15 anos de Shrek para Sempre: revolução, família e amor são tudo aquilo que Shrek oferece

Fotografia de Shrek, ogro verde careca, Fiona, uma ogra de cabelo vermelho trançado e seus três filhos, bebês também ogros, dois meninos nas pontas e uma menina no centro. Shrek e Fiona vestem roupas marrom e bege, respectivamente. Ambos sorriem um para o outro enquanto seus filhos interagem entre si, também sorridentes.
A saga é uma adaptação do livro infantil Shrek, publicado pelo autor norte-americano William Steig (Foto: DreamWorks Animation)

Alice Burégio 

Toda criança já assistiu Shrek para Sempre. Dirigido por Mike Mitchell e escrito por Josh Klausner e Darren Lemke, é perceptível o impacto cultural e social que esse filme tem, mesmo depois de 15 anos de seu lançamento. De certa forma, a obra traz algumas lições de moral ao longo de sua extensão, sobre como as aparências não descrevem aquilo que arde no interior da pessoa, por exemplo, ideia muito explorada na saga da DreamWorks. 

Esta lição é vista em diversas cenas, como a de Shrek sendo perseguido, tanto em Shrek (2001), quanto em Shrek para Sempre, por ser um ogro e, em outra ocasião, quando ele e Fiona – sua esposa – retornam para o palácio, casa dos pais de Fiona, reis do Reino de Tão Tão Distante. Com sua volta, todos os espectadores carregam olhares de julgamento – não apenas os moradores do reino, como os próprios pais da princesa que, ao vê-la em forma de ogra, percebem que a maldição havia se concretizado. O desconforto e a decepção são visíveis em seus olhares.

Frame de Shrek, ogro verde com roupa marrom e branca, e Fiona, ogra verde de cabelo vermelho e vestido roxo e detalhes dourados, se aproximando da entrada de um palácio, um castelo branco com vários andares. Enquanto eles caminham, as pessoas ao seu redor observam chocadas com a aparência dos dois.
A música All Star, do grupo Smash Mouth, inicialmente foi utilizada como um tapa-buraco, porém, o público das sessões de teste gostou tanto que ela se manteve (Foto: DreamWorks Animation)

Shrek, o protagonista, era muito julgado por ser um ogro, porém, ao  conhecê-lo mais no decorrer do filme, percebe-se que ele, assim como qualquer um, têm sentimentos, sonhos e fragilidades. No entanto, não é exatamente este o motivo pelo qual a história marcou a infância das pessoas. Shrek virou uma referência por misturar humor ácido com emoção e apresentar uma versão diferente e cativante  dos contos de fadas já conhecidos.

Além disso, personagens icônicos como o Burro, com o humor irritante e seu inesquecível bordão, “A gente já chegou?”, ajudaram a consolidar a saga como referência cultural. Contudo, Shrek para Sempre foge do roteiro dos filmes anteriores. Apesar de ainda haver o humor sagaz, ironia e piadas de duplo sentido, este é, sem dúvida, a obra mais sentimental da franquia – aquele que mergulha em reflexões mais profundas, como a solidão –, sem deixar de lado o espírito divertido e infantil que sempre foi referência na obra.

GIF de Fiona, ogra com cabelos vermelhos; Burro, animal cinza e Shrek, ogro careca. Este, que fala interminavelmente e estressa Fiona, a qual apresenta cara de sofrimento, e Shrek, ao aparecer gritando. Todos estão alocados em uma carruagem branca com formato de cebola.
Em 2002, Shrek ganhou o Oscar da categoria Melhor Animação, superando Monstros S.A. e Jimmy Neutron: O menino Gênio (Foto: DreamWorks Animation)

Enquanto os outros filmes do conto tinham a mesma estrutura – uma missão para ser cumprida surgia no início do enredo –, essa história tem um diferencial: Shrek não busca salvar o reino, derrotar um vilão ou provar algo a alguém, ele apenas quer reviver a vida solitária de ogro, sem responsabilidades de marido e pai. Com esse detalhe, a trama torna-se mais madura e introspectiva, revelando um protagonista em crise existencial. Mesmo que ele não odiasse sua vida, queria fugir dela por um dia e viver como um “ogro de verdade”. 

