Após 15 anos, o remake de Karatê Kid segue controverso e reafirmando o futuro de Hollywood

Fotografia de Jaden Smith, rapaz negro de tranças verticais por todo seu cabelo preto, vestido em uma regata branca, calça cinza e tênis da adidas das mesmas cores, fazendo flexões inclinadas no quintal de uma casa vermelha de arquitetura tradicional asiática enquanto Jackie Chan, homem chinês de cabelo escuro, vestindo botas surradas pretas, calça azul e blusa branca, aponta com um leque a posição de sua cabeça.
Karatê Kid foi o primeiro filme desde O Último Imperador (1987) a conseguir a autorização para gravar dentro da Cidade Proibida na China (Foto: Sony Pictures Entertainment)

Livia Queiroz

Em 2009, um grande burburinho se espalhou por Hollywood: Will Smith está planejando um remake do sucesso cinematográfico dos anos 80, Karate Kid. Logo depois, Ralph Macchio recebe um roteiro e a proposta de dar vida ao senhor Han, réplica do senhor Miyagi. A família Smith recebeu como resposta uma negação assídua e depois do lançamento do trailer, uma declaração irritada do ator. O motivo? Ele viu o filme como uma falta de criatividade absurda da indústria do cinema e do produtor. Mesmo assim, o desenvolvimento da obra seguiu e foi lançado pela direção de Harald Zwart em junho de 2010. 

De certa forma, Ralph estava correto. Claro, desde sempre o cinema teve seus segredos específicos para vingar no mercado e eles eram versáteis, já que cada década tinha seus interesses, porém, a partir dos anos 2000, a dramaturgia começou um processo de repetição estrutural das narrativas, trazendo uma construção de começo, meio e fim e até cenas específicas iguais na maioria dos filmes. Assim, a única coisa que seria necessário mudar eram os personagens – às vezes tem a mesma aparência e personalidade, só mudando o nome – e o plano de fundo, e pronto, a fórmula do sucesso estava feita. Essas inspirações eram sabidas mas nunca admitidas, mesmo que óbvia, até a criação do remake, ou seja, copiar a história original mas com novas tecnologias e novos atores/dubladores.

Fotografia de Jackie Chan, homem asiático de rugas, bigode e cavanhaque, vestindo calça azul da adidas e blusa branca de botões desgastada, e Jaden Smith, menino negro de tranças verticais, em uma regata branca, praticando movimentos de kung fu em meio às montanhas florestadas e a Muralha da China.
Para o lançamento na China, o filme passou por alterações e teve diversos cortes, para se enquadrar no código chinês (Foto: Sony Pictures Entertainment)

Porém, o que não poderia imaginar-se é que o fenômeno não só funcionaria para a indústria como para os espectadores, que podem presenciar seus filmes favoritos todos de novo mas com alguns pequenos ajustes. Karate Kid é um ótimo exemplo disso, pois foi bem aceito pelo público e tornou-se o ‘karate kid‘ que marcou a nova geração. Um dos principais pontos do seu sucesso foi a escalação do elenco, para uma cinematografia de ação ambientada em um ambiente asiático, a escolha óbvia de participação é o ator Jackie Chan, a estrela das lutas de ação e dublê. Além disso, foi uma ótima escolha contratar atores chineses e descendentes para representar seus respectivos papéis, coisa que Hollywood pecava e ainda peca para fazer com qualquer origem, preferindo atores locais que não conhecem a cultura e a língua. 

Entretanto, apesar da inclusão nacional, a prática de estereótipos chineses em toda a extensão do longa prejudica sua imagem. Uma das primeiras conclusões de Dre Parker (Jaden Smith) chega após ser questionado sobre a procedência do treinamento do senhor Han, um marido de aluguel, foi que “É a China, todos sabem kung-fu”; uma clara má concepção do povo chinês, pois é uma manifestação cultural muito popular do país, porém não obrigatória na formação dos indivíduos, assim como o estereótipo de “todo brasileiro sabe sambar”. Tal generalização,  apesar de parecer inofensiva, fere a concepção do mundo sobre a China. 

Apesar da falta de tato no roteiro para tratar a cultura local, existem aspectos bons a serem extraídos do filme. A cinematografia apresentada nas lutas são ótimas, atraem a atenção pela agressividade do combate corpo a corpo – feito da coreografia da equipe de dublês de Jackie Chan e de Wu Gang, mestre de wushu que treinou o filho de Will para o papel. O uso de slow-motion para essas cenas também trouxe uma maior exploração dos movimentos marciais ao público, além de envolver mais dramaticidade aos acontecimentos.

Fotografia de Jaden Smith, garoto negro de tranças verticais por todo seu cabelo preto, vestido em blusa verde militar com estrela vermelha, e Jackie Chan, homem asiático de rugas usando um boné preto e blusa branca de botões coberta por jaqueta azul royal, rindo enquanto posicionados em um banco de couro preto em meio a um vagão de trem.
Antes de ensinar a movimentação do casaco a Dre, o Senhor Han é visto fazendo o clássico ensinamento da franquia original: movimentos giratórios da esponja e cera (Foto: Sony Pictures Entertainment)

Dentro do ambiente pesado de lutas e agressões, a oportunidade de abordar pautas importantes cresce. Um dos principais alertas instalados ao longo da trama é sobre o bullying, quando Dre é perseguido e agredido física e verbalmente por um grupo de crianças da escola após despertar interesse em Meiying, garota da qual um dos ‘valentões’ é amigo. Em conjunto com essa narrativa, é interpretada a dificuldade de adaptação entre culturas muito distintas. O início da obra é basicamente mostrando essa experiência, desde a barreira linguística até às diferenças de instalações domésticas. Por último, mas não menos importante, o senhor Han desenvolve – de forma interativa e subentendida – uma lição sobre a maestria, que para todos os aspectos da vida, só se atinge com constância e tempo.  

Na construção da identidade do filme e seu roteiro, a produção decidiu mudar a arte marcial que dá nome a franquia original, indo do karatê ao kung fu, mas mantendo o nome exato. Um erro compreensível, se levarmos em consideração a necessidade de chamar a atenção dos fãs dos clássicos dos anos 80 e reforçar que é um remake. A principal razão para essa troca vem da escalação de Jackie Chan e a localidade das filmagens, adequando-se às origens do ator e à principal luta praticada na China – não à toa, a obra foi traduzida como As Maravilhas do Kung Fu no país.

Fotografia de Jaden Smith, menino negro de tranças verticais por todo seu cabelo preto, vestido com uma calça preta e blusa branca de botões. Ao fundo, uma multidão de espectadores asiáticos eufóricos levantando bandeiras das cores lilás, azul claro e vermelho.
Para lutar no campeonato, senhor Han presenteia Dre com uma roupa tradicional, mencionando a semelhança com o figurino do Bruce Lee, personagem que Jackie Chan foi dublê no início da carreira (Foto: Sony Pictures Entertainment)

Portanto, assim como proposto na modalidade cinematográfica, o plano de estrutura de Karate Kid (2010) seguiu a mesma narrativa do tradicional com Ralph Macchio, entretanto surpreendeu com mudança significativa do plano de fundo, escolha de atores e easter-eggs. Nesse sentido, era esperado uma abordagem mais cautelosa e ao mesmo tempo reflexiva do ambiente cultural apresentado, e cumpriram com o objetivo. E, assim como Dre em sua inserção à competição de kung fu sem sequer saber como posicionar-se contra um soco, o filme segue controverso e reafirmando o futuro de uma Hollywood cada vez menos criativa.

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