
Vitória Mendes
Já pensou em como seria a vida se você deixasse tudo para trás, entrasse em um trailer e desaparecesse no mundo? Jonah Kagen não só fez isso como também transformou essa experiência em Sunflowers and Leather, seu primeiro álbum de estúdio. Lançada em setembro pela Arista Records, uma divisão da Sony Music Entertainment, a produção narra uma jornada de independência geográfica e, principalmente, emocional. Entre medos, aventuras e descobertas, há o esforço constante de aprender a viver e amar, mesmo que signifique se machucar no caminho. Consolidando o público que já o acompanhava nos EPs anteriores, o artista surpreende e traz uma nova percepção que une o country folk e o soft country.
Considerando o contexto de concepção, é como acompanhar uma narrativa e vivenciar a experiência imersiva ao lado do artista, que também produziu o documentário complementar Sunflowers and Leather – The Field Guide. O projeto retrata sua trajetória pessoal e proporciona ao espectador uma apreciação do processo de criação, servindo como braço para a relação com a obra. Desde suas primeiras composições, o sentimentalismo e a exploração de temas profundos e intrínsecos à natureza humana sempre estiveram presentes. Neste novo trabalho, esses elementos se tornam o foco principal e se mostram ainda mais acentuados.
A obra explora a antítese entre liberdade e limites, dor e beleza, vida e morte, refletida no nome do álbum: Sunflowers, os girassóis, simbolizam os traços suaves e leves da vida, enquanto Leather, o couro, representa a dor, as perdas e a morte. Além disso, Jonah reconhece os conflitos internos e aborda autodescoberta, dúvidas religiosas, busca por amor e o desejo de fazer seu eu do passado se orgulhar. Por meio de questionamentos sobre a existência, o ouvinte é levado para uma verdadeira montanha-russa emocional. É, sem dúvida, um disco para ser apreciado com calma e preparado para o impacto emocional que provoca.

O trabalho se ancora em elementos acústicos para construir uma atmosfera melancólica e contemplativa. Durante 16 faixas, o ouvinte é convidado a se sentar ao lado do cantor e observar uma longa estrada que, mais do que levar a algum lugar, revela tudo que ficou para trás. When My Ashes Turn White abre o disco de forma suave, mas impactante ao refletir sobre encontrar as pessoas que um dia perdeu. O compositor é movido pela pergunta de como será lembrado quando tudo terminar e se o que fez em vida será suficiente para manter seu legado vivo. Sunflowers and Leather e Candy Land abordam o crescimento e a necessidade de desbravar o mundo, ligada ao medo constante de perder sua base inicial: a família, os amigos e a ideia de um lar perfeito.
Ao longo do álbum, há um cuidado narrativo ao se tratar de temas sensíveis, como violência doméstica e maternidade precoce em Krissy. Kagen também explora a complexidade dos relacionamentos, o luto de relações anteriores e a dificuldade de construir vínculos novos por estar assombrado pelas memórias em Anvil, Tennessee Girl e You Again. Também é apresentado o outro lado de querer ser amado e ter ânsia por viver tudo. The Reaper traz a sensação de um suspiro leve que acalma e acolhe, evocando um sentimento similar à Vienna de Billy Joel. O multi-instrumentista também aborda religião e identidade, que se conflitam em Burn Me ao refletir a indecisão entre seguir a tradição familiar ou o próprio caminho.
Essas rupturas entre passado, presente e futuro são consistentes durante a exposição. Além disso, outro ponto de destaque está em Black Lung, que relaciona a pneumoconiose dos carvoeiros (PNC), conhecida como doença do pulmão negro, com a experiência de crises de ansiedade. O artista menciona a invalidação e banalização da saúde mental em comparação com doenças visíveis fisicamente. A temática e a produção técnica a tornam um destaque entre as outras, assim como Light in the End que, em contraponto, funciona como um espaço de luz e amor. Enough finaliza o álbum com uma reflexão da jornada. O cantor compartilha suas incertezas e pondera se fez o suficiente para manter viva a memória de quem partiu.
Um dos principais pontos positivos é a maneira como, apesar dos temas intensos, há faixas mais leves e até dançantes, que trazem discussões interessantes, mas que divertem, afinal, é possível falar das dores de forma mais serena. A colaboração com Sam Barber também se mostrou marcante, as vozes se encaixaram bem e trouxeram um ar notável para Burn Me. No panorama, as produções líricas são fortes e até mesmo o silêncio entre cada verso é parte da narrativa. O conjunto é uma epifania silenciosa e emotiva.
Através do uso versátil do violão como base, a falta de experimentação não é um ponto negativo. Se encaixa muito bem no gênero e constrói uma personalidade interessante, que contribui para a aura reflexiva e a sensação de estar na estrada. Embora permaneça em uma zona segura e tenha uma produção similar a nomes como Noah Kahan, Dean Lewis, Vincent Lima e Dermot Kennedy, a obra revela a originalidade de Kagen, resultando em produções suaves. Apesar de não ser pensado ao mainstream e não ter hits, há vários destaques no álbum. Em suma, a produção é sólida, complexa e se encaixa muito bem na discografia do artista e no soft country.
Sunflowers and Leather não é apenas uma estreia, é uma carta aberta. O artista mostra que está disposto a se aventurar pelas estradas da vida, errando, acertando ou precisando recomeçar: o importante é deixar sua marca no mundo. Não apenas nas coisas que toca, mas também nas pessoas e nos lugares onde passa. Quanto ao seu legado, ainda está em construção, porém em um bom caminho com potencial de crescer e florescer. Todos querem ser lembrados, afinal, o que é uma pessoa, se não as marcas que deixa para trás?
