Lobofest 2025: a calmaria do interior que respira música

Uma cena de festival ao ar livre durante o pôr do sol. No primeiro plano, o foco está em um grupo de pessoas sentadas na grama, vistas de costas, observando o palco. Ao fundo, um palco de show está montado com um grande painel de LED exibindo o nome do evento, "Lobofest", em estilo grafite e logotipos de patrocinadores ("Facens"). Há uma multidão de pessoas reunidas em frente ao palco, e o céu ao fundo tem uma luz alaranjada de fim de tarde.
O Lobofest transformou Sorocaba em palco da música independente (Foto: Arthur Caires)

Arthur Caires

Chegar ao Lobofest é como entrar em um universo paralelo onde tudo respira Arte. O caminho da Arena Lucky Friends já entrega o que vem pela frente: brechós espalhados com peças singulares, vitrines de artesanato assinadas por mãos locais e uma decoração que traduz com nitidez o espírito de quem é, e se sente, do interior. Não é só um festival de música, é uma mostra da cena cultural sorocabana, um espaço onde cada detalhe carrega a identidade de quem constrói e vive a cidade.

Enquanto festivais gigantes como Lollapalooza e The Town são definidos por multidões correndo de um palco a outro, tentando encaixar na maratona um pedaço de seus artistas favoritos, o Lobofest se desenha em outra lógica: a da calmaria. Não há pressa, não há sobreposição de shows, não há a sensação de que você está perdendo algo em outro canto. O espaço é acolhedor, confortável, pensado para que a experiência seja menos sobre a ansiedade da escolha e mais sobre o prazer da imersão. Tudo se organiza em nome de quem ama música e quer vivê-la por inteiro.

Criado em 2022 pela produtora independente Lobotomia, o Lobofest nasceu com a proposta de transformar Sorocaba em um ponto de encontro da música alternativa. O coletivo já vinha se consolidando como um dos principais agentes culturais da região, sempre equilibrando a vinda de artistas que despontaram no cenário nacional e internacional com a valorização de talentos locais. O festival surgiu como a extensão natural desse trabalho: não apenas um palco para shows, mas uma celebração de toda a cadeia cultural que pulsa no interior paulista.

Uma foto granulada em close-up e com inclinação diagonal da cantora Marina Sena durante um show. Ela segura um microfone com a mão, com as unhas pintadas, e o leva em direção à boca. Seu cabelo escuro e encaracolado, parte do rosto e um de seus olhos, que olha diretamente para a câmera, são visíveis. Ela também usa um colar com um pingente circular.
Marina Sena entregou um espetáculo cheio de energia, emoção e sintonia com o público (Foto: Arthur Caires)

A line-up deste ano deixou claro o quanto a programação estava disposta a experimentar contrastes. De um lado, dois dos maiores nomes da música brasileira atual – Marina Sena e Djonga – puxaram os holofotes com a força de quem dita tendência no cenário nacional. Do outro, uma seleção de artistas profundamente ligados à cena local e regional, como Gabrelú, Ana Praia e Yá Rosa. Se em 2024 o evento apostou em um equilíbrio mais evidente, mesclando nomes como Clarice Falcão e FBC com atos em ascensão como Boogarins, Duquesa e DJ Ramemes, em 2025 a curadoria quis entregar um gostinho de grandiosidade.

No meio desses polos, três apresentações se destacaram. O Vanguart retornou à cidade depois de mais de uma década, trazendo a turnê Demorou Pra Ser e lembrando ao público que vinte anos de estrada cabem em um repertório de hits nostálgicos. O Terno Rei, parceiro antigo do Lobotomia, apresentou o show inédito de Nenhuma Estrela, mantendo o indie melancólico como trilha perfeita para o friozinho do interior. Já Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo trouxe a inquietação experimental que a acompanha, agora ainda mais lapidada sob a produção de Ana Frango Elétrico. Foi durante o show dela, aliás, que comprei um dos CDs vendidos no merch oficial.

E então veio Marina Sena. O ápice da noite – e talvez das duas edições do festival – foi a entrega visceral da mineira com o show de Coisas Naturais. Energia é pouco para definir o que Marina levou ao palco: cada música parecia meticulosamente colocada na ordem certa, uma narrativa feita para ser vivida ao vivo. O álbum, que já soa potente em estúdio, revelou-se um organismo vivo diante de uma multidão que cantava como se cada um tivesse um vínculo particular com aquelas faixas. O momento em que ela entoou Mágico cristalizou o espírito do Lobofest: “Dar um giro, ver a cidade comigo”.

Uma foto de uma banda se apresentando em um palco no festival Lobofest em Sorocaba. O palco tem um grande telão de LED no fundo exibindo gráficos coloridos, incluindo flores. No primeiro plano, uma multidão de pessoas, vistas de costas, assistem ao show. Acima do palco, o nome "Lobofest" é visível. À direita, um grande banner vertical exibe os dizeres "Lobofest na Cidade / O INTERIOR VIVE".
Antes de começar, o Lobofest na Cidade já espalhava música e cultura por Sorocaba (Foto: Arthur Caires)

Mas, o Lobofest não se limita apenas ao que acontece diante das luzes do palco. A cada esquina da Arena Lucky Friends havia uma experiência que lembrava ao público que festival também é encontro: a Feira Selvagem, com seus expositores locais, transformava o espaço em um passeio cheio de cores e texturas; a praça de ‘rangos’ reunia diferentes opções para todos os gostos e preferências; e os afters espalhados pela cidade prolongavam a sensação de comunidade para além do horário oficial. Até mesmo o Lobofest na Cidade, realizado ao longo de julho com shows gratuitos em pontos estratégicos de Sorocaba, ajudou a criar essa atmosfera: um movimento de democratização da música, capaz de estender seu impacto para quem talvez nunca tivesse a chance de viver um evento assim.

O Lobotomia encerra a segunda edição do seu evento reafirmando algo maior do que um simples dia de shows: ele prova que a música independente tem força para descentralizar a cena cultural do país. Em um momento em que até os grandes festivais enfrentam dificuldades para esgotar os ingressos, o evento sorocabano mostra que o interior também vibra, cria e sustenta movimentos próprios. No fim das contas, a sensação de estar ali não era a de disputar espaço em uma multidão anônima, mas de compartilhar um pedaço vivo da cultura. Talvez seja essa a verdadeira mágica do Lobofest: transformar um festival em comunidade.

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