Há 5 anos, Dua Lipa homenageava quem veio antes com Future Nostalgia

Capa do CD Future Nostalgia, Finda a Viagem. Fotografia quadrada com o fundo preto. Na parte central está a cantora Dua Lipa. Uma mulher branca, de cabelo louro. Ela veste uma blusa rosa com botões pretos e utiliza luvas brancas com anéis em alguns dos dedos. A cantora está dentro de um carro e a mão esquerda dela segura um volante da cor marrom. Ela apresenta uma expressão séria, olhando para frente. Ao canto esquerdo superior, há uma lua da cor azul.
A cantora não apenas revisita o que já foi feito; essa é, na verdade, a versão de Dua Lipa das décadas de ouro da música pop (Foto: Hugo Comte/Warner Music)

Guilherme Machado Leal

Após o lançamento de Don’t Start Now, faixa que iniciou os trabalhos de seu segundo álbum, Dua Lipa utilizou uma das melhores plataformas de divulgação para uma artista pop: a performance em uma premiação com alcance mundial. Ato de abertura do MTV Europe Music Awards, em novembro de 2019, a artista mostrou que havia feito a lição de casa depois das críticas que recebeu no ano anterior pela sua dança em One Kisshit com Calvin Harris – no Lollapalooza de Berlim. Como tudo que dita a era Future Nostalgia, a cantora dividiu com o público o avanço em direção à estrela que gostaria de se tornar. A cada lançamento que antecipava a chegada do projeto, a albanesa preparava o terreno para aquele que se tornaria o seu trabalho mais aclamado.

Prince, Blondie, Jamiroquai e Moloko foram referências para a jovem, que optou por misturar o passado com o futuro ao descrever em sua lírica o momento pelo qual passava enquanto uma mulher de 20 e poucos anos em meio à produção com homenagens a épocas célebres da música. No single de estreia, por exemplo, o disco setentista era o foco; na composição, a performer pedia para que o ex não entrasse em contato, pois ela estava em um novo momento. Pois bem, sua mudança foi perceptível: a popstar trocou as baladas de coração partido pela diversão encabeçada do som fresco e futurista, explicado em entrevista à Variety durante o lançamento do sucessor de seu debut.

Sem lágrimas para derramar, ou melhor: se chorasse, que fosse na pista de dança, a artista construiu o próprio nome em um lugar especial no gênero. Entre os nomes que surgiram na época de New Rules, canção responsável por exportar as ambições musicais de Lipa ao redor do globo, a britânica se destacou com um combo potente e atemporal. Aliada a um time de produtores, formado principalmente por Jeff Bhasker, Ian Kirkpatrick e com uma peça fundamental para auxiliar no sentimento de nostalgia ao escutar o álbum: Stuart Price.

Foto da cantora Dua Lipa, uma mulher branca com cabelos louros. No registro, ela aparece com uma maquiagem verde nos olhos, semelhante ao top da mesma cor que utiliza. A cantora está com a mão esquerda na boca e olha para o lado esquerdo. Atrás dela, há uma paisagem marcada pelas cores azul, laranja e amarelo.
Good In Bed e Boys Will Be Boys, canções que finalizam o álbum, ainda permanecem deslocadas ao avaliar o projeto como um todo (Foto: Hugo Comte)

Conhecido como o principal produtor do Confessions on a Dance Floor, de Madonna, o veterano participa de faixas como Cool, Hallucinate e Love Again. No entanto, é em Levitating que o toque especial do britânico: em uma canção cheia de frescor e vida, a intérprete coloca os pulmões para fora, demonstrando o amor de outras dimensões que sente por alguém. Atuando nos teclados, na programação e no baixo, o artista confere à música um sentimento de saudosismo aos momentos mais impactantes do pop, como Teenage Dream de Katy Perry.

O quinto single da era se tornou o maior sucesso da cantora na Billboard Hot 100 ao passar 77 semanas na parada norte-americana. Para impulsionar, a produção ganhou duas versões: uma com Madonna e Missy Elliott para o Club Future Nostalgia (versão remixada do projeto original) e outra com o rapper DaBaby, presente no relançamento do disco, intitulado Future Nostalgia (The Moonlight Edition). Depois de cinco anos, ao revisitar o trabalho, pode haver o questionamento se a sonoridade parou no tempo. Entretanto, à época, além da britânica, nomes como The Weeknd e Doja Cat estavam retomando o som oitentista. 

