
Arthur Caires
Há algo de purificador no sal. Ele arde, corrói, mas também cicatriza. Ruas da Glória, de Felipe Sholl, começa e termina nesse movimento de luto – um mergulho que é tanto literal quanto emocional. O filme acompanha Gabriel (Caio Macedo), um jovem professor que, após perder a avó e romper com o pai, parte do Recife em busca de uma vida nova no Rio de Janeiro. O que encontra, porém, é o caos de um desejo que o consome por dentro. Entre becos iluminados por neon e corpos suados na penumbra, Sholl filma o amor como uma vertigem: belo, porém irremediavelmente doloroso.
Assim como em muitas produções nacionais, o Rio é representado como uma cidade-personagem – viva, sedutora e cruel. Gabriel se muda para o bairro da Glória, onde as promessas de recomeço logo se misturam à decadência das noites quentes e das boates úmidas. É nesse espaço de fronteira que ele conhece o garoto de programa, Adriano (Alejandro Claveaux), um uruguaio misterioso e irresistível, cuja confiança aparente esconde um abismo. Fascinado por aquele homem e pela liberdade que ele representa, Gabriel se deixa engolir pela experiência, confundindo excitação com pertencimento e paixão com anestesia. Sua fuga do luto se torna, pouco a pouco, uma fuga de si mesmo.

Felipe Sholl dirige com visceralidade, permitindo que o corpo fale onde a palavra já não alcança. As cenas de sexo, longas e intensas, não são gratuitas – elas simbolizam a desintegração emocional do protagonista, que tenta preencher com carne o vazio da alma. Nesse percurso, a obra se ancora no universo da prostituição, sem tratá-lo como tabu, no entanto, tampouco escapando dos estereótipos que cercam sua representação. Gabriel se aproxima desse mundo como quem pesquisa e, de repente, se vê parte dele – não por escolha, mas por necessidade de se sentir visto.
No entanto, é impossível ignorar o quanto essa representação repete, em alguma medida, um velho fetiche do cinema queer: o deleite voyeurístico da dor. Há uma longa tradição de filmes que veem o ser gay como campo de sofrimento, vício e marginalidade – um padrão que Ruas da Glória não rompe por completo. Ainda assim, há algo de honesto em sua entrega, uma tentativa de olhar para a autodestruição não como espetáculo, porém como consequência. Sholl parece mais interessado em compreender o porquê dessa angústia do que em estetizá-la. Se a intensidade às vezes cansa, é porque a própria experiência de amar, e sobreviver a isso, também o faz.

Nesse inferno de paixão e fuga, a performance estonteante de Mônica (Diva Menner) surge como respiro e refúgio. Dona da boate onde Gabriel conhece Adriano, ela acolhe o jovem e se preocupa com ele. Sua presença é a caracterização do conceito de ‘família escolhida’, um alicerce tão central à comunidade LGBTQIAPN+. É oposto à obsessão: laços que curam, que sustentam quando o amor romântico destrói. Ao recusar esse afeto em nome de uma vontade impossível, o protagonista precisa descer ao fundo do poço para entender o que significa, afinal, ser amado.
Na última fase do luto, retornamos ao mar batismal. Gabriel emerge, coberto de sal e cinzas, com um novo olhar para o mundo. Apesar de ter relances de um retrato queer estereotipado, Ruas da Glória não oferece uma redenção fácil. O que é ofertado é uma mensagem positiva de reconstrução e o gesto de continuar existindo apesar do caos. E quando as ondas voltam a quebrar nas pedras, o som que ecoa é o mesmo de sempre: amar é se afogar – e, ainda assim, escolher voltar à tona.
