A primeira temporada de I Love LA poderia ser melhor, mas é um bom começo para Rachel Sennott

Cena da série I Love LA. Na imagem, há uma mulher branca de cabelos ondulados que veste uma blusa rosa com uma jaqueta cinza, além de utilizar um boné branco e vermelho com estampa de um palhaço. Ela está em pé e segura um celular na mão direita e um café na mão esquerda.
Maya é o tipo de protagonista que prontamente ganha o carinho de seus telespectadores (Foto: HBO)

Guilherme Machado Leal

2025 foi um ano recheado para os jovens adultos. Desde a estreia de Overcompensating – trama que aborda a descoberta da sexualidade de um rapaz gay na faculdade – até Adults, obra com o protagonismo de um quinteto no Queens, em Nova York, o subgênero ganhou uma irmã em outubro: I Love LA, série criada e protagonizada por Rachel Sennott. No final dos anos 90 e na década de 2010, a HBO produziu histórias na cidade que nunca dorme. Dessa vez, as palmeiras californianas recebem seu próprio coming of age centralizado na chegada dos 30 anos.

Maya é a típica zillenial (aqueles que nasceram entre 1993 e 1998 e possuem misturas da geração Z e dos millennials): ela trabalha para pagar as próprias contas, tem o sonho de ser efetivada na empresa e viver a vida que sempre almejou. Embora esteja na Cidade dos Anjos, a personagem principal tinha uma história com Tallulah (Odessa A’zion) em NY. Agora, sua melhor amiga, que se tornou influenciadora, irá para Los Angeles. De início, a distância entre a dupla causa um estranhamento, mas também em uma oportunidade: se manejar a carreira da criadora de conteúdo, ela finalmente mudará a própria trajetória profissional.

Cena da série I Love LA. A imagem apresenta um grupo de amigos na sala de estar: da esquerda para direita, há um homem branco com barba e cabelos castanhos cacheados que veste uma blusa vermelha, uma mulher negra com tranças que usa uma camiseta azul entreaberta, uma mulher branca de cabelos encaracolados que utiliza um moletom verde com azul e branco, e uma mulher branca de cabelos ondulados que veste uma blusa rosa e roxa. Eles estão se encarando e estão na frente de uma mesa com utensílios e comidas.
A dinâmica entre os quatro amigos é interessante e merece ser mais explorada na segunda temporada de I Love LA (Foto: HBO)

Ao seu lado, estão Charlie (Jordan Firstman) e Alani (True Whitaker), respectivamente um estilista de celebridades e uma nepobaby que tenta encontrar seu lugar no mundo. Para completar o time que dá a cara à produção da HBO, há Dylan, interpretado pelo incrivelmente carismático Josh Hutcherson. A partir do quinteto e o cenário estabelecido, imprevistos do dia a dia e a juventude idealizada por meio de Sennott, que possui 30 anos, há a representação do que é ser um jovem adulto na década de 2020.

Entretanto, há certos tropeços na maneira como I Love LA veio ao mundo. Embora Rachel seja a produtora executiva e até diretora do último episódio da temporada – que terá um segundo ano –, é como se a artista não soubesse exatamente o que abordar em seu debut televisivo como protagonista. A ideia de colocar Maya como uma underdog que possui uma certa inveja da melhor amiga não se sustenta a longo prazo. Na verdade, apostar todas as fichas de uma personagem na outra não segura uma narrativa. Além disso, a falta de conexão na primeira parte da série é algo que impede dar à idealizadora as devidas flores.

Em Girls, criada, roteirizada, dirigida e protagonizada por Lena Dunham, o quarteto principal também é composto por pessoas horríveis e difíceis de lidar. Porém, até nas diferenças entre quem assiste e aquele representado na tela, há um ponto que converge. Na trama de 2025, algumas das histórias não sustentam os 25 a 30 minutos que representam o seriado. Episódios fillers são muito bem-vindos e, em alguns casos, tornam-se jóias, a exemplo de Friends (1994): na terceira temporada, os seis amigos se preparam para uma noite de gala, mas nunca chegam, de fato, ao local. É um cenário e muito texto por 22 minutos. Nos anos 90 (e em décadas posteriores) funcionou, mas por que aqui não?

