Finalista do 67º Prêmio Jabuti, Penélope Martins conta ao Persona sobre seu ‘trabalho de formiga’ na Literatura

A literatura juvenil de Penélope Martins conecta jovens e adultos por meio da mesma sensibilidade (Foto: Penélope Cruz; Arte: Arthur Caires)

Arthur Caires

Antes de aprender a escrever para crianças, Penélope Martins aprendeu a escutar. Escutava as conversas de família, a faladeira que se misturava à costura da mãe, o tricotar da avó na varanda e, entre uma história e outra, descobriu que o afeto também se comunica por palavras. Muito antes de publicar livros, já havia ali uma autora em formação: alguém que entendia o poder das narrativas que costuram o mundo.

Formada em Direito, Penélope caminhou por anos entre códigos e processos até perceber que a justiça que procurava não estava nas leis, mas nas histórias. Eu percebi que, se não fizesse outra coisa da minha vida – e eu sabia o que era, tinha a ver com literatura – eu ia ficar frustrada, conta.

Foi entre as brincadeiras dos filhos e as rodas de histórias improvisadas em casa que a escritora surgiu de fato. Eu chamava as crianças e contava histórias. Uma poeta de Santo André viu o fascínio que eu tinha com elas e me disse: ‘Penélope, você tem que escrever para esse público’. E eu acreditei, lembra.

A partir daí, começou o que ela chama de seu ‘trabalho de formiga’: bater de porta em porta com originais na mão, insistir na palavra, acreditar na delicadeza. Hoje, autora premiada e formadora de mediadores de leitura, Penélope transformou aquele gesto inicial, o de ouvir, em missão. 

Da Advocacia para a Literatura

Entre gerações, a literatura de Penélope Martins encontra leitores de todas as infâncias (Foto: Penélope Martins)

A travessia entre o Direito e a Literatura não foi apenas uma troca de ofício, porém de sentido. Filha de uma família de trabalhadores da agricultura e da costura, Penélope foi a primeira a entrar numa universidade. Os meus pais me incentivaram muito a estudar, mas tinham um olhar pragmático: o que você vai fazer com isso?, conta.

A advocacia parecia a resposta possível para uma jovem que gostava de ler e falar – sempre fui muito faladeira, brinca. No entanto, bastou amadurecer para entender que a vocação verdadeira estava em outro tipo de prática.Eu cresci numa família de contadores de histórias, o famoso círculo dos mentirosos. Um conta uma mentira, o outro conta uma maior ainda. E era tão divertido!, diz, rindo.

Foi justamente esse espírito de roda, onde a imaginação se torna espaço de convivência, que moldou sua escrita. Nas palavras de Penélope,as histórias são um modo de se reconhecer nos olhos do outro. Talvez por isso, cada livro seu pareça nascer de uma escuta, como se escrever fosse, também, uma forma de ouvir de volta.

Ler é um direito e escrever é um ato de reparo

Penélope costuma dizer que aprendeu a ler com o corpo, como quem entende o peso e o alívio de uma palavra no tempo certo. Sua relação com a leitura começou na infância, quando os livros se misturavam às histórias inventadas pelos adultos. Mas, foi uma cena simples, guardada na memória, que se transformou em símbolo de tudo o que ela acredita: o direito de aprender, de nomear o mundo, de ser escutada.

“Minha avó, quando ia tricotar na varanda, pedia que eu colocasse uma almofada nas costas dela. Um dia, ela me pediu um ‘trabesseiro’, e eu, criança, corrigi: ‘Não é trabesseiro, é travesseiro’. Levei uma bronca da minha tia, mas minha avó me defendeu. Disse: ‘Deixa ela me corrigir, porque ela está estudando mais do que eu estudei’.”

Entre o erro e o acerto, estava o gesto de amor que a autora nunca esqueceu. Quando eu digo que a leitura é um direito, é porque ela ainda é concedida a poucas pessoas. Mesmo o básico, ler e escrever, ainda não está garantido para todos, diz.

Em suas formações de mediadores de leitura, Penélope repete que alfabetizar não basta: é preciso criar vínculos, dar às pessoas o direito de se reconhecer no texto. Para ela, a leitura é uma forma de reparação, uma devolutiva simbólica às vozes silenciadas por gerações.

