
Victor Hugo Aguila
O preço a ser pago pelo empenho de salvar o mundo, às vezes, é a própria sanidade. Ao integrar a seleção de Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Cigarras apresenta Isabell, uma mulher responsável pelo cuidado dos pais idosos enquanto tenta salvar seu casamento em crise. Em meio ao caos, ela conhece Anja, uma mãe solo que tenta arduamente sobreviver em uma realidade precária. Com uma fotografia (Judith Kaufmann) característica do Cinema europeu – com tons frios bem marcados e o uso narrativo da paisagem – o roteiro (Ina Weisse) previsível torna o longa um forte ponto de desvio da atenção.
De maneira perspicaz, o filme mostra as semelhanças entre a infância e a velhice. Aspectos como cuidado, preocupação e cansaço tornam Anja (Saskia Rosendahl) e Isabell (Nina Hoss) familiares para além do contato, uma vez que ambas são acometidas pela responsabilidade com alguém que, de certa forma, depende delas. Na intimidade, elas criam um vínculo afetivo que, mesmo sendo explorado de maneira rasa, consegue transmitir ao espectador a angústia constante em que se encontram.
Um elemento primordial a ser analisado é a presença de Greta (Greta), filha da Anja. A criança, além de ser uma lembrança constante da insegurança de sua mãe, em relação ao seu desempenho no âmbito da maternidade – principalmente após a menina desenvolver uma ligação com Isabell – representa também a instabilidade emocional de ambas as mulheres. Agitada, sem reconhecer limites e bagunçando o ambiente, a garota evidencia o descontrole que circunda a obra e como esse efeito caótico frustra não apenas as relações familiares, como também outros aspectos da vida humana.

Nessa perspectiva, um dos motivos principais da ruína do casamento da protagonista com Philippe (Vincent Macaigne) é o nascimento de seu filho natimorto. Devido ao peso do luto de ambos, a relação se desgasta ao longo do tempo, culminando no afastamento e na dissolução desse relacionamento. Dessa forma, torna-se claro o início de um novo processo de enfrentamento da perda para Isabell, que, após a morte de seu bebê, deve lidar com um novo óbito: seu papel enquanto esposa.
Apesar do longa apresentar os vínculos afetivos, um fator interessante é o distanciamento emocional da personagem com seu pai idoso, Mr. Rolf (Rolf Weisse). Após viver em busca da aprovação paterna, é apresentado o abismo entre essas duas individualidades. Por conta da perda de autonomia causada pelo acidente vascular cerebral, é notável a frustração do genitor em não conseguir executar tarefas simples – como na cena em que não é capaz de escrever devido à tremedeira. Nesse cenário, Anja mostra pela primeira vez sua identidade, algo pouco perceptível no filme, seja devido a atuação blasé da atriz, ou pela falta de profundidade do papel. Assim, ela consegue empaticamente enxergar o pai de Isabell para além de uma função a ser cumprida, entendendo suas limitações e como estas impactam sua existência.

A perspectiva infantil da liberdade torna Greta um dos elementos mais emblemáticos do longa (Foto: Lupa Film)
Nas construções das cenas, o enredo é constantemente salvo pela atuação da protagonista. Nina Hoss mostra seu talento ao incorporar brilhantemente a personagem em seu estado emocional mais delicado. Com o apoio da caracterização, é perceptível a entrega da atriz nos momentos de vulnerabilidade, tornando impossível ignorar sua presença ao adentrar o ambiente cenográfico. A alemã eleva o nível de uma produção cansativa, se destacando na arte cinematográfica internacional, algo antes já visto no drama Tár (2022), ao lado de Cate Blanchett.
Ao testemunhar Cigarras, é disparado um instinto primitivo de fuga, uma vez que o roteiro demorado torna a experiência entediante. Ainda que o Cinema internacional seja composto por diversas obras geniais, o longa se encontra na contramão dessa tendência, criando um movimento de cansaço em quem tenha a oportunidade de assisti-lo. Mesmo com cores agradáveis aos sentidos, os elementos visuais não são suficientes para sustentar a produção, não por conta de sua profundidade, mas por sua pretensão ser tão líquida que escapa pelos dedos do espectador. Na tentativa de se tornar memorável, o trabalho de Ina Weisse garante que a única lembrança palpável seja entender sua possibilidade de cair no esquecimento.