Cena da série I Love LA. Na imagem, há uma mulher branca de cabelos ondulados que veste uma blusa vermelha com um colar dourado de borboleta. Ela está em pé e com uma expressão de espanto.
Rachel Sennott se tornou amplamente conhecida depois de estrelar Shiva Baby (Foto: HBO)

É de praxe que nem toda comédia acerta logo na sua estreia. The Office (2005), obra amada pelos amantes de um bom texto de humor, sabem do empecilho que é a primeira temporada. No entanto, dá para ver quem Michael Scott será ao longo das 7 temporadas. O mesmo acontece com personagens como Dwight (Rainn Wilson), Jim (John Krasinski) e Pam (Jenna Fischer). O que distancia a empreitada de Rachel Sennott das produções mencionadas é o tempo. Não há sentimento criado (pelo menos não por todos do quinteto) àquelas pessoas. Para construir, precisa preparar o terreno. E engana-se quem acha que comédia é só soltar piadas sem narrativas que as sustentam.

Antes de ser famosa, a criadora fazia stand-ups e também estudava atuação na Universidade de Nova York (NYU). Shiva Baby (2020), provavelmente o projeto mais interessante que já participou, obteve êxito em apresentar a jovem ao estrelato. Os anseios da personagem que interpretou no longa de 2020, além de sua postura cronicamente online e muito precisa de como funciona a mente daqueles que estão na casa dos 20 e poucos, ajudaram a chegar no atual momento: a visão da artista a respeito de como funciona viver na cidade da Califórnia. Assim como Dunham era a voz de uma geração em 2012, quando Girls estreou na HBO, a idealizadora também terá o seu lugar ao sol.

Cena da série I Love LA. Na imagem, há um homem branco de cabelos castanhos com uma blusa branca e uma jaqueta azul escuro. Ele está olhando para uma mulher branca de cabelos ondulados que usa um vestido preto com estampas de flores e um colar dourado de coração. Os dois se encaram e estão sentados em um sofá. Na frente dos dois, há duas taças com vinho dentro.
Dylan e Maya passam por maus bocados na primeira temporada de I Love LA (Foto: HBO)

Os acertos de I Love LA aparece nos momentos em que o texto conversa com o público que o consome. Em Roger & Munchy, segundo episódio da temporada, há um trecho que é visto com frequência na timeline do X, antigo Twitter. Maya, que finge ser uma namorada obsessiva para assustar Paulena (Annalisa Cochrane), inimiga de Tallulah, pergunta a Dylan: “devo me matar em uma live do Instagram ou em uma do TikTok?”. São nesses mínimos instantes nos quais Sennott encontra o tom correto, assim como em Nem Todos São Como Jeremy, quinto capítulo da aventura californiana, marcado por um convite à personagem principal para um jantar feito por sua chefe Alyssa (Leighton Meester). Ou em Noite de Jogos, trama seguinte, na qual a agente de talentos conhece os colegas de trabalho do Dylan.

O ponto é: a idealizadora não tem o que se preocupar quanto à própria protagonista. Quando eleva quem a jovem é, a criatura se torna maior do que a criadora.  Ela não se assemelha à Carrie (Sex and The City) ou Piper (Orange Is The New Black). Não é uma tarefa complicada se afeiçoar ao elo do quinteto, pois é por meio dele que ocorrem todas as dinâmicas da produção. Pontualmente com o texto na mosca e muitas vezes pegando o caminho oposto ao da risada, o trabalho de Sennott ainda é contido e não mostra em sua totalidade a magnitude de seu talento. No futuro, esperamos amar Los Angeles. 

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