“A leitura, para mim, tem a ver com acolhimento. É um direito que repara o que foi negado, o direito de existir na palavra.”

Talvez por isso, sua literatura seja tão atravessada por memórias e gestos cotidianos. Há, em sua fala, uma ternura combativa: o desejo de construir um mundo mais justo a partir da delicadeza. Porque, no fim, escrever, para Penélope, é um modo de cuidar do outro com as palavras que o tempo costurou nela.

Quando a Felicidade vem num corpo pequeno

Em Felicidade, Penélope Martins transforma o sentimento em personagem e o cotidiano em poesia (Foto: Editora Casa de Letras)

Felicidade é uma menina pequena que corre na rua atrás dos cachorros. Assim nasceu o poema que, dez anos depois, se transformaria em livro. A imagem simples, uma criança correndo sob o sol, rindo das coisas pequenas, virou metáfora para um sentimento que Penélope Martins persegue em toda a sua obra: o de que a alegria mora no cotidiano, e que escrever é uma forma de preservá-la.

“Senti uma alegria inexplicável ao olhar a chuva delicada sobre a roseira. Por vezes, as coisas que nos trazem felicidade são minúsculas.”

O livro Felicidade, lançado pela Editora Joaninha, parte dessa percepção íntima para construir uma narrativa que fala de acolhimento. Nele, a própria Felicidade é uma personagem recém-chegada a um lar, aguardando para ser compreendida. Será que vão guardá-la numa caixa de sapatos? Ou dentro de uma maleta de ferramentas?, provoca o texto.

A história nasceu de uma experiência pessoal, um lampejo de ternura durante a infância da filha, um instante que a autora não quis deixar escapar. Eu queria brincar com a ideia de a felicidade ser uma personagem, e ter essa interpretação dúbia: a chegada dela pode ser algo novo, mas também algo que já estava ali, só esperando ser visto”.

A ilustradora Cássia Roriz deu forma a essa sensação por meio da colagem, criando um universo lúdico que parece convidar o leitor a participar. “A Cássia fez um trabalho cheio de recordações, que dá vontade de recortar e desenhar junto, diz Penélope, sorrindo.

Em Felicidade, palavra e imagem se juntam como fragmentos de um mesmo gesto: o de reconhecer o extraordinário no pequeno. E, talvez, essa seja a maior delicadeza do livro – lembrar que, para as crianças (e para quem ainda sabe olhar como elas), a felicidade não cabe no corpo, porém o corpo é que aprende a caber na felicidade.

Amor, diferença e espelho: as irmãs Ana e Rosa

Ana e Rosa, Rosa e Ana mergulha nas delicadas relações entre irmãs e nos laços que crescem junto com o amor (Foto: Editora Casa de Letras)

Se em Felicidade Penélope Martins explora o encantamento do sentir, em Ana e Rosa, Rosa e Ana ela mergulha no terreno mais delicado dos afetos: o das relações familiares. O livro, ilustrado por Nat Grego, fala sobre irmãs e também sobre o espelho que cada uma representa na vida da outra, um reflexo de semelhanças e desencontros que forma o retrato do amor.

“O amor também tem seus desafios: alguns dias são de sol, outros chovem lagos e rios.”

A partir da convivência entre Ana e Rosa, a autora discute o convívio, as diferenças e o que significa crescer junto de alguém. Eu preparei essa história pensando no desafio da inclusão nas escolas, especialmente nas que têm muitas crianças. Às vezes olhamos para o caso de inclusão como se ele fosse o diferente e nós, os iguais. Mas, o exercício de inverter isso – perceber o quanto também somos diferentes aos olhos do outro – é muito interessante na perspectiva da criança”.

A fala da autora ressoa como uma espécie de lição de empatia. Em Ana e Rosa, as irmãs vivem as pequenas turbulências da infância com a sinceridade de quem ainda não aprendeu a disfarçar o afeto. A narrativa sugere que o amor, assim como a convivência, se constrói na contradição: entre o riso e a raiva, a distância e o reencontro.

