Suçuarana demonstra que o caminho também pode ser o destino

Dora, uma mulher de pele escura e cabelos crespos, está sentada em um degrau de tijolos do lado de fora de uma cabana rústica. Ela usa uma camiseta de manga comprida e jeans, com as mãos cruzadas sobre os joelhos. Ao lado dela, Ernesto, um homem de pele clara e cabelos grisalhos, está sentado em um banco, comendo em um prato. A luz dourada do sol poente ilumina a cena, lançando sombras longas. Em primeiro plano, o cachorro Encrenca, de pelo marrom avermelhado, olha para Ernesto, como se esperasse um pedaço de comida.
Estradas, encontros fugazes e paisagens em transformação constroem a jornada de Dora (Foto: Anavilhana)

Arthur Caires

A estrada é sempre mais do que um caminho: é um espaço onde a permanência só existe no movimento. Em Suçuarana, de Clarissa Campolina e Sérgio Borges, essa imagem se alia ao próprio animal que dá nome ao filme – o felino furtivo e limítrofe, que habita territórios entre mundos, sempre à margem e sempre em trânsito. É nesse mesmo limiar que se encontra Dora, personagem guiada por memórias e pela insistência em seguir, mesmo quando o destino parece escapar. Mais do que narrar uma jornada, o longa se constrói como um gesto de recusa ao previsível: desloca-se entre paisagens devastadas e coletividades possíveis, tensionando o pertencimento como experiência instável, aberta e inquietante.

Os diretores são nomes já consolidados no campo do cinema brasileiro. Ambos trazem em suas trajetórias produções que recusam o óbvio e desafiam o espectador a habitar zonas de instabilidade: Campolina com Girimunho (2011), obra que transitou por festivais internacionais como Veneza, Toronto e San Sebastián, e Borges com O Céu Sobre os Ombros (2010), premiado em Brasília pela ousadia estética e pela mescla entre documentário e ficção. Em Suçuarana, a parceria reafirma esse gesto de risco, conduzindo uma história que se constrói tanto a partir do rigor plástico quanto da abertura ao imprevisível, onde a narrativa se dobra ao movimento dos corpos e das paisagens.

Essa busca estética se ancora no trabalho da Anavilhana, produtora fundada em 2005 e dedicada a um cinema de fronteira, que não teme a porosidade entre realidade e invenção. É nesse território que a obra emerge, dialogando diretamente com um dos maiores traumas de Minas Gerais: a mineração que deixou atrás de si morros devastados e comunidades em ruína. “O ferro acabou e ficou um monte de zumbi caminhando por aí”, diz um dos personagens, frase que ecoa como síntese da precariedade da vida num Brasil marcado pela exaustão de seus recursos e pela negligência de seus líderes. 

O interior de uma fábrica, com o teto repleto de uma complexa rede de tubulações, vigas e dutos metálicos. A luz entra por algumas aberturas superiores, iluminando parcialmente o ambiente desgastado. Figuras humanas, pequenas em comparação com a imensidão do local, estão espalhadas pelo chão e em uma escadaria de metal no centro da cena.
Estruturas vazias, ferro-velho e rotinas reinventadas transformam a fábrica em espaço de sobrevivência e coletividade (Foto: Anavilhana)

Dora, interpretada por Sinara Teles, carrega consigo apenas uma fotografia antiga e a lembrança de um sonho compartilhado com a mãe: encontrar o Vale da Suçuarana. É essa imagem, ao mesmo tempo nítida e inalcançável, que conduz sua jornada por estradas onde o horizonte parece sempre se deslocar. Na primeira parte, a narrativa se estrutura como um road movie que atravessa paisagens marcadas pela devastação da mineração. O que a protagonista encontra são personagens que, como ela, habitam a beira do colapso: sucateiros, andarilhos, sobreviventes que orbitam entre a solidariedade instintiva e a violência latente.

Esse percurso culmina em um clímax, ponto de inflexão que, não apenas interrompe a linearidade da viagem, mas marca a passagem para outro tempo e outra forma de cinema. O reencontro com o cachorro Encrenca, figura de companhia e resistência, sinaliza esse renascimento da trama: do caminho árido e instável, Dora é conduzida a um espaço de contemplação e pertencimento. O gesto de atravessar o túnel é também um deslocamento que rompe com a sobrevivência solitária e abre espaço para a possibilidade de novos modos de vida.

