
Isabela Pitta
Entre súplicas veladas e lutas diárias, o ser humano busca, a cada dia, definir e alcançar a liberdade em suas múltiplas facetas. Apesar de viver uma vida flexível e passível de mudanças, muitas pessoas caem na característica elástica da existência e, por fim, voltam para onde estavam ao início da caminhada ‘transformadora’. Em Hot Milk, padrões, traumas e uma pitada de esperança guiam a trajetória incansável em direção à libertação.
Em sua estreia na direção de longas-metragens, Rebecca Lenkiewicz, com sensibilidade e calor, adapta a obra literária homônima de Deborah Levy, publicada em 2016. Ao contar uma parte da história do relacionamento complexo e cheio de ultimatos entre Sofia (Emma Mackey) e Rose (Fiona Shaw), a diretora lida com uma duração curta para a densidade dos temas em que aborda. Com uma hora e 30 minutos, a dramaturga britânica, ao lado de grandes atuações, dá vida a uma narrativa profunda e abstrata sobre a Liberdade.
Sofia, recém chegada ao intenso verão espanhol, acompanha a mãe, Rose, que enfrenta mais uma etapa da jornada interminável em busca da cura para a condição invisível que lhe atinge. Presa às próprias complexidades psicológicas e sentada em uma cadeira de rodas, a mulher, há mais de 20 anos, sofre com dores eternas e paralisia nas pernas. Diante de uma nova promessa em solo castelhano, juntas, mãe e filha, buscam por tratamento efetivo para reconquistar o que a melancolia do mundo lhes tirou.

Em um desenvolvimento etéreo e faminto, o amor entre Sofia e a princesa de seus sonhos nasce como uma fonte controversa de segurança e frustração. Alguém lhe ter e, ao mesmo tempo, não ter esse alguém. Para a protagonista, ser exclusiva nas atenções e paixões da companheira é essencial devido a tudo que não teve na vida. Mas, com a parceira que cavalga em direção ao sol espanhol com incertezas e traumas, isso não é uma realidade possível.
Com uma narrativa atemporal, a produção visual de Hot Milk explora os mistérios das psiques das personagens pela paleta de cores dos figurinos criados por Sophie O’Neil. Quando imersas em incertezas e insensibilidades, as cores frias transparecem nos tecidos da palidez de corações cegos e presos nas próprias câmaras. Em breves momentos de preciosa liberdade, o calor do verão espanhol reflete memórias de aconchego e carinho retratadas com quentura não apenas humana, mas também climática.

Na busca incansável pelo prazer em cuidados, Sofia se entrega cegamente à vulnerabilidade física e emocional. Para ela, enfrentar os perigos de um carro em alta velocidade ou as queimaduras de uma água viva, não são monstros maiores do que a solidão, o abandono e a falta de liberdade. Para poder avançar na própria história, a protagonista precisa vencer uma batalha interna sobre como quer viver a vida e superar os demônios que o seu relacionamento com Rose traz à tona. Estar presa às enfermidades da mãe ou mergulhar de cabeça nas profundezas da existência completa como ser humano?
As cores quentes do verão são contrastadas com as tonalidades frias e frívolas de alguém que, como Rose, com desesperança, olha adiante e não vislumbra qualquer possibilidade de vivacidade futura mesmo no mar de águas cristalinas da Espanha. Entre silêncios estarrecedores, discussões inquietantemente construídas e ultimatos, o relacionamento de mãe e filha avança com rapidez e pouca destreza na curta duração do filme, mas permanece no mesmo lugar.
Como um cuidado ausente ou um leite quente acalentado com carinho materno pela manhã, a obra adaptada para as grandes telas ganha um lindo tom melancólico e, ao mesmo tempo, esperançoso. Nas mãos da diretora Rebecca Lenkiewicz, o verão castelhano, que ganha personalidade única em meio a galopadas catárticas ao sol escaldante, pode ser palco para a avassaladora conquista da tão sonhada liberdade de Sofia Papastergiadis.