De fato, voltar àquilo que já foi feito é um cenário muito confortável para os cantores da atualidade. Embora o público esteja acostumado com letras virais para o TikTok ou dancinhas que irão ‘ajudar’ na longevidade de um trabalho musical, os consumidores do gênero não são tão fáceis de enganar. E é nesse ponto que o segundo álbum da performer a consagra como uma promessa. A autenticidade e o desejo de permanecer aparecem nos versos embalados de sentimentalismo, assim como a homenagem realizada a quem veio antes. Ser da nova geração e ganhar o apoio daqueles que viram de perto a ascensão de Britney Spears, a versatilidade de Beyoncé e a transformação cultural de Lady Gaga não depende apenas de uma gravadora injetando dinheiro. Longe disso, no disco, é perceptível o quanto Dua Lipa precisou correr para mostrar o seu diferencial.

Foto da cantora Dua Lipa, uma mulher branca de cabelos louros. No registro, ela veste um casaco rosa e olha para frente. Ela está com o cabelo preso e com duas mechas soltas na frente do rosto.
No Club Future Nostalgia, disco que apresenta faixas remixadas do projeto original, Dua Lipa recebe produtores como Kaytranada e Mark Ronson (Foto: Hugo Comte)

Uma das particularidades da obra e que a coloca como um respiro à música pop enlatada é a alteração – ou expansão – que Lipa realiza nas faixas ao cantar os segundos refrãos. Em Physical, por exemplo, vemos uma extensão das letras e do vocal da artista, com adição de conteúdos líricos que ampliam o gosto do fã pelo momento em que coloca os fones de ouvido. Pretty Please, uma das canções mais espertas da britânica, contém acertos criativos no que se relaciona ao trabalho de produção, a exemplo do som de uma espinha sendo arrepiada, como ela mesma versa no exato segundo em que canta, ou quando pede para o amado ajudá-la a desacelerar e a velocidade rítmica da canção diminui. 

Segundos como esses, sutilmente representados, dão força à história que a compositora conta no Future Nostalgia. Se em 2018, Ariana Grande disse que não havia mais lágrimas para chorar, Dua pega o líquido e o bebe direto da pista de dança. Para ela, não tem tempo ruim! E se for para se lamentar, que seja ao som de uma boa canção pop. Por si só, o segundo álbum de estúdio é suficiente; mas, como uma boa estudiosa dos passos de seus antecessores, a estrela domina ainda mais a conversa trazida com os clipes que marcaram a era.

Nós criamos algo fenomenal

Você não concorda?  — Physical

Em Break My Heart, faixa que contém interpolação do hit Need You Tonight da banda australiana INXS, a performer versa sobre o medo de se “apaixonar por aquele que poderá quebrar seu coração”, como ela mesma diz no refrão. No vídeo, comandado por Henry Scholfield, com quem a popstar já trabalhou em IDGAF e New Rules, a jovem se junta às amigas em uma festa retrô com direito a uma coreografia intimista. No último single do projeto, Love Again, a compositora abandona as madeixas loiras que marcaram e entrega à faixa um conceito introspectivo alinhado à coreografia country no melhor estilo ‘quem faz o palhaço rir?’.

Desde o momento em que foi lançado, o álbum marcaria o gênero na década de 2020. Com o aniversário de cinco anos, fica evidente o cuidado dela em trazer a sua versão do que seria se sentir fresh e vintage; o que pegar de lá e trazer para cá. É uma roupagem interessante, enérgica e, com certeza, um divisor de águas na carreira da britânica. O receio de se tornar um mero cometa avistado por um seleto grupo nem deveria ser conversa de terapia para a cantora: o nome de Dua Lipa entrou para o hall de hitmakers do gênero.

Foto da cantora Dua Lipa, uma mulher branca com cabelos louros. No registro, ela aparece sentada em uma cadeira de praia. Ela veste uma blusa regata verde e uma calça jeans preta. Ela possui anéis na mão direita e está com a mão esquerda dentro da calça. Ela olha para o lado direito e usa um batom da cor vermelho escuro. Atrás da cantora, há espécies de montanhas com tons de azul.
Em outubro de 2022, a cantora se apresentou com a Future Nostalgia Tour em São Paulo e no Rock in Rio (Foto: Hugo Comte)

Você quer uma música atemporal, eu quero mudar o jogo”, frase dita pela cantora na faixa que abre o disco, sintetiza o compromisso da estrela. Aqui, você vai suar e se cansar por um bom motivo: aos veteranos, é um registro muito bem estruturado de quem vive na pele as transformações do cenário pop; para os novatos, o Future Nostalgia é uma boa porta de entrada para descobrir lendas que influenciaram e constituíram não só a pessoa da voz que encabeça o projeto, mas os nomes que a fizeram cimentar o status de star quality – almejado por muitos e conquistados por poucos.

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