Em estreia na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor de Nosferatu revela as características decoloniais de seu vampiro

Davi Marcelgo
Um navio chega ao litoral do Brasil. Os contêineres substituem as silhuetas imensas dos altos prédios no horizonte. Em seguida, o título Nosferatu surge no casco da embarcação em uma tipografia de pichação na cor vermelha. O transporte que se confunde com a cidade nas imagens em branco e preto de Cristiano Burlan transmite uma mensagem de integração. Seria o vampiro incorporado a uma metrópole brasileira ou o país condicionado ao colonialismo das produções hollywoodianas? Quem chega de navio a um país suga, como um parasita, a identidade daquele território ou ele é sufocado pelo que já habita ali?
Nosferatu, de Cristiano Burlan, compõe a seção Mostra Brasil na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, onde teve duas sessões, uma no CineSesc e outra no Reserva Cultural, estabelecimentos na região da Avenida Paulista. O longa parece romper com a imaculada imagem do monstro eterno, que busca pelo amor. Assim que atraca no porto, a criatura que levou a Alemanha do século XIX ao pânico, no remake encabeçado por Robert Eggers, não tem poder algum em terras brasileiras: ele é enforcado e ameaçado por uma mulher, é zombado e ainda alvo de um bloquinho de Carnaval.
Cristiano Burlan se une à musa do Cinema Marginal, Helena Ignez, para fazer o mesmo que o movimento captado por Rogério Sganzerla: romper com uma lógica. Se o responsável por O Bandido da Luz Vermelha (1968) se rebelou contra o Cinema Novo e o estrangeiro para pensar em uma linguagem brasileira, o gaúcho vai seguir pelo mesmo caminho, mas transgredindo com as adaptações da obra de Bram Stoker feitas fora das fronteiras do Brasil. O cineasta conversou com o Persona Entrevista e deu alguns detalhes sobre quais diálogos seu filme quer desenterrar.

Sempre que um filme de Terror brasileiro adapta um material estrangeiro há um fantasma em torno dele: o da “brasilidade”. Para você, é importante incorporar essa “brasilidade” ou não faz sentido?
Cristiano Burlan: “Claro, porque não teria sentido fazer uma adaptação ainda mais neste momento. Quando forças de opressão renascem, os filmes de vampiro começam a ser refeitos, é um espírito do tempo. Com certeza não é uma adaptação literal de uma ideia colonialista do que é vampiro, o nosso filme tá muito mais perto do Nosferato do Ivan Cardoso e de um gênero [terrir] que já foi muito trabalhado no Brasil; e a uma pergunta que a gente fez: quais seriam os nossos monstros de hoje em dia? Muito mais isso do que tentar adaptar, até porque os recursos eram muito parcos e nem sei se saberia fazer filme de vampiro nesses conceitos”.
Burlan complementa dizendo o que quer provocar a partir da sua ideia de como seria um vampiro em Santos ou São Paulo, “Não é esse gênero de Terror americano que provoca sustos”. O roteiro assinado por Cristiano Burlan, Emily Hozokawa, Fernanda Farias e Rodrigo Sanches vai interceder na atmosfera do Terror através de diálogos que mastigam a vivência das mulheres em uma sociedade patriarcal e temas que percorrem a mortalidade e a eternidade. Essa consciência de afastamento perante a tudo aquilo que é produzido na cultura pop dominante dos Estados Unidos está explícito no longa e na fala de Burlan, quando destaca que a falta de recursos está ligada à estética do Cinema brasileiro.
Ele conta que gosta de quebrar cânones ao mesmo tempo que os respeita. Isto fica evidente em Nosferatu pela presença de Helena Ignez e do crítico e teórico Jean-Claude Bernardet, que morreu em julho de 2025. Em determinado trecho, a personagem da ícone diz para o de Bernardet que eles serão ‘eternos’, e em outro Burlan recria a emblemática cena de A Família do Barulho (1970), de Júlio Bressane, em que a Prostituta (Helena Ignez) cospe sangue pela boca. Ao mesmo tempo, ela, como vampira, morde o pescoço do crítico – que ultraje! – e brinca, além de homenagear, na apresentação do elenco e equipe antes do filme ser exibido, dizendo que “Eu sou uma vampira! E tive o privilégio de morder quem? Jean-Claude Bernardet”. Ela finaliza sua fala pedindo por uma salva de palmas ao amigo.
“Eu gosto de trabalhar esses cânones com respeito, mas não com muito respeito, porque essas vozes [coloniais], essas falas, nos chegam até hoje, depois de tanto tempo”
Como é trabalhar com a Helena Ignez e o Jean-Claude Bernardet, grandes ícones do cinema brasileiro? De que forma você os trata pela imagem?
Cristiano Burlan: “A Helena, antes de mais nada, é minha vizinha e minha amiga, não é só uma das maiores atrizes do Cinema brasileiro. Sempre que eu penso em um filme, ela é uma das primeiras pessoas que penso; ligo pra ela, nem pergunta se tem roteiro ou dinheiro, ela topa, ela não hesita. E o Cinema Brasileiro perdeu um intelectual, crítico, provocador, ensaísta, todo mundo conhece a história dele [Jean-Claude Bernardet]. Eu perdi um amigo que morava do outro lado da rua. Eu acho que foi a última cena dele feita no Cinema, se não estou enganado, e Helena vampiriza ele. O que fica é a saudade e a cena desse encontro de dois titãs, mas antes de serem essas pessoas históricas, não eram museus ambulantes, eram meus amigos que topavam minhas loucuras”
O cineasta dedicou a sessão no CineSesc ao amigo antes de cada um dos membros da equipe que estavam na sala se apresentarem. Da produção executiva à maquiagem e caracterização, mais de dez membros se juntaram na frente da tela para falarem suas responsabilidades na obra, o que corrobora com essa ideia de um Cinema anti-americano que concentra suas produções no domínio de uma marca ou de um nome só, sendo que essa, especialmente essa Arte, é feita e vista de forma coletiva.
Assim, antes do filme começar, Rodrigo Sanches (que vive Nosferatu na pele) agradeceu à entrega da equipe para realizar o projeto: “Fizemos esse filme com pouquíssimos recursos e se não fossem essas pessoas, a gente não teria feito o que fez”. O artista finalizou o discurso convidando a plateia para uma festa no Teatro Cemitério de Automóveis.

Por que Nosferatu? Por que não Frankenstein ou outros monstros?
Cristiano Burlan: “Ah, porque a gente [brasileiros] gosta de esculachar! O Cinema Brasileiro, que é latino-americano, esqueceu que nossa estética está diretamente ligada à falta de recursos. Não ter recursos não significa fazer filmes menores, não estou apregoando ao ato de fazer filme sem dinheiro, tem que ter recurso. Mas quando não tem, né. E também com esses cânones, eu gosto. Eu adaptei Ulisses, agora vou fazer O Falso, que é uma personagem faustina que vive no jardim romano. Eu gosto de trabalhar esses cânones com respeito, mas não com muito respeito, porque essas vozes [coloniais], essas falas nos chegam até hoje, depois de tanto tempo”.
Se o Nosferatu de Burlan não apavora ninguém, tem motivo: sua fé na sagacidade do Brasil. Ele finaliza dizendo que “Não vi todos os filmes do Cinema Brasileiro, é um termo muito amplo, mas o Cinema da Boca do Lixo, o Cinema Paulista tem essa capacidade de não se levar muito a sério e dar risada das coisas, com seriedade, mas com leveza também, eu tenho um pouco disso.”
