
Guilherme Moraes e Arthur Caires
Há filmes que nascem de uma escolha estética, outros de uma inquietação pessoal, e há obras que só podem existir porque uma vida insiste em não ser apagada. Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe, documentário dirigido por Sepideh Farsi, nasce no centro de uma das maiores tragédias humanas deste século: a ofensiva militar israelense em Gaza, que desde 2023 transformou ruas, casas e escolas em escombros e submeteu toda uma população ao cerco, à fome e ao apagamento sistemático de suas vozes.
Foi a partir desse silêncio forçado que a produção encontrou seu caminho. De Paris, do lado de fora de uma fronteira militarizada que impede a entrada de jornalistas e cineastas, ela buscava uma maneira de testemunhar o que estava acontecendo. Do outro lado, em Gaza, estava Fatima Hassouna, jovem fotógrafa, poeta e sobrevivente de um bombardeio diário que reconfigurava a vida a cada amanhecer.
Separadas por um bloqueio que não permitia que se encontrassem, mas unidas por videochamadas que rasgavam o isolamento imposto, a diretora iraniana e Fatem (nome artístico) construíram uma relação que ultrapassa o gesto documental. A cada ligação, entre falhas de conexão, cortes de energia e a possibilidade constante da interrupção final, as duas criavam uma narrativa que nasceu como registro, mas se transformou em ponte: uma forma de vencer o cerco que mantinha Sepideh do lado de fora e Fatima do lado de dentro – e de afirmar, contra a lógica da guerra, que a vida insiste.
Entre a dor e a luminosidade
Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe é uma obra cercada de escuridão, mas que encontra luz no sorriso de Fatima. Apesar do seu entorno cada vez pior, a fotógrafa encontrava um motivo para se alegrar toda vez que falava com sua amiga, o que trazia uma beleza mesmo nos momentos mais tristes.
“Eu sinto que é um filme difícil de ver, pois, como espectador, você sente empatia por Fatima. O espectador se sente na minha posição, o que é muito íntimo. É claro que é triste, pois você sabe desde o início o que está passando com ela, mas ela é tão vibrante e tem tanta luz, então eu acho que o filme vai mais em direção a vida do que a tragédia ou a morte.”
Sepideh Farsi também comentou sobre o ponto de vista que ela emprega, de forma que não resuma Fatima apenas a condição de vítima, e também da força que a amiga demonstra, para que em nenhum momento isso seja considerado.
“Ela não é uma vítima, ela não se considera uma vítima, assim como eu também não. É claro que ela é vítima do genocídio, do cerco militar, assim como todos os outros palestinos. Ainda assim, ela tem tanta força e resiliência que consegue ir além dessas limitações, e foi isso que tentamos mostrar juntas.”
O impacto que ela sentiu
Um filme como este sempre causará impacto, principalmente por aqueles que fizeram e pela maneira como foi feita. Mesmo com a distância em relação a sua ‘personagem’, o contato recorrente da diretora com Fatima e o vínculo que se formou entre as duas, certamente a modificou de alguma forma. Sepideh falou um pouco sobre como tudo o que aconteceu na produção do longa está afetando-a.
“Nós realmente nos tornamos amigas, então, quando eu a perdi, quando ela foi assassinada pelo exército israelense, isso obviamente me impactou. O filme mudou, o significado mudou, e o sentido de fazê-lo mudou também. Mas eu acho que junto com ela, nós fizemos algo muito especial. Isso realmente transmite seu testemunho para o mundo à fora. Eu acho que eu ainda preciso de tempo para entender como me modificou, foi muito recente, mas com certeza me mudou.”

A história conduzida por uma relação improvável
Quando perguntada sobre o equilíbrio delicado entre documentar e não forçar uma narrativa sobre alguém que vive sob um constante risco de morte, Sepideh responde com a sinceridade de quem se permitiu confiar no fluxo.
“Não estava pensando em quem guiava o filme. Foi um processo muito fluido. Eu a questionava, claro, mas cortei a maior parte das minhas perguntas na montagem. Era muito mais interessante ouvir as respostas dela.”
O pacto entre elas era simples: Fatem enviaria vídeos, textos, fotografias – aquilo que desejasse dividir. Sepideh conduziria o resto.
“Ela não estava envolvida no processo de filmagem como cineasta. E ela também não queria assistir às imagens. Acho que queria se proteger. É complicado estar sob bombas e ainda refletir sobre como você dirige a si mesma.”
A primeira videochamada do filme, comenta, foi o primeiro encontro entre as duas. Não havia preparação, apenas o acaso que cria destino. “Eu nunca esperava me aproximar dela tão rápida e profundamente”, diz. “Aconteceu. É humano. Foi um milagre, de certa forma.”
O que permanece após o fim
Quanto à mensagem final, Sepideh responde que já sabe exatamente o que irá permanecer. “O que vai ficar é a luz dela. O sorriso dela, que é inesquecível. Você não esquece seu rosto depois de encontrá-la.”
Mas, Sepideh vai além: deseja que o filme ajude o público a compreender a força do povo palestino e a necessidade urgente de agir. “Os palestinos são extremamente resilientes. Não se colocam no lugar de vítima. Estão sempre olhando adiante, com esperança, mesmo sob cerco, mesmo durante o genocídio.”
O cinema, para ela, pode ser um ponto de virada. Um convite à responsabilidade. “Espero que o filme funcione como um gatilho para que as pessoas encontrem maneiras de lutar, de mudar a narrativa dominante. Temos o dever de ajudar os palestinos a superar isso.”
Antes de encerrar, ela recupera algo que Fatem lhe disse: “Se o conflito na Palestina terminar, muitos outros terminarão.” Na época, Farsi duvidou. Hoje, acredita.
“Agora vejo que é um conflito central no nosso tempo. Ele está na encruzilhada entre capitalismo, colonialismo e dominação cultural ocidental. Se conseguirmos mudar essa história – se houver justiça, se houver um fim digno para os palestinos – isso se tornará um precedente para outras lutas. É isso que eu quero que as pessoas levem do filme.”