As ilustrações de Nat Grego traduzem visualmente esse movimento: cores que se fundem, personagens que parecem se tocar e se afastar ao mesmo tempo. Tudo no livro convida o leitor a enxergar o outro não como espelho perfeito, mas como reflexo necessário.

No fim, o gesto de Penélope é o mesmo que perpassa toda a sua obra: olhar para o humano com delicadeza, reconhecendo nas diferenças o lugar onde o amor aprende a existir.

O voo que a levou ao Prêmio Jabuti

Quando minha mãe voou no 14-bis pela Editora PeraBook (Imagem: PeraBook)

Quando Penélope Martins fala sobre Quando Minha Mãe Voou no 14 Bis, sua voz ganha um tom de surpresa misturado com ternura. O livro, finalista da 67ª edição do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Juvenil, nasceu da vontade de contar uma história curta e densa, quase um conto alongado por metáforas, um texto sobre ausência, afeto e o difícil exercício de crescer.

“A menina narra a própria vida e anuncia que a mãe voou sem dar notícia. Ela espera o dia em que a mãe vai pousar de novo. A mãe tem uma questão de saúde mental, e a filha quer a mãe inteira pra ela, mas recebe o que a mãe consegue dar.”

Com uma prosa enxuta e simbólica, o livro constrói um universo em que o céu e o chão se confundem, onde o amor também é feito de distância. O texto tem densidade, sim, mas é curto, dividido em quatro capítulos. Eu achei que ia escrever só para crianças, e de repente me vi conversando com adolescentes, com quem está entre a infância e o mundo, conta.

A indicação ao Jabuti veio como um reconhecimento da força dessa travessia. Quando saiu a lista dos semifinalistas, eu já estava nas nuvens”, brinca. E quando vi o nome entre os finalistas, foi outra surpresa. A literatura juvenil precisa muito de olhares, porque se fala muito das infâncias e dos adultos, mas pouco desse meio do caminho”.

O voo do 14 Bis é, também, o voo da própria autora: uma literatura que se desprende de rótulos, que flutua entre idades e experiências. Penélope escreve para quem ainda guarda dentro de si a infância, ou para quem tenta reencontrá-la.

“Tem muito adulto que lê meus livros e entende que um texto para infância é, na verdade, para todas as infâncias – inclusive aquela que a gente já viveu e ainda carrega dentro.”

O trabalho de formiga e o futuro que ele trilha

Além de escrever, Penélope Martins também faz rodas de leitura para crianças (Foto: Colégio Bandeirantes/Reprodução)

Penélope Martins gosta de se definir como uma formiga: paciente, incansável e atenta aos caminhos que constrói palavra por palavra. Em tempos de pressa e esquecimento, ela escolhe o ritmo da constância, aquele que acredita na transformação silenciosa da leitura. Eu me preocupo em fazer meu trabalho de formiga. Levar os livros, levar a leitura, acolher as pessoas. Porque todas as pessoas precisam de acolhida, diz.

O futuro que ela imagina para si mesma não está separado do que escreve. Eu não sei exatamente para onde meus textos vão me levar. Eu vivo as coisas e faço o que tem sentido pra mim, confessa. Em 2026, três novos livros juvenis assinados por ela serão lançados pela Editora Joaninha; obras que continuam a explorar o encontro entre vidas desafiadas e a força que nasce desse encontro. Não posso dar spoiler, ri, mas são histórias muito fortes, sobre pessoas que carregam pedras imensas na mochila e ainda assim caminham.

A autora evita pensar a literatura em termos de faixa etária. Prefere falar em camadas, em sensibilidades que atravessam o tempo. Como dizer que um livro é só para essa ou aquela idade? Eu escrevo o que precisa ser dito, e o livro encontra seu leitor.

“Escrever, pra mim, é um gesto de cuidado. Eu escrevo pra acolher. E acolher é a forma mais bonita que conheço de dizer que o outro existe.”

Em cada livro, há um traço dessa ética da delicadeza: o direito de ser ouvido, de sonhar, de se ver refletido em uma história. Penélope Martins escreve com a calma de quem entende que a literatura não muda o mundo de uma vez, mas muda o modo como a gente o habita.

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