
Guilherme Machado Leal
Após o lançamento de Don’t Start Now, faixa que iniciou os trabalhos de seu segundo álbum, Dua Lipa utilizou uma das melhores plataformas de divulgação para uma artista pop: a performance em uma premiação com alcance mundial. Ato de abertura do MTV Europe Music Awards, em novembro de 2019, a artista mostrou que havia feito a lição de casa depois das críticas que recebeu no ano anterior pela sua dança em One Kiss – hit com Calvin Harris – no Lollapalooza de Berlim. Como tudo que dita a era Future Nostalgia, a cantora dividiu com o público o avanço em direção à estrela que gostaria de se tornar. A cada lançamento que antecipava a chegada do projeto, a albanesa preparava o terreno para aquele que se tornaria o seu trabalho mais aclamado.
Prince, Blondie, Jamiroquai e Moloko foram referências para a jovem, que optou por misturar o passado com o futuro ao descrever em sua lírica o momento pelo qual passava enquanto uma mulher de 20 e poucos anos em meio à produção com homenagens a épocas célebres da música. No single de estreia, por exemplo, o disco setentista era o foco; na composição, a performer pedia para que o ex não entrasse em contato, pois ela estava em um novo momento. Pois bem, sua mudança foi perceptível: a popstar trocou as baladas de coração partido pela diversão encabeçada do som fresco e futurista, explicado em entrevista à Variety durante o lançamento do sucessor de seu debut.
Sem lágrimas para derramar, ou melhor: se chorasse, que fosse na pista de dança, a artista construiu o próprio nome em um lugar especial no gênero. Entre os nomes que surgiram na época de New Rules, canção responsável por exportar as ambições musicais de Lipa ao redor do globo, a britânica se destacou com um combo potente e atemporal. Aliada a um time de produtores, formado principalmente por Jeff Bhasker, Ian Kirkpatrick e com uma peça fundamental para auxiliar no sentimento de nostalgia ao escutar o álbum: Stuart Price.

Conhecido como o principal produtor do Confessions on a Dance Floor, de Madonna, o veterano participa de faixas como Cool, Hallucinate e Love Again. No entanto, é em Levitating que o toque especial do britânico: em uma canção cheia de frescor e vida, a intérprete coloca os pulmões para fora, demonstrando o amor de outras dimensões que sente por alguém. Atuando nos teclados, na programação e no baixo, o artista confere à música um sentimento de saudosismo aos momentos mais impactantes do pop, como Teenage Dream de Katy Perry.
O quinto single da era se tornou o maior sucesso da cantora na Billboard Hot 100 ao passar 77 semanas na parada norte-americana. Para impulsionar, a produção ganhou duas versões: uma com Madonna e Missy Elliott para o Club Future Nostalgia (versão remixada do projeto original) e outra com o rapper DaBaby, presente no relançamento do disco, intitulado Future Nostalgia (The Moonlight Edition). Depois de cinco anos, ao revisitar o trabalho, pode haver o questionamento se a sonoridade parou no tempo. Entretanto, à época, além da britânica, nomes como The Weeknd e Doja Cat estavam retomando o som oitentista.
De fato, voltar àquilo que já foi feito é um cenário muito confortável para os cantores da atualidade. Embora o público esteja acostumado com letras virais para o TikTok ou dancinhas que irão ‘ajudar’ na longevidade de um trabalho musical, os consumidores do gênero não são tão fáceis de enganar. E é nesse ponto que o segundo álbum da performer a consagra como uma promessa. A autenticidade e o desejo de permanecer aparecem nos versos embalados de sentimentalismo, assim como a homenagem realizada a quem veio antes. Ser da nova geração e ganhar o apoio daqueles que viram de perto a ascensão de Britney Spears, a versatilidade de Beyoncé e a transformação cultural de Lady Gaga não depende apenas de uma gravadora injetando dinheiro. Longe disso, no disco, é perceptível o quanto Dua Lipa precisou correr para mostrar o seu diferencial.

Uma das particularidades da obra e que a coloca como um respiro à música pop enlatada é a alteração – ou expansão – que Lipa realiza nas faixas ao cantar os segundos refrãos. Em Physical, por exemplo, vemos uma extensão das letras e do vocal da artista, com adição de conteúdos líricos que ampliam o gosto do fã pelo momento em que coloca os fones de ouvido. Pretty Please, uma das canções mais espertas da britânica, contém acertos criativos no que se relaciona ao trabalho de produção, a exemplo do som de uma espinha sendo arrepiada, como ela mesma versa no exato segundo em que canta, ou quando pede para o amado ajudá-la a desacelerar e a velocidade rítmica da canção diminui.
Segundos como esses, sutilmente representados, dão força à história que a compositora conta no Future Nostalgia. Se em 2018, Ariana Grande disse que não havia mais lágrimas para chorar, Dua pega o líquido e o bebe direto da pista de dança. Para ela, não tem tempo ruim! E se for para se lamentar, que seja ao som de uma boa canção pop. Por si só, o segundo álbum de estúdio é suficiente; mas, como uma boa estudiosa dos passos de seus antecessores, a estrela domina ainda mais a conversa trazida com os clipes que marcaram a era.
Nós criamos algo fenomenal
Você não concorda? — Physical
Em Break My Heart, faixa que contém interpolação do hit Need You Tonight da banda australiana INXS, a performer versa sobre o medo de se “apaixonar por aquele que poderá quebrar seu coração”, como ela mesma diz no refrão. No vídeo, comandado por Henry Scholfield, com quem a popstar já trabalhou em IDGAF e New Rules, a jovem se junta às amigas em uma festa retrô com direito a uma coreografia intimista. No último single do projeto, Love Again, a compositora abandona as madeixas loiras que marcaram e entrega à faixa um conceito introspectivo alinhado à coreografia country no melhor estilo ‘quem faz o palhaço rir?’.
Desde o momento em que foi lançado, o álbum marcaria o gênero na década de 2020. Com o aniversário de cinco anos, fica evidente o cuidado dela em trazer a sua versão do que seria se sentir fresh e vintage; o que pegar de lá e trazer para cá. É uma roupagem interessante, enérgica e, com certeza, um divisor de águas na carreira da britânica. O receio de se tornar um mero cometa avistado por um seleto grupo nem deveria ser conversa de terapia para a cantora: o nome de Dua Lipa entrou para o hall de hitmakers do gênero.

“Você quer uma música atemporal, eu quero mudar o jogo”, frase dita pela cantora na faixa que abre o disco, sintetiza o compromisso da estrela. Aqui, você vai suar e se cansar por um bom motivo: aos veteranos, é um registro muito bem estruturado de quem vive na pele as transformações do cenário pop; para os novatos, o Future Nostalgia é uma boa porta de entrada para descobrir lendas que influenciaram e constituíram não só a pessoa da voz que encabeça o projeto, mas os nomes que a fizeram cimentar o status de star quality – almejado por muitos e conquistados por poucos.
