O rock alternativo de 2013 mandou mensagem, e Sombr respondeu com I Barely Know Her

Capa do álbum I Barely Know Her do artista Sombr. A imagem mostra um jovem com cabelo escuro e encaracolado, vestindo uma camiseta vintage branca com detalhes vermelhos e o número 77 em vermelho, que parece ter manchas de sangue. Ele está com uma expressão séria e aponta os dedos indicadores para a cabeça, usando vários anéis nas mãos. O fundo é liso e claro.
Sombr prova que a vulnerabilidade pode ser divertida e poética ao mesmo tempo (Foto: Bryce Glenn)

Arthur Caires

Em 2025, depois de um ano dominado por artistas femininas como Charli XCX, Sabrina Carpenter e Chappell Roan, o cenário pop abriu espaço para nomes masculinos como ROLE MODEL e Conan Gray se destacarem – e é aí que Sombr aparece. Com seu álbum de estreia I Barely Know Her, Shane Boose consegue ocupar um nicho que vinha faltando: aquele rock com flertes do indie de 2013, que lembra Arctic Monkeys e The Neighbourhood, mas sem perder a sensibilidade do bedroom pop que ele vem lapidando há anos. O disco chega com uma mistura deliciosa de término de relacionamento e descoberta artística.

Mas não se engane: Sombr não é o típico ‘padrão alternativo performático’ que você vê ostentando vinil, bebendo café superfaturado e lendo Sylvia Plath só para parecer cool. Pelo contrário, ele desconstrói esse clichê com charme e autoironia, provando que dá para ser introspectivo, poético e, ao mesmo tempo, divertido. O trabalho é mais do que um álbum de término – é um retrato de um artista se encontrando, testando limites e fazendo de tudo para agradar seus fãs. Em um post do Instagram recente ele declara: “Minha vida é dedicada a esta música e a servir vocês para sempre. Nada mais. Eu amo vocês de todo o coração. Isso é só o começo”.

Por trás do nome Sombr está Shane Michael Boose, ou SMB, que escolheu o pseudônimo em uma fase mais sombria da vida, combinando perfeitamente com o clima melancólico e introspectivo de suas músicas. Depois de abandonar o ensino médio e deixar os dias de skate e matando aula para trás, ele viralizou com caroline em 2022 e mergulhou de cabeça na carreira musical. Desde então, vem construindo uma persona única nas redes, especialmente no TikTok, misturando humor autodepreciativo com o charme a là Finn Wolfhard e Timothée Chalamet. Com I Barely Know Her, ele sai de seu quarto para o mainstream, entregando sua primeira grande declaração como artista com visão clara e identidade própria.

No quesito produção, o disco de estreia é quase um feito solo de Sombr: ele é o único compositor de todas as faixas e toca guitarra, teclados, baixo e bateria na maior parte das músicas, conferindo uma sensação intimista e totalmente autoral. Ao seu lado, Tony Berg atua como co-produtor, trazendo sua experiência de veterano – com trabalhos recentes de Phoebe Bridgers e Lizzy McAlpine – para expandir o som sem jamais apagar a personalidade única de Shane Boose. O resultado é uma mistura sofisticada de indie rock dos anos 2010 com um pop alternativo moderno, que soa tanto familiar quanto revigorante.

Uma foto em preto e branco do artista Sombr. O jovem, com cabelo escuro e encaracolado, está com a cabeça inclinada para baixo e para o lado. Ele usa uma jaqueta escura sobre uma camisa clara. A iluminação dramática cria um forte contraste e sombras em seu rosto. O fundo é liso e claro.
Entre memórias e obsessões, Sombr entrega seu primeiro grande manifesto (Foto: Warner Records)

A faixa de abertura, crushing, já chega dando o tom do álbum: melodias envolventes e batidas marcantes que lembram os melhores momentos dos primeiros trabalhos do The 1975, misturando energia pop com aquela melancolia indie que gruda na cabeça. Em contraste, i wish i knew how to quit you mergulha na nostalgia dos anos 80 e transforma desejo em música pura, quase como se estivéssemos ouvindo a trilha sonora de um filme coming-of-age. Versos como “Você é o eco nas minhas veias” e “Vou escrever um livro com todos os motivos pelos quais poderia te chamar de lar”, mostram a capacidade de Sombr de traduzir sentimentos intensos em imagens poéticas.

Entre os destaques, undressed é a que melhor sintetiza a mistura do clima sombrio, composições confessionais e produção marcante. As letras de Sombr exploram lembranças e amores passados de forma íntima e intensa: “Não quero que os filhos de outro homem tenham os olhos da garota que não esquecerei”. Já back to friends funciona como o ponto de consolidação do disco: viral, cativante e direto, a faixa foi responsável por colocar Shane no radar da Billboard Hot 100.

Outras canções, como 12 to 12 e we never dated, acrescentam camadas interessantes à experiência. A primeira transforma obsessão em romantismo intenso, com uma vibe noturna que lembra uma caminhada por ruas iluminadas de Nova York, enquanto we never dated oferece uma reflexão melancólica e bem-humorada que condiz com o nome do disco, cantando sobre relacionamentos não concretizados: “Como é que nunca namoramos mas ainda me pego pensando em você diariamente?”.

Quanto ao futuro, Shane Boose tem um leque enorme de possibilidades à frente. Para quem acompanha o pop alternativo, o trabalho do cantor é uma experiência que merece ser ouvida, refletida e curtida – e pode ser apenas o início de uma carreira que promete ser memorável. No cenário de 2025, ainda em formação para muitos nomes em ascensão, Sombr já se destaca como um artista singular, e a corrida pelo Grammy de Best New Artist em 2026 parece cada vez mais plausível. Mesmo sendo um álbum de estreia, I Barely Know Her revela maturidade e visão artística consistentes, deixando claro que ele não chegou para brincar, mas para deixar sua marca.

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