
Arthur Caires
A comédia dramática Overcompensating parte de um lugar muito pessoal: nasceu como uma esquete nas redes sociais do comediante Benito Skinner, baseada em sua experiência como um adolescente tentando mascarar sua sexualidade por meio de uma performance hipermasculina. O que começou como piadas sobre gostar de Gossip Girl enquanto fingia adorar futebol americano evoluiu para um show de stand-up e, finalmente, chegou ao streaming pelas mãos da A24 e Amazon MGM Studios. Agora, transformado em uma série de oito episódios com produção executiva de Charli XCX e roteiro comandado por Scott King (Mad TV), a produção tenta se decidir entre ser uma paródia de seriados da década de 2000 ou um coming-of-age tardio em meio à referências do TikTok.
A trama acompanha Benny (Benito Skinner), um calouro da fictícia Universidade de Yates que está decidido a começar sua nova vida com uma versão mais autêntica de si mesmo – o que, no caso dele, significa tentar finalmente sair do armário. Só que o plano vai por água abaixo antes mesmo da primeira semana de aula terminar, quando ele se vê preso numa espiral de mentiras, situações constrangedoras e performances heteronormativas caricatas. Para piorar, o protagonista logo faz amizade com o namorado de sua irmã, Peter, interpretado pela estrela de The White Lotus, Adam DiMarco, que é líder da FAG, sigla para Flesh And Gold (Carne e Ouro, em tradução livre) – uma fraternidade de testosterona em estado bruto na qual os integrantes se comunicam mais com grunhidos do que com palavras.
No meio desse caos, brilham outros personagens que seguram o roteiro com carisma e timing cômico. Carmen (Wally Baram), a nova amiga do jovem, é sua principal confidente, ainda que passe boa parte do tempo tentando se encaixar e lidando com a morte recente do irmão mais velho. Hailee (Chelsea Holmes), colega de quarto da garota, é uma força da natureza cheia de frases absurdas, autoestima inabalável e senso zero de limites – a loira rouba a cena até parada no fundo com um vape na mão. Já Grace (Mary Beth Barone), a irmã mais velha de Benny, vive para satisfazer as vontades do namorado, enquanto suprime sua personalidade emo e a vontade de realizar suas próprias conquistas, como organizar um show da Charli XCX.

Overcompensating acerta em cheio quando abraça sua veia nostálgica e debochada. É como uma cápsula do tempo desorganizada que mistura os anos 2000, 2015 e 2025 num mesmo quarto bagunçado de república. A trilha sonora traz nomes como Lorde e a cantora britânica em sua era pré-brat, enquanto o roteiro e a estética fazem referência a ícones da adolescência como Skins e a banda My Chemical Romance. Tudo isso com adultos interpretando adolescentes, o que poderia ser estranho, mas aqui funciona como parte do charme metalinguístico da série.
O humor, quando bem calibrado, é um dos maiores trunfos do texto. A produção tem um talento especial para piadas incidentais, daquelas que acontecem em segundo plano e pegam você desprevenido – como o colega de quarto de Benny que vive pelado, dormindo profundamente no meio de uma festa. Essa piada sem sentido se combina com os momentos satíricos, como a aula de cinema onde todos veneram O Poderoso Chefão ou a constante presença de grupos de acapella à la Glee e A Escolha Perfeita. E, claro, há também falas absurdas como a de Hailee, logo após realizar sexo anal pela primeira vez: “I just had my salad tossed, ass ate, ass eaten, I don’t know, I’m not an English major”. Ou, em tradução literal: “Acabei de ter minha salada remexida, comeram minha bunda, minha bunda foi comida, sei lá, não sou formada em Letras”.
Outro destaque é a participação de Charli XCX, que além de realizar a curadoria musical, incluindo suas próprias canções, faz um cameo interpretando uma versão exausta de si mesma. Convidada para cantar na universidade, ela dispara para seu assistente: “Você acha que eu quero cantar Boom Clap pra um monte de estudantes de colegial?”. São momentos como esse que mostram o quão autoconsciente a obra é e que não tem medo de rir de si mesma ou de suas referências.

Apesar de bem escrita e com um olhar afiado para as referências culturais, Overcompensating às vezes tropeça na própria premissa. A jornada de autodescoberta de Benny – um jovem gay tentando lidar com sua sexualidade em um ambiente universitário – parece deslocada no tempo. Em um mundo onde Heartstopper consegue explorar as complexidades do armário com mais sutileza e verossimilhança, a produção de Benito Skinner parece presa a um passado recente que já não conversa com a fluência queer da Geração Z. É como se ele estivesse passando por um processo que faria mais sentido dez anos atrás, em um contexto menos acolhedor, o que tira um pouco da força emocional da narrativa.
Essa defasagem gera uma dúvida central: para quem, exatamente, essa série foi feita? Em muitos momentos, ela parece mais interessada em resgatar o trauma coletivo de millennials que cresceram sem referências LGBTQIA+ do que em dialogar com os jovens de hoje. Ainda que isso tenha valor – e claramente atinge um público específico –, cria um certo descompasso. Os personagens vivem conflitos intensos em torno da aceitação, mas o ambiente ao redor é surpreendentemente fluido e acolhedor, como se estivesse contando uma história de 2010 com personagens de 2025.

Outro ponto que compromete o ritmo narrativo é o excesso de drama e arrependimento. A construção de personagens imperfeitos, que cometem erros e aprendem com eles, é essencial para qualquer narrativa de amadurecimento. Mas, aqui é exagerado: em praticamente todos os episódios, há uma sequência de desculpas entre Benny, Carmen e seus amigos, como se fosse um ciclo infinito de culpa e reconciliação. O efeito, com o tempo, se torna cansativo. É como se Carrie Bradshaw, de Sex and the City, tivesse uma amizade com Devi, de Eu Nunca. O tempo de tela acaba sendo consumido por conversas circulares, deixando pouco espaço para avanços reais na trama.
Overcompensating brilha nos detalhes – das piadas certeiras às referências pop que capturam com precisão um espírito cultural específico –, mas que tropeça ao tentar construir uma história com fôlego emocional e relevância contemporânea. Assim como The Sex Lives of College Girls, ela funciona melhor como um retrato excessivo do que como um reflexo realista da juventude atual. No fim, parece mais voltada a adultos que revisitam suas inseguranças adolescentes do que aos jovens que hoje navegam um mundo bem mais descomplicado em questões de identidade. No entanto, ainda há charme suficiente em sua execução para fazer valer a maratona – mesmo que a identificação fique pelo caminho.
