
Gabriel Diaz
Desde os seus primeiros passos no cenário musical, a BABYMETAL redefiniu os limites do metal ao fundir o peso de guitarras distorcidas com a energia impulsiva do j-pop, desafiando noções puristas do gênero. No quinto álbum de sua discografia, a banda prefere arriscar com estilos diferentes do comum na música japonesa, do que apenas apropriar fórmulas derivadas da indústria ocidental. METAL FORTH não apenas consolida essa identidade híbrida, mas a empurra para territórios inexplorados, incorporando colaborações ecléticas e experimentações sonoras que transcendem o rótulo de ‘kawaii metal’. Se antes o grupo questionava o que o metal poderia ser, agora ele pergunta: “para onde o metal pode ir?”
Talvez, o hibridismo seja a chave para entender essa evolução, pois este não se limita somente às junções de acordes e vocais gritantes. A densidade de parcerias no disco cria um ecossistema sonoro complexo. Embora essa abundância de participações possa, à primeira vista, parecer uma sobrecarga que confunde o arco narrativo do álbum, é justamente esse excesso que alimenta sua maior ambição: a metamorfose através da superabundância. As três integrantes Su-metal, Moametal e Momometal não estão apenas misturando gêneros, porém criando um novo espaço onde a multiplicidade de influências se torna a própria essência da obra.

As faixas demonstram esse funcionamento do equilíbrio entre colaboração e identidade própria. from me to u, com participação de Poppy, abre o disco com um contraste fascinante entre vocais suaves e guitarras industriais, enquanto Kon! Kon! funde batidas tradicionais da banda indiana Bloodywood e growls death metal que se chocam com refrãos cantados em japonês, criando uma das faixas mais originais da carreira do grupo. Em Song 3, com Slaughter to Prevail, os vocais guturais de Alex Terrible se chocam com os melódicos de Su-metal, criando uma dinâmica poderosa entre brutalidade e beleza.
Já Sunset Kiss, com Polyphia, mostra um lado mais introspectivo, com solos de guitarra virtuosos e uma atmosfera quase dream-pop, provando que BABYMETAL pode ser tão emocional quanto intenso. Entretanto, há momentos como o de RATATATA, em colaboração com Electric Callboy, que a sensação é de que houve desacertos na comunicação entre os grupos: a energia eletrônica e os refrões pegajosos soam mais como uma tentativa de agradar a todos do que uma evolução natural do som original da banda japonesa.
A co-produção de Gareth McGrillen, baixista da formação musical Pendulum, merece seu destaque, garantindo que cada elemento – desde os riffs pesados até os arranjos eletrônicos – soe nítido e impactante. A mixagem valoriza tanto os convidados quanto a essência do trio, embora em faixas como METALI!!, o estilo inconfundível do tão conhecido guitarrista Tom Morello acabe ofuscando um pouco as vocalistas. A Kami Band, banda de apoio nos shows da BABYMETAL, é a base que mantém tudo coeso, com performances técnicas que elevam cada música a um patamar superior.
Do ponto de vista técnico, METAL FORTH é um show de habilidades. A vocalista Su-metal está no auge de sua voz, alternando entre delicadeza e potência com maestria, ao mesmo tempo que Moametal e Momometal trazem uma energia cênica através do backing vocal que transborda mesmo no formato de estúdio. As faixas autênticas do grupo trazem uma densidade lírica incomum para o metal, algo raro em um gênero muitas vezes associado a clichês relacionados ao ódio, destruição, ocultismo ou fantasia medieval. Por exemplo, Algorism reflete sobre a perda da identidade humana na era digital e White Flame faz metáfora de uma chama branca que soa como um hino de resistência ancestral.
As críticas ao álbum, porém, são inevitáveis. Enquanto alguns o veem como um ‘experimento ousado e bem-sucedido’, outros apontam sua falta de foco, argumentando que as muitas colaborações diluem a identidade do grupo. De fato, a produção peca pela dispersão: se algumas faixas são memoráveis, outras parecem descartáveis, como se a banda tivesse priorizado quantidade em vez de curadoria, assim como o agrupamento de colaborações possa ter afetado o caminho linear das músicas – o que, claramente, não foi um erro ciclópico.

Quinze anos após sua estreia, a BABYMETAL continua sendo uma das bandas mais inovadoras do metal, e seu novo lançamento é a prova de que elas não pretendem se acomodar. A produção pode não ser totalmente perfeita, mas sua ambição é admirável, desafiando tanto os fãs quanto os puristas a repensarem os limites do gênero. Se o preço dessa ousadia é a irregularidade, que o destino assim a queira – afinal, como o próprio título sugere, este é um disco que olha para frente, não para trás.
No fim, METAL FORTH é uma declaração de intenções, distanciando-se de qualquer enquadro que remete aos álbuns convencionais. A BABYMETAL não quer mais ser vista como uma curiosidade do metal, elas querem ser as arquitetas de seu futuro. E se esse futuro inclui pop, eletrônico, folk e até mesmo influências globais, elas estão seguindo o caminho correto – afinal, o heavy metal sempre foi sobre quebrar regras.
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