisível. Mesmo com tropeços no ritmo e uma contemplação exagerada que por vezes distancia o observador, Fujimoto consegue construir efetivamente uma experiência de profunda humanidade. Os Rohingyas, hoje espalhados por campos de refugiados no Sudeste Asiático, continuam a enfrentar perseguição e esquecimento. Aclamado pela crítica, Terra Perdida reafirma a importância da memória e a força de quem, mesmo diante do medo, continua a buscar um lugar de pertencimento.