Ao atravessar o túnel, Dora encontra uma vila escondida nas montanhas, onde o que antes era uma fábrica, agora se converte em um espaço de sobrevivência unida. Ali, a presença da Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia introduz um cotidiano pautado por religiosidade, música, jogos e solidariedade, em que cada gesto carrega a marca da ancestralidade. Em contraste com a ruína deixada pela mineração, a comunidade ressignifica a precariedade em convivência, transformando restos de ferro-velho em sustento e partilha. Para a protagonista, essa experiência não dissolve sua solidão nem oferece a promessa de permanência, porém abre uma fissura: a chance de pertencer sem possuir, de existir em comum sem se fixar.

Em uma cerimônia noturna da Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, um participante em primeiro plano está vestido com trajes rituais. Ele usa um chapéu, uma máscara dourada que cobre a área dos olhos e um tecido de lã amarelo que esconde a parte inferior do rosto. Ao seu redor, outras pessoas mascaradas e com vestimentas tradicionais participam da celebração em um ambiente com pouca luz, criando uma atmosfera mística.
Rituais, cantos e devoção cotidiana revelam a presença da ancestralidade e da coletividade na vida da comunidade (Foto: Anavilhana)

A fotografia de Ivo Lopes Araújo junto da colorização de Lucas Campolina exploram com força visual o encontro entre devastação e beleza natural de Minas Gerais, tornando o cenário, não apenas pano de fundo, mas um personagem ativo que dialoga com a narrativa de Dora. A direção de arte de Thaís de Campos, a montagem de Luiz Pretti e o desenho de som de Pablo Lamar reforçam essa imersão, oferecendo ritmo e textura à experiência cinematográfica. A trilha sonora original, composta por Ajítenà Marco Scarassati e Djalma Corrêa, em alguns momentos remete à grandiosidade das extrações de Duna (2021), enquanto a mixagem de som dá corpo à ambiência rural, às vozes e ao silêncio como espaço de escuta. 

Todos esses elementos trabalham de forma integrada, estabelecendo uma relação consistente entre forma e conteúdo, capaz de transmitir sensações e emoções de maneira clara e coesa. É possível notar que todos os núcleos de produção atuaram em sintonia, articulando em um resultado uniforme e bem coordenado. Não surpreende, portanto, que o filme tenha sido reconhecido no 57º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, recebendo os prêmios de Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som e Melhor Montagem.

Na imagem, Dora, uma mulher de pele escura e cabelos cacheados, está sentada e olha para uma mulher mais velha que está em pé à sua frente. Dora veste um casaco azul estampado e um cachecol vermelho vibrante. A mulher mais velha, também de pele escura, usa um gorro macio, um suéter vermelho folgado e um cachecol brilhante, e tem a mão direita estendida sobre a cabeça de Dora, em um gesto que parece de bênção ou acolhimento. Ao fundo, caixas plásticas azuis e verdes sugerem um ambiente doméstico ou de armazenamento.
Entre a memória e o presente, cada gesto em Suçuarana constrói o sentido da viagem (Foto: Anavilhana)

Se o arco narrativo clássico sugeriria que Dora encontrasse redenção no acolhimento da comunidade, com lar, trabalho e vínculos, Suçuarana prefere subverter essa expectativa ao devolvê-la à procura. A escolha de partir, mesmo diante da possibilidade de permanência, reforça a recusa do final conciliador e aponta o caminho como destino em si – lugar de impermanência, liberdade e busca contínua. Nesse gesto, a produção afirma que não há uma única forma de vida capaz de oferecer respostas universais; ao contrário, abre espaço para múltiplas possibilidades, em que conexão e deslocamento coexistem como tensões inevitáveis da existência.

Suçuarana retorna, assim, à estrada que inaugurou sua história: espaço limítrofe, como a própria onça, onde fronteiras entre mundo interno e externo, solidão e coletividade, se tornam maleáveis. O longa se afirma como um cinema atento às feridas sociais e ambientais do Brasil – da mineração que devasta Minas Gerais às precariedades da vida cotidiana –, mas sem perder a capacidade de vislumbrar utopias possíveis. Ao recusar finais fáceis, Campolina e Borges sugerem que a verdadeira beleza reside no movimento, na busca incessante, e que a sobrevivência pode ser tanto individual quanto compartilhada, sempre em tensão entre deslocamento e pertencimento.

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