
Giovanna Araújo
Desde 2017, Ashnikko (Ashton Nicole Casey) se destaca na indústria musical com um estilo alternativo, excêntrico e autêntico. Sua carreira ganhou força em 2019 com o single Stupid, que hoje ultrapassa meio bilhão de streams totais. Em 2021, a artista lançou a primeira mixtape, DEMIDEVIL, e, dois anos depois, seu álbum de estreia, WEEDKILLER. Em outubro de 2025, este trabalho já marcado pela experimentação e originalidade ganhou continuidade com Smoochies, que reúne 15 novas faixas, sendo cinco delas singles.
No projeto de 2023, são explorados temas como a raiva feminina e o sentimento de fazer justiça com as próprias mãos em um mundo adoecido, ambientando essas emoções em um cenário futurista e fantasioso. Nele, há a combinação de elementos do pop e do trap com uma estética cyberpunk e narrativa quase mitológica, culminando em uma proposta estética distópica que transforma temas abstratos e complexos em matéria. Não à toa, Ashnikko integrou a soundtrack da série Arcane em 2024 enquanto o ciclo de WEEDKILLER se encerrava, com o single Paint The Town Blue.
Já em Smoochies (2025), a cantora se distancia dessa atmosfera fria e mergulha em temáticas quentes, explicitamente eróticas e ousadas – algo já pincelado na mixtape DEMIDEVIL. A sensualidade e os desejos femininos mais íntimos e crus são expostos sem filtros por meio de uma estética maximalista, assumindo o quanto as mulheres podem – e devem – ser pervertidas e obscenas em camadas extradimensionais. O álbum abraça o hype do eletropop e do hyperpop recuperado por BRAT (2024), de Charli XCX, adotando, na maioria das faixas, uma sonoridade eletrônica voltada para o universo club. O ambiente criado remete a um sleepover entre amigas, marcado por confissões que enfatizam a liberdade e a naturalidade da sexualidade.
Durante o mês de agosto, quando a nova era já se delineava, Ashnikko afirmou em um vídeo para o Shan On The Street que sua artista favorita é Gwen Stefani e que “se não fosse pelo álbum Love. Angel. Music. Baby. (2004), não estaria fazendo a música que faz hoje”. Neste novo projeto, é nítida não apenas a influência de Stefani, mas também ecos de Britney Spears e Kesha em seus períodos de maior projeção, na primeira década dos anos 2000. Faixas como Liquid, Microplastics e Sticky Fingers evocam uma verdadeira viagem sonora a esse momento do pop, caracterizado por batidas eletrônicas vibrantes, refrãos pegajosos e uma estética que mesclava irreverência, sensualidade e performance exagerada.
O videoclipe do primeiro single, Itty Bitty, apresenta uma clara referência ao enquadramento em close-up em espaços compactos característico dos clipes de pop dessa época, que visava destacar o artista e seus movimentos como no clipe de Toxic, de Britney Spears, ou Poker Face, de Lady Gaga. Até novembro, Smoochies conta com três music videos e todas as faixas são acompanhadas de visualizers, porém, a artista já indicou em suas redes sociais a possibilidade de novos lançamentos relacionados à era. A estética é marcada por uma construção visual hyper‑maximalista e pelo uso predominante de uma paleta em tons pastel, o que reforça esse ambiente lúdico e ousado que o álbum busca estabelecer.

