
Mariana Bezerra
Em Setembro de 2005, foi ao ar, na CBS, o primeiro episódio de How I Met Your Mother (Como eu conheci sua mãe, em tradução livre). Nessa época, milhões de pessoas se sentavam em frente à televisão toda segunda-feira para acompanhar a vida dos cinco amigos sem sequer cogitar a ideia de que, um dia, todos os episódios estariam em um aplicativo para serem assistidos on demand. O mais relevante é que pouco importa a passagem do tempo ou o formato, porque a amizade, o amor, os sonhos e as frustrações – que são o cerne desse enredo – serão sempre parte de todos. Em função disso, How I Met Your Mother segue sendo um sucesso, conquistando cada vez mais espaço nas novas gerações, ganhando, inclusive, um spin-off intitulado How I Met Your Father (2022), o qual contou com participações especiais de alguns atores do elenco original.
Como de costume em sitcoms que viraram clássicos, a série conta com um elenco brilhante, nascido para seus personagens, mas ainda desconhecido para boa parte do público. A não ser que você fosse fã de Buffy, a Caça-Vampiros (1997) ou American Pie (1999). Nesse caso, provavelmente reconheceria Lily (Alyson Hannigan). Diante disso, os escritores e produtores, Craig Thomas e Carter Bays, tinham a fórmula ideal: um elenco carismático e um enredo envolvente voltado para a história de um grupo inseparável – que rendia tramas particulares, e também coletivas – em um cenário simbólico. Para os fãs de sitcoms, esse elemento é essencial e gera intimidade, como se o espectador fosse tão próximo dessas figuras quanto eles são entre si. Em Friends (1994), tem-se o Central Perk; em Seinfeld (1989 ), o ponto de encontro é o Monk ‘s Café. Já em How I Met Your Mother, o café vira cerveja e é apresentado o McLaren’ s Pub.
O enredo, porém, não funcionaria tão bem se os protagonistas não fossem tão cativantes, tornando suas histórias, talvez, ainda mais interessantes que o esperado. Marshall ( Jason Segel) e Lily – marshmallow e lilypad para os íntimos –, por exemplo, carregam o título de um dos casais mais amados da TV, sem que seu relacionamento seja explorado de forma superficial. Robin ( Cobie Smulders), uma jornalista canadense determinada, aparece no primeiro episódio como interesse amoroso de Ted (Josh Radnor), que logo passa a ocupar um espaço muito maior, se tornando uma integrante do futuro quinteto. Já Barney (Neil Patrick Harris), é um executivo cuja função exata ninguém sabe ao certo, um clássico mulherengo e dono dos bordões mais famosos da série, este, que consegue se mostrar um amigo especial por debaixo do terno e da gravata.

Ao assistir à trama, é fácil esquecer o porquê de seu nome, já que a narração dos acontecimentos é muito natural. Afinal, são nove temporadas que transcorrem mais de vinte anos – todas contadas por Ted aos seus dois filhos, em 2030. Seguindo a essência do roteiro ( Craig Thomas e Carter Bays ), todo esse tempo leva ao ponto em que Ted conheceu sua futura esposa, como um grande efeito borboleta, que se conecta ao guarda-chuva amarelo, símbolo do seriado. Diante disso, é interessante que, entre todos os momentos pelos quais poderiam ter escolhido para começar a narrativa, optaram pelo qual seu grupo de melhores amigos se tornou completo.
Vale lembrar que essa ideia da vida acontecer exatamente da maneira como está destinada a acontecer, por mais interessante e bonita que seja, dividiu a opinião dos fãs quando o final se revelou bem diferente do esperado. A morte de Trish (Cristin Miliot), ‘A mãe’, é extremamente triste, principalmente, porque ela é muito mais do que a sonhada parceira de Ted, é uma personagem apaixonante, marcada pela sua sinceridade e espontaneidade. O desenrolar da história contribui desde o primeiro momento para que se pense assim, uma vez que, em seu primeiro contato com o grupo, Trish se mostrou carismática e empática em um momento de vulnerabilidade de Lily.
Apesar da dor da despedida, o final cumpre seu papel e traz a simbologia das coisas só acontecerem quando estamos prontos e temos muito menos controle do que gostaríamos sobre o destino. Ted e Robin sempre se amaram, mas sua relação não fazia sentido quando eram mais jovens, por exemplo. Ao mesmo tempo, a breve relação entre Barney e Robin serve para solidificá-los emocionalmente e, quando chega o seu fim, não significa necessariamente dizer que ela não deu certo. Até hoje, esse ainda é considerado um dos desfechos mais polêmicos da história das séries. A despeito disso, o público continua assistindo-a e amando essas figuras ficcionais.