 Diante desse sentimento, o enredo se inicia com o vilão Rumpelstiltskin oferecendo uma solução para essa aflição. Para conseguir voltar a ser um ogro de verdade por 24 horas, Shrek deveria oferecer qualquer dia da sua vida em troca. Porém, o que ele não imaginava, eram as consequências catastróficas que aconteceriam ao assinar o contrato, como Rumpelstiltskin roubando o dia do nascimento de Shrek, impedindo-o então de existir.

Os efeitos após isso evidenciam o perigo das escolhas impensadas e do desejo de escapar da própria realidade. Nesse universo alternativo Fiona não é mais a princesa à espera de um resgate do príncipe encantado, mas uma líder guerreira, que luta pela libertação e igualdade dos ogros. Essa versão independente e empoderada de Fiona é um dos grandes acertos do projeto, pois dá à personagem uma interpretação nova e autônoma.

Frame de Fiona, ogra verde de cabelo vermelho, enquanto sorri e conversa junto de dois ogros carecas de semblante sério. Na cena, todos vestem roupas amarronzadas, e planejam algo debaixo de uma grande árvore.
Inicialmente o filme iria misturar live-action com CGI, porém o produtor fez parceria com Pacific Data Images e tornou o filme totalmente animado (Foto: DreamWorks Animation)

O arco final, no qual Shrek precisa reconquistar Fiona para provar a força do amor verdadeiro, emociona por mostrar que o valor da vida está naquilo que muitas vezes negligenciamos. Ao quase perder sua família, o personagem entende que suas queixas não eram contra a sua vida em si, mas sim contra a própria incapacidade de enxergar o que havia de mais precioso nela. A identificação com o público pode ser muito presente neste momento, já que a lição conecta todos os que assistiram ao filme e sentem o peso da rotina e a não valorização do que já se têm.

A mensagem que essa animação deixa é semelhante ao desenho Soul (2024), da Disney: o que você tanto procura nem sempre é da forma que imagina. Às vezes, ao chegar àquele objetivo que almejava ou, no caso do Shrek, realizar a vida desejada, percebe-se que na verdade, não era o que havia sido idealizado. De fato o que deve ser aproveitado é o caminho, as vivências, as pessoas que amamos e os momentos que parecem simples e ainda sim, são valiosos, assim como assistir à Shrek para Sempre. 

A cena final dessa obra é uma das mais memoráveis e marcantes da saga inteira. Shrek começa a desaparecer aos poucos por não ser capaz de quebrar a maldição e finaliza sua vida contando para Fiona que toda a revolução, a caça e os sentimentos conflituosos da relação – entre eles o ódio, a atração e o amor – haviam compensado, pois ele teve a chance de se apaixonar por ela como se fosse a primeira vez. Esse trecho evidencia o carinho e amor presentes, demonstrando que Shrek e Fiona se apaixonam sempre, independente da linha do tempo.

Fotografia de Shrek, ogro verde com uma camisa bege e colete marrom, segurando seus três filhos no colo enquanto os amamenta com mamadeiras feitas de chuchu. Os bebês são semelhantes ao pai fisicamente porém, pequenos. Eles vestem roupas rosa, azul e bege, respectivamente da esquerda para a direita, enquanto arrotam.
Shrek salvou a DreamWorks da falência, pois a empresa vinha de um histórico de produções que falharam em trazer o retorno financeiro (Foto: DreamWorks Animation)

Shrek para Sempre marcou gerações, mostrando uma versão pouco explorada na saga, a partir de um ponto de vista mais sentimental, que mistura humor e aventura à emoção sincera. Portanto, é um filme que respeita a essência da franquia, porém oferece uma reflexão maior sobre identidade, escolhas e o verdadeiro significado da vida em família. A história é marcada por piadas, ironias, companheirismo e amor. 

Após esse lançamento, acreditava-se que a saga havia chegado ao fim, porém, em fevereiro deste ano, a DreamWorks Animation anunciou algo inusitado, Shrek 5, com lançamento previsto para 2027. No teaser, Shrek, Fiona, seus filhos, o Burro e Pinóquio aparecem já mais velhos, e deixa a expectativa para obra ser tão marcante e amado quanto o último foi. Até então, os fãs seguirão ansiosos pela continuação e se perguntando, assim como o Burro, se já chegamos lá.

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