O adeus da Ovelha Negra – Rita Lee: Mania de Você é mais do que um documentário

Rita Lee: Mania de Você traz à tona a carta inédita que a cantora escreveu para os filhos pouco antes de sua morte (Foto: Max)

Luana Brusiano

Em Rita Lee: Mania de você, longa-metragem documental lançado dois anos após a morte da eterna rainha do rock, acompanhamos um pouco da vasta trajetória de Rita Lee Jones, suas conquistas, perdas, vícios e virtudes. Dirigido por Guido Goldberg, o documentário revive memórias pela lente de amigos, familiares e expõe a carta inédita deixada pela artista aos seus filhos antes de sua morte.

Polêmica desde a infância, Rita sempre rompeu padrões e foi pioneira ao abordar temas considerados tabus na sociedade brasileira, como o desejo feminino, a sexualidade e a liberdade individual. Com um enorme acervo de imagens de arquivos, o longa destrincha a trajetória da cantora desde os primeiros passos até a consagração de sua carreira solo, contando com entrevistas de nomes de peso na cultura nacional como Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Ronnie Von, entre outros compõem a narrativa do longa.

Momento íntimo de Rita Lee com os filhos, em uma cena que revela o lado mais afetuoso e cotidiano da artista (Foto: Acervo pessoal Rita Lee)

Com uma estética que remonta os anos 70 e 80, além de imagens da casa em que Rita viveu até os seus últimos dias, o documentário apresenta uma trilha sonora nostálgica. Desde os tempos com a banda Tutti Frutti até sua carreira solo, o longa conta com sucessos inesquecíveis que moldaram e ainda moldam gerações, entre eles Ovelha Negra, Mania de Você e Agora Só Falta Você. As músicas constroem uma atmosfera íntima e saudosista, e entre lembranças acompanhamos o que ficou da ‘ovelha negra’, como a própria artista se intitula, sempre cheia de contradições, rebeldia e coragem, fazendo juz a imagem de Rita Lee no cenário da música brasileira.

Para além da cronologia de sua vida no mundo da música, Mania de você também revela as fragilidades, embates midiáticos e o conservadorismo, além de sua grande história de amor com Roberto de Carvalho. Não apenas mencionando a relação de Rita e Roberto, o documentário abrange os fios condutores desse amor: um romance marcado por cumplicidade, parceria afetiva e artística, símbolo da vida pessoal e criativa da cantora.

Capa do álbum Fruto Proibido (1975), de Rita Lee & Tutti Frutti, um dos discos mais importantes da carreira da artista e um marco do rock brasileiro (Foto: Som Livre)

O longa não se detém em contar apenas a trajetória da cantora com a fama, mas expõe cicatrizes emocionais – como o período em que esteve presa durante a ditadura, em que a câmera foca no rosto de Rita durante a época com um rosto sereno, marcado pela dor, mas repleto de força. Ao trazer à tona essas dores, o filme abre espaço para algo ainda mais potente: a percepção de quem assiste. Tocante, emocionante e surpreendente, Rita é retratada como mais do que uma artista consolidada, sendo um símbolo de resistência em meio a uma sociedade opressora, principalmente durante um momento de censura e repressão.

A relação de Rita com as drogas também teve espaço no documentário e foi tratada de maneira direta, sem sensacionalismo e romantização. Em cenas de arquivo exibidas, Rita reflete sobre os excessos que teve, a experiência, sensação e os momentos de isolamento. O longa mostra como o uso de substâncias foi, por um período, parte da busca da artista por liberdade e experimentação e, ao mesmo tempo, como isso a levou a momentos de escuridão e isolamento. Rita Lee fala abertamente, em entrevistas de arquivo, sobre os excessos e as consequências sem recorrer a justificativas. A abordagem é honesta e contribui para humanizar ainda mais a figura da estrela, revelando uma mulher que não teve medo de expor suas fragilidades ao mundo.

Icônico figurino de tela transparente coberto por estrelas prateadas de lantejoulas, uma das produções mais marcantes de Rita (Foto: Reprodução)

O filme constrói uma atmosfera nostálgica e a comovente carta de despedida transforma Rita Lee: Mania de Você em um adeus apaixonado e uma homenagem à mulher que revolucionou o papel feminino no rock, mas deixa uma dúvida incômoda: será que Rita gostaria que esse momento íntimo fosse compartilhado com o mundo? A exposição desse conteúdo íntimo faz com que os limites entre a memória pública e a privacidade sejam questionados, uma vez que a artista sempre buscou controlar a própria narrativa e ser mais reservada quanto a certos aspectos de sua vida pessoal. Mesmo com a autorização dos filhos e do marido – e parceiro de composição –, Roberto de Carvalho, a divulgação da íntima carta deixa a sensação de que a linha tênue entre homenagem e exposição excessiva é atravessada.

Além disso, a narrativa do documentário deixa de fora momentos cruciais, como a passagem da compositora pelos Mutantes. O grupo é praticamente ignorado, talvez em respeito à antiga ruptura com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, e a ausência de registros fundamentais faz falta. Transmitir uma trajetória artística como a de Rita Lee em apenas 80 minutos é extremamente complexo e a profundidade em alguns momentos foi sacrificada, principalmente aspectos de sua vasta carreira no mundo da música, que são contados pela própria no livro Rita Lee: uma autobiografia.

Apesar dessas limitações, Rita Lee: Mania de Você desempenha com maestria o papel de eternizar a memória e a relevância de uma das maiores artistas da música brasileira. O documentário emociona e celebra a ousadia de uma mulher que falou abertamente sobre prazer, liberdade e feminismo, além de deixar um legado impossível de apagar. O adeus da ovelha negra pode não ter sido perfeito, mas é, sem dúvida, digno de ser ouvido.

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