A obra aniversariante também revisita o conceito de amizades que são uma família escolhida, ao mostrar como os momentos mais decisivos da vida deles foram vividos com seus amigos. Além disso, compartilham feriados especiais, grandes segredos, angústias e até mesmo, choques de realidade entre si. Este último é apresentado de forma cômica no enredo, por meio das ‘intervenções’, que serviam para denunciar alguma atitude de um dos integrantes, como o sotaque britânico de Lily ou a obsessão de Marshall por chapéus. Esse é apenas um dos muitos elementos que tornaram-se grandes piadas internas. Outros inesquecíveis momentos são, Robin Sparkles, o nome artístico de Robin como cantora pop de sucesso no Canadá e os bordões de Barney como “Você já conheceu Ted?”, usado para introduzir o amigo a garotas, ou “Legen- espere por isso -dário”.
É importante pontuar que muitas falas e atitudes de Barney são extremamente problemáticas, e algumas até criminosas, como a abordagem sobre gravar mulheres durante relações sexuais sem consentimento. Além disso, o personagem reforça práticas de objetificação, reduzindo mulheres a conquistas e contribui para a naturalização da gordofobia, o que, com certeza, ‘envelhece’ muito mal. Infelizmente, o estereótipo de seu papel não se resumiu ao sexo sem compromisso, esses elementos tornam algumas partes do roteiro ainda mais desconfortáveis.
Por outro lado, o humor dessa figura funciona muito bem e há um ótimo desenvolvimento, inclusive, com a masculinidade saudável de outros personagens. Assim, os erros não são anulados, mas os criadores conseguem provar a sua capacidade de gerar risadas a respeito de coisas, de fato, engraçadas. Inclusive, o próprio Barney conquista um dos melhores ‘arcos de redenção’ da série.

O primeiro encontro entre Barney e Ted ocorre de forma aleatória no McLaren ‘s Pub e é marcado por uma química imediata, o suficiente para dar início a amizade. Barney promete ensinar a Ted ‘como viver’, com a intenção de transmitir seu estilo boêmio e técnicas de conquista amorosa. Apesar de Barney falhar na missão que delegou a si mesmo, o roteiro não o faz, porque How I Met Your Mother, composta por histórias confusas e trilhas imperfeitas desses indivíduos, nos ensina, de fato, como viver. São diversas situações que chamam para a realidade mesmo assistindo uma sitcom O ensinamento não está exatamente no que cada um faz, mas na forma como a história convida a abraçar a falta de linearidade da vida.
Já na primeira temporada, vemos isso em diferentes exemplos, como na relação de Robin e Ted. Enquanto ele sonha em se casar e ter filhos, Robin não deseja o mesmo e evita pensar ou planejar essas possibilidades – o que mostra que eles não estão bem alinhados como casal, pelo menos não naquele momento. Ainda assim, Ted move mundos por ela, o que no fundo reflete sua maior frustração: não ter encontrado o amor da sua vida no momento em que esperava. Além disso, Marshall sonha em ser advogado ambientalista, mas acaba trabalhando na mesma empresa que Barney para pagar as contas e custear a sua festa de casamento. E em determinado momento, Lily arrisca tudo em Nova Iorque e decide fazer um curso em São Francisco para se dedicar ao seu sonho artístico.
Em How I Met Your Mother, cada emoção tem sua hora. Os autores dão a oportunidade de sentir-se mal quando o tema do episódio pede, sem que a melancolia vire piada ou que falte tempo para processar os sentimentos. Essa sensibilidade da narrativa possibilitou a criação de episódios marcantes para os fãs. O melhor de tudo é que os conflitos e desafios amadurecem juntamente com os personagens, mas não a ponto de lhes tirar a simpatia e o ar de pessoas incríveis, e, no entanto, falhas que encantam desde o início. Apesar de seus defeitos, que se tornam mais incômodos a cada década, a série não deixa de ser um ícone dos anos 2000, sendo considerada um clássico, porque, mais do que marcar momentos cômicos, marcou muitos corações.
