
Livia Queiroz
Em 2009, um grande burburinho se espalhou por Hollywood: Will Smith está planejando um remake do sucesso cinematográfico dos anos 80, Karate Kid. Logo depois, Ralph Macchio recebe um roteiro e a proposta de dar vida ao senhor Han, réplica do senhor Miyagi. A família Smith recebeu como resposta uma negação assídua e depois do lançamento do trailer, uma declaração irritada do ator. O motivo? Ele viu o filme como uma falta de criatividade absurda da indústria do cinema e do produtor. Mesmo assim, o desenvolvimento da obra seguiu e foi lançado pela direção de Harald Zwart em junho de 2010.
De certa forma, Ralph estava correto. Claro, desde sempre o cinema teve seus segredos específicos para vingar no mercado e eles eram versáteis, já que cada década tinha seus interesses, porém, a partir dos anos 2000, a dramaturgia começou um processo de repetição estrutural das narrativas, trazendo uma construção de começo, meio e fim e até cenas específicas iguais na maioria dos filmes. Assim, a única coisa que seria necessário mudar eram os personagens – às vezes tem a mesma aparência e personalidade, só mudando o nome – e o plano de fundo, e pronto, a fórmula do sucesso estava feita. Essas inspirações eram sabidas mas nunca admitidas, mesmo que óbvia, até a criação do remake, ou seja, copiar a história original mas com novas tecnologias e novos atores/dubladores.

Porém, o que não poderia imaginar-se é que o fenômeno não só funcionaria para a indústria como para os espectadores, que podem presenciar seus filmes favoritos todos de novo mas com alguns pequenos ajustes. Karate Kid é um ótimo exemplo disso, pois foi bem aceito pelo público e tornou-se o ‘karate kid‘ que marcou a nova geração. Um dos principais pontos do seu sucesso foi a escalação do elenco, para uma cinematografia de ação ambientada em um ambiente asiático, a escolha óbvia de participação é o ator Jackie Chan, a estrela das lutas de ação e dublê. Além disso, foi uma ótima escolha contratar atores chineses e descendentes para representar seus respectivos papéis, coisa que Hollywood pecava e ainda peca para fazer com qualquer origem, preferindo atores locais que não conhecem a cultura e a língua.
Entretanto, apesar da inclusão nacional, a prática de estereótipos chineses em toda a extensão do longa prejudica sua imagem. Uma das primeiras conclusões de Dre Parker (Jaden Smith) chega após ser questionado sobre a procedência do treinamento do senhor Han, um marido de aluguel, foi que “É a China, todos sabem kung-fu”; uma clara má concepção do povo chinês, pois é uma manifestação cultural muito popular do país, porém não obrigatória na formação dos indivíduos, assim como o estereótipo de “todo brasileiro sabe sambar”. Tal generalização, apesar de parecer inofensiva, fere a concepção do mundo sobre a China.
Apesar da falta de tato no roteiro para tratar a cultura local, existem aspectos bons a serem extraídos do filme. A cinematografia apresentada nas lutas são ótimas, atraem a atenção pela agressividade do combate corpo a corpo – feito da coreografia da equipe de dublês de Jackie Chan e de Wu Gang, mestre de wushu que treinou o filho de Will para o papel. O uso de slow-motion para essas cenas também trouxe uma maior exploração dos movimentos marciais ao público, além de envolver mais dramaticidade aos acontecimentos.

Dentro do ambiente pesado de lutas e agressões, a oportunidade de abordar pautas importantes cresce. Um dos principais alertas instalados ao longo da trama é sobre o bullying, quando Dre é perseguido e agredido física e verbalmente por um grupo de crianças da escola após despertar interesse em Meiying, garota da qual um dos ‘valentões’ é amigo. Em conjunto com essa narrativa, é interpretada a dificuldade de adaptação entre culturas muito distintas. O início da obra é basicamente mostrando essa experiência, desde a barreira linguística até às diferenças de instalações domésticas. Por último, mas não menos importante, o senhor Han desenvolve – de forma interativa e subentendida – uma lição sobre a maestria, que para todos os aspectos da vida, só se atinge com constância e tempo.
Na construção da identidade do filme e seu roteiro, a produção decidiu mudar a arte marcial que dá nome a franquia original, indo do karatê ao kung fu, mas mantendo o nome exato. Um erro compreensível, se levarmos em consideração a necessidade de chamar a atenção dos fãs dos clássicos dos anos 80 e reforçar que é um remake. A principal razão para essa troca vem da escalação de Jackie Chan e a localidade das filmagens, adequando-se às origens do ator e à principal luta praticada na China – não à toa, a obra foi traduzida como As Maravilhas do Kung Fu no país.

Portanto, assim como proposto na modalidade cinematográfica, o plano de estrutura de Karate Kid (2010) seguiu a mesma narrativa do tradicional com Ralph Macchio, entretanto surpreendeu com mudança significativa do plano de fundo, escolha de atores e easter-eggs. Nesse sentido, era esperado uma abordagem mais cautelosa e ao mesmo tempo reflexiva do ambiente cultural apresentado, e cumpriram com o objetivo. E, assim como Dre em sua inserção à competição de kung fu sem sequer saber como posicionar-se contra um soco, o filme segue controverso e reafirmando o futuro de uma Hollywood cada vez menos criativa.