Para além do respiro nostálgico dos anos 2000, a era Smoochies trás uma inovação notável no trabalho de Ashnikko que se manifesta especialmente na música She’s So Pretty e nas duas últimas faixas, Baby Teeth e It Girl. Trata-se de uma influência sonora do folk e country, com riffs suaves de violão pontuais e uma produção mais orgânica, que contrasta com o eletropop característico que se constituiu ao longo do disco. É a primeira vez que Ashnikko incorpora elementos desse gênero em sua arte de forma concreta e, embora possa inicialmente soar como uma experimentação, a execução demonstra maturidade e domínio do estilo.
A música conceitual, Smoochie Girl, se apresenta como a abertura e recepção do álbum e seus versos traduzem o ímpeto e a vulnerabilidade da paixão e as inquietações que o desejo desperta. No abre alas dessa experiência, Ashnikko aborda a dualidade entre o êxtase e a ansiedade da entrega, explorando a complexidade emocional que acompanha o envolvimento amoroso. Temas parecidos voltam a aparecer como em Baby Teeth, que funciona não apenas como uma extensão dessas ideias, mas também como um marcador estético que dialoga visual e conceitualmente com a capa.
COBRAH, cantora e compositora sueca, aparece como a única colaboração do Smoochies. Em Wet Like, Ashnikko e a artista brincam com o prazer feminino com alternância entre as vozes, que ilustram a dinâmica de dominação e submissão de forma explícita e bem humorada. A faixa explode em uma fusão sonora marcada pelo pop industrial e batidas que criam a atmosfera de club late-night, estabelecendo bem o caráter provocativo do disco.

Um aspecto emblemático da performer que reaparece neste projeto é a abordagem explícita de sua sexualidade. A artista é assumidamente bissexual desde 2019 através de uma publicação na rede social X (antigo Twitter) e, desde então, essa temática tem se mantido como uma marca constante em sua produção artística. Em 2021, Slumber Party – uma de suas músicas em que trata abertamente de relações entre mulheres – viralizou globalmente, contribuindo para seu reconhecimento como um dos nomes LGBTQIA+ mais latentes da indústria atual.
She’s So Pretty assume esse papel em Smoochies, narrando sua devoção, admiração e até submissão ao se relacionar com uma mulher de maneira quase visceral. A composição transita entre vocais ardentes e sedutores e um refrão que se desfaz em doçura em um tom apaixonado, delirante e etéreo, espelhando o contraste entre desejo e ternura. Outras faixas também refletem sua orientação sexual, ainda que não como tema central.
Em entrevista à revista britânica NME, em agosto de 2025, Ashnikko mencionou um diferencial do atual trabalho em relação aos seus anteriores que explica essa intimidade: “este é o primeiro álbum em que escrevo de forma muito autobiográfica, mas no fundo, tudo se resume à autonomia pessoal e a um toque de fantasia alegre”. A artista permite fluir na obra seu lado compositor e traduz suas próprias vivências em narrativas que alternam entre vulnerabilidade, humor e autoconfiança. A forte presença no conteúdo lírico resultou em um conjunto de canções que convertem experiências íntimas em expressões exageradas e camadas sonoras vibrantes e divertidas.

Essa subjetividade é profundamente explorada no encerramento, com a faixa It Girl. Assim como em WEEDKILLER, o elemento final aqui destoa lírica e sonoramente do restante do projeto, trazendo uma perspectiva mais melancólica e reflexiva. Nessa letra, a cantora expõe tensões familiares que evidenciam a influência das relações pessoais e das expectativas na formação de sua autoestima e imagem. A obra é amarrada com um olhar para dentro através de metáforas, brutalidade e confusão, propondo não só uma conclusão musical, mas simbólica: a afirmação de liberdade que se construiu ao longo do álbum agora se confronta com suas próprias sombras.
Smoochies, assim como WEEDKILLER e DEMIDEVIL, reafirma Ashnikko como uma das vozes mais autênticas e provocativas do pop alternativo contemporâneo, demonstrando sua habilidade em unir humor, erotismo e crítica sob uma estética empolgante e única. Em um cenário cultural e político cada vez mais atravessado por discursos conservadores, essa abordagem aparece sutilmente como um gesto contracultural que reivindica o direito ao prazer feminino e o coloca em pauta. Ainda que liricamente o disco se mostre menos denso e conceitual que o trabalho de estreia, Smoochies compensa em carisma e coesão estética e prova que a força de Ashnikko está justamente em sua capacidade de transitar entre estilos e tornar interessante qualquer temática.
