
Arthur Caires
Chegar ao Lobofest é como entrar em um universo paralelo onde tudo respira Arte. O caminho da Arena Lucky Friends já entrega o que vem pela frente: brechós espalhados com peças singulares, vitrines de artesanato assinadas por mãos locais e uma decoração que traduz com nitidez o espírito de quem é, e se sente, do interior. Não é só um festival de música, é uma mostra da cena cultural sorocabana, um espaço onde cada detalhe carrega a identidade de quem constrói e vive a cidade.
Enquanto festivais gigantes como Lollapalooza e The Town são definidos por multidões correndo de um palco a outro, tentando encaixar na maratona um pedaço de seus artistas favoritos, o Lobofest se desenha em outra lógica: a da calmaria. Não há pressa, não há sobreposição de shows, não há a sensação de que você está perdendo algo em outro canto. O espaço é acolhedor, confortável, pensado para que a experiência seja menos sobre a ansiedade da escolha e mais sobre o prazer da imersão. Tudo se organiza em nome de quem ama música e quer vivê-la por inteiro.
Criado em 2022 pela produtora independente Lobotomia, o Lobofest nasceu com a proposta de transformar Sorocaba em um ponto de encontro da música alternativa. O coletivo já vinha se consolidando como um dos principais agentes culturais da região, sempre equilibrando a vinda de artistas que despontaram no cenário nacional e internacional com a valorização de talentos locais. O festival surgiu como a extensão natural desse trabalho: não apenas um palco para shows, mas uma celebração de toda a cadeia cultural que pulsa no interior paulista.

A line-up deste ano deixou claro o quanto a programação estava disposta a experimentar contrastes. De um lado, dois dos maiores nomes da música brasileira atual – Marina Sena e Djonga – puxaram os holofotes com a força de quem dita tendência no cenário nacional. Do outro, uma seleção de artistas profundamente ligados à cena local e regional, como Gabrelú, Ana Praia e Yá Rosa. Se em 2024 o evento apostou em um equilíbrio mais evidente, mesclando nomes como Clarice Falcão e FBC com atos em ascensão como Boogarins, Duquesa e DJ Ramemes, em 2025 a curadoria quis entregar um gostinho de grandiosidade.
No meio desses polos, três apresentações se destacaram. O Vanguart retornou à cidade depois de mais de uma década, trazendo a turnê Demorou Pra Ser e lembrando ao público que vinte anos de estrada cabem em um repertório de hits nostálgicos. O Terno Rei, parceiro antigo do Lobotomia, apresentou o show inédito de Nenhuma Estrela, mantendo o indie melancólico como trilha perfeita para o friozinho do interior. Já Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo trouxe a inquietação experimental que a acompanha, agora ainda mais lapidada sob a produção de Ana Frango Elétrico. Foi durante o show dela, aliás, que comprei um dos CDs vendidos no merch oficial.
E então veio Marina Sena. O ápice da noite – e talvez das duas edições do festival – foi a entrega visceral da mineira com o show de Coisas Naturais. Energia é pouco para definir o que Marina levou ao palco: cada música parecia meticulosamente colocada na ordem certa, uma narrativa feita para ser vivida ao vivo. O álbum, que já soa potente em estúdio, revelou-se um organismo vivo diante de uma multidão que cantava como se cada um tivesse um vínculo particular com aquelas faixas. O momento em que ela entoou Mágico cristalizou o espírito do Lobofest: “Dar um giro, ver a cidade comigo”.

Mas, o Lobofest não se limita apenas ao que acontece diante das luzes do palco. A cada esquina da Arena Lucky Friends havia uma experiência que lembrava ao público que festival também é encontro: a Feira Selvagem, com seus expositores locais, transformava o espaço em um passeio cheio de cores e texturas; a praça de ‘rangos’ reunia diferentes opções para todos os gostos e preferências; e os afters espalhados pela cidade prolongavam a sensação de comunidade para além do horário oficial. Até mesmo o Lobofest na Cidade, realizado ao longo de julho com shows gratuitos em pontos estratégicos de Sorocaba, ajudou a criar essa atmosfera: um movimento de democratização da música, capaz de estender seu impacto para quem talvez nunca tivesse a chance de viver um evento assim.
O Lobotomia encerra a segunda edição do seu evento reafirmando algo maior do que um simples dia de shows: ele prova que a música independente tem força para descentralizar a cena cultural do país. Em um momento em que até os grandes festivais enfrentam dificuldades para esgotar os ingressos, o evento sorocabano mostra que o interior também vibra, cria e sustenta movimentos próprios. No fim das contas, a sensação de estar ali não era a de disputar espaço em uma multidão anônima, mas de compartilhar um pedaço vivo da cultura. Talvez seja essa a verdadeira mágica do Lobofest: transformar um festival em comunidade.
