
Arthur Caires
O cerco ao Palácio da Justiça da Colômbia, ocorrido em 6 de novembro de 1985, foi um dos episódios mais violentos e traumáticos da história do país. Integrantes do grupo guerrilheiro M-19 invadiram o edifício, em Bogotá, tomando magistrados, funcionários e civis como reféns em um ato que pretendia denunciar o governo e forçar um julgamento simbólico do presidente colombiano. A resposta militar foi imediata e devastadora: o exército cercou o prédio e iniciou uma ofensiva que durou cerca de dois dias, resultando em um incêndio que deixou mais de cem mortos, incluindo juízes da Suprema Corte.
Novembro nos joga imediatamente dentro do acontecimento, sem oferecer tempo para respirar ou compreender. Começamos com a gravação de uma ligação em um momento tenso, a tela chuviscando como se o próprio filme tentasse resistir ao colapso da imagem. Entre ruídos e reflexos, o espectador é arremessado ao olho do caos, como se também estivesse preso naquele banheiro onde guerrilheiros, juízes e civis se confrontam com algo mais violento do que balas: suas próprias convicções.

Dirigido por Tomás Corredor, que também assina o roteiro ao lado de Iana Cossoy Paro e Jorge Goldenberg, o longa é uma coprodução entre Colômbia, México, Brasil e Noruega, com participação da produtora gaúcha Vulcana Cinema. Inspirado em um dos episódios mais trágicos da história colombiana, o longa tenta equilibrar ficção e documento, alternando entre cenas dramatizadas e imagens reais. A proposta é ambiciosa: revisitar o trauma coletivo de um país e transformá-lo em catarse cinematográfica. Porém, entre a intenção e a execução, há uma distância que a própria obra parece não conseguir atravessar.
Apesar da intensidade do tema, Novembro encontra dificuldade em construir uma ambientação que sustente sua tensão. Ao optar por começar já dentro do acontecimento, Corredor abdica de um processo de imersão gradual, e o resultado é um cenário que se esvazia antes mesmo de se consolidar. As cenas de clímax carecem de textura; o cenário limitado, embora se esforce para sugerir uma dimensão simbólica, soa simples. Há uma vontade de fazer o espectador sentir o pânico, mas o medo nunca chega a se materializar.
Nas performances, essa fragilidade se repete. Natalia Reyes, no papel de Clara Helena, entrega uma atuação que parece travada entre o esforço de transmitir dor e a limitação do roteiro em oferecer profundidade emocional. Santiago Alarcón – como Magistrado Gaona – e o restante do elenco também oscilam entre o didatismo e o vazio, um conjunto de atuações que se esforçam para gerar empatia, e acabam transmitindo apenas um texto falado.

Ao incorporar vídeos de arquivo, Novembro pretende evocar a força da história e conferir densidade à narrativa. No entanto, a costura entre o material histórico e a ficção se mostra irregular. As imagens antigas parecem inseridas mais como reforço simbólico do que como parte orgânica do discurso. Falta uma correlação que sustente o gesto memorial, como se a produção acreditasse que a mera presença do real fosse suficiente para garantir profundidade.
Novembro quer ser uma elegia, uma tentativa de fazer justiça à memória das pessoas que morreram naquele 6 de novembro. No entanto, o que emerge é uma obra que deseja dizer muito, sem encontrar as palavras certas. Há uma nobreza inegável em revisitar uma ferida nacional, porém também uma responsabilidade estética e ética que o filme não assume plenamente. O resultado é uma reflexão incompleta: o longa fala sobre o trauma, mas não o sente.
