
Victor Hugo Aguila
O maior desafio da vida adulta é se reconhecer para além de suas funções. Na seção de Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Nuvens Passageiras Obscurecem o Sol é um retrato sutilmente provocante do que realmente significa viver. Após passar a vida cuidando dos filhos e dos pais idosos, Tianzhen (Xiang Shizhen), uma mulher de 52 anos do sul da China, encontra seu maior desafio até então: descobrir sua identidade com o tempo que lhe é concedido.
Com uma fotografia fria, feita por Shuxuan Mei, e sem fazer mau uso das cores, o filme apresenta seu potencial visual somado a um roteiro simples e profundo. Ao emergir questões complementares como velhice e utilidade, a obra de Shen Tao destrincha a complexidade do sentimento de saber se definir para além dos papéis da vida. Como esposa, filha e mãe em período integral, a protagonista encontra dificuldades em saber o que deseja e o que pode ser após sua emancipação. Já na meia idade, a fala “Nada tem muito propósito quando você envelhece”, dita por sua amiga enquanto trabalham, atravessa o peito como uma lembrança de que a vida, de fato, passa.

Um marcador central da produção são os momentos de silêncio. No intuito de sair do vilarejo onde mora e conhecer o mundo, a personagem escancara o desejo de fuga de si mesma, uma vez que lidar com suas ânsias é um demônio grande demais para ser enfrentado. A partir disso, a dona de casa se encontra sozinha em diversos momentos – como quando cozinha ou se alimenta. Ao encarar o horizonte desejando conquistá-lo, é revelado sua ausência emocional, ainda que permaneça em cena, transformando o momento de calmaria em um tornado apático.
Na técnica, o longa chines cruza fronteiras e garante seu lugar como um dos melhores da Mostra. Em uma montagem genial, a continuidade das cenas se intercalam e se repetem, trazendo um sentimento palatável de confusão ao espectador. Nas cenas da família no carro, por exemplo, onde o filho mais velho dirige enquanto discute com a irmã, é transmitida a sensação de déjà vu justamente por ser reproduzido o mesmo cenário, porém com novos detalhes e perspectivas. É como se pudéssemos escolher qual contexto é mais coerente aos nossos sentidos, possibilitando que haja diversos desfechos para uma mesma situação. Essa linha de raciocínio, onde há diversas formas de encarar a realidade, é igualmente perceptível em obras como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), por exemplo.

Ainda que se configure na simplicidade, o roteiro consegue sustentar a profundidade da atuação expressiva de Xiang Shizhen. Nas cenas com teor melancólico, onde Tianzhen ansiosamente contempla os possíveis caminhos que permeiam sua vida, o olhar da atriz transmite todas as emoções necessárias para quem a assiste. Ao encarar a lente da câmera, ela consagra não apenas seu compromisso com o papel, mas também com a Arte e sua maneira singular de torná-la íntima.
Na realidade contemporânea, Nuvens Passageiras Obscurecem o Sol é um respiro de alívio no universo cinematográfico. De maneira transformadora, o longa é uma alusão palpável de como histórias protagonizadas por mulheres – especialmente com personagens maduras – podem ser consideradas um sucesso. Sob a ótica do destaque internacional, o filme é o exemplo perfeito para corroborar o que o cineasta Bong Joon-ho – Parasita (2019) – declarou em seu discurso de vitória no Globo de Ouro de 2020: “Uma vez superada as barreira de dois centímetros que são as legendas, vocês serão apresentados a muitos filmes incríveis”.
