Atriz e protagonista de Morte e Vida Madalena fala sobre sentimentos e diversidade na produção cinematográfica

Davi Marcelgo
Antes da última sessão de Morte e Vida Madalena (2025) na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo começar, Noá Bonoba, a atriz que interpreta a personagem título, advertiu a plateia: “É um filme muito divertido, muito engraçado”, mas… dava para confiar? Afinal, dificilmente uma profissional vai criticar seu trabalho, quanto mais dentro de um dos principais festivais do Brasil. Entre situações inusitadas e expressões hilárias, quem ignorou o aviso de Bonoba teve uma grata surpresa, o filme é o superlativo de divertido.
No decorrer de tantas desventuras que a cidade de São Paulo pode propiciar, principalmente em um domingo, com a Avenida Paulista fechada para os carros e aberta para os pedestres, a rotina exaustiva de pegar metrôs e trens para chegar ao estabelecimento desejado foi presenteada com o leve suspiro do longa dirigido e escrito por Guto Parente. Contudo, o público do Espaço Petrobras de Cinema não foi o único agraciado, enquanto apresentava a sessão, a atriz revelou que recebeu o papel como um presente. “É muito raro ainda que nós, pessoas trans, recebamos papéis complexos, então sou muito grata por essa personagem”.
Aquele dia parecia aniversário de debutante, onde todo mundo sai com um mimo em mãos. A aniversariante por ter as festas dos sonhos, os pais por conquistarem o sorriso da filha e os convidados por encherem a barriga sem terem gasto 10% do valor daquela comemoração. Na trama de Morte e Vida Madalena, após o falecimento do pai (Carlos Francisco), Madalena (Noá Bonoba), grávida, recebe a oferta de produzir e dirigir o roteiro deixado por ele. Porém, antes de aceitar seu destino, ela vai encarar a responsabilidade como a peça Édipo Rei. Neste Persona Entrevista, a dramaturga, pesquisadora e artista Noá Bonoba comenta a animosidade do público e a sua visão sobre o cenário cinematográfico.

Em relação ao seu sentimento sobre a sessão do filme de hoje, o público foi muito receptivo, teve muitas risadas em vários momentos. É um filme de riso, mas também de emoção. Como você está se sentindo?
Noá Bonoba: “Hoje eu fiquei bem emocionada, bateu diferente. Eu sempre fico, né? É um filme que tem arrancado muitas risadas e tem emocionado muito por onde passa, e hoje eu fiquei especialmente emocionada. Tô muito feliz.”
Enquanto falava, alguém que tinha acabado de assistir passou pela atriz e disse algum elogio, que ela respondeu rapidamente com um afetuoso “Obrigada”. Antes da entrevista, ela tirou fotos com algumas amigas que vieram prestigiá-la e com outras pessoas que testemunharam a exibição. Bonoba ficou sentada na frente, em uma das fileiras do canto esquerdo da sala de cinema, separada do resto dos espectadores que se concentraram nas poltronas do centro e do lado direito.
Por preferência, orientação da Mostra ou por qualquer outro motivo, esse afastamento garantiu uma espécie de mágica, com toda a atenção voltada para a tela, sem o compromisso de quem assiste querer agradar a estrela. De fato, as emoções criadas ali eram genuínas. Contudo, a partir do momento em que o encantamento cessou, os olhos se voltaram à profissional e, quando estava saindo da sessão, ainda dentro da sala 1, foi abordada por um admirador que comentava suas impressões sobre Morte e Vida Madalena. O deslocamento dela na apresentação não condiz nada com toda a atenção que teve com cada um que a parou pelo caminho da saída.

Retomando sua fala no começo da sessão, você diz que é raro ter papéis de personagens complexas atribuídos às mulheres trans. Para você, o que é uma personagem complexa? Como você enxerga os papéis de mulheres trans e travestis no Cinema?
Noá Bonoba: “O Cinema cisgênero, principalmente, ainda está trabalhando com a transgeneridade em uma zona muito rasa. Ainda ficamos muito restritas a fazer apenas personagens trans. Então, o que acontece nesse filme [Morte e Vida Madalena] para mim é algo muito raro, que eu espero que aconteça cada vez mais, que as pessoas entendam que a gente pode interpretar qualquer tipo de personagem, independente do gênero. Enfim, o que eu acho que esse papel me oferta é a possibilidade de ser atriz de fato, de eu poder explorar as várias zonas da minha profissão e da minha capacidade enquanto atriz. É uma personagem [Madalena] que, além de ser complexa, ela passeia do drama à comédia, ao mistério, é uma personagem maravilhosa.”
De fato, Madalena é uma protagonista complexa, que está grávida, mas não limitada ao papel de futura mãe ou vulnerável. Ela também é filha, produtora de Cinema e amiga. Um ser humano com memórias boas e dolorosas da infância, que voltam para assombrar sua travessia de morte para vida. Guto Parente considera esses dois extremos como ritos de passagem para criar Arte. Existe mágica nas roupas herdadas do pai e na imensidão do céu que se confunde com uma camisa degradê azul e branca.
Para assumir seu destino, Madalena será banhada pelas cinzas de seu criador, porém isto não é um ato consciente. É o vento quem encharca seu rosto com o pó que deveria ser levado pela brisa, com um passado que insiste em permanecer para existir um futuro, este representado pelo bebê que logo nascerá. São diferentes formas de sentir a vida: em uma criança que nasce no Cinema e um idoso velado no mesmo local. A Sétima Arte é encarada como um espaço de decidir quem é lembrado na tela, quais vidas são registradas e por quem serão – e qual memória será narrada.

As personagens que estão à frente e atrás das câmeras são diversas: mulheres negras, homens negros e mulheres trans. Qual tipo de vida este filme traz para o Cinema neste sentido de diversidade?
Noá Bonoba: “O filme coloca essa diversidade no corpo da produção. Para além da produção, da equipe técnica ser diversa, que corresponde a uma série de dissidências, o filme [que está sendo produzido na ficção] que se vê na tela também é de uma equipe diversa. E eu desejo que isso aconteça cada vez mais, que as pessoas trans, dissidentes, habitem os universos dos filmes, que a gente possa ver no escopo do coletivo mesmo essas pessoas, porque a gente existe nesses universos. Fazer filme, fazer Cinema não pode estar descolado dessas importâncias, essas pessoas precisam estar nos sets, na gerência como cabeças de equipe; no filme, a gente tem uma travesti fazendo a Direção de Fotografia. Também precisamos estar fazendo nossos próprios filmes.”
Madalena é uma mulher cis, interpretada por uma travesti, que vai de encontro com a fala de Bonoba, pois ela é quem gerencia o set de seu sci-fi, tomando as principais decisões ao lado das colegas que chefiam outros departamentos de uma produção cinematográfica. Fora da ficção, quem assina a produção é Ticiana Augusto Lima e Taís Augusto a Direção de Arte. Ao lado de Noá Bonoba, juntam-se ao elenco Linga Acácio, Jenniffer Joingley, Tavinho Teixeira e Honório Félix.
Morte e Vida Madalena passeou por alguns festivais, como a 19ª CineBH e o francês FIDMarseille, e ainda não tem data definida para chegar aos cinemas comerciais do Brasil, mas tudo indica que seja em 2026. Na prática, você nem vai precisar consultar o calendário, pois quando passar na frente de uma sala e ouvir altas gargalhadas, pode ir de olhos fechados, será este filme que estará em cartaz.
