
Sofia Ferreira Santos
Ao longo de sua carreira, Lady Gaga consolidou-se como uma criadora de extremos: do pop dançante de The Fame (2008) à densidade conceitual de ARTPOP (2013), da vulnerabilidade íntima de Joanne (2016) à catarse eletrônica de Chromatica (2020). Essa habilidade de transitar entre o espetáculo e a confissão, entre o acessível e a experimentação, alimentou expectativas intensas do público e da crítica a cada novo lançamento. MAYHEM (2025), portanto, surge não apenas como o oitavo álbum de estúdio da estrela, mas como uma produção que dialoga com essa herança: um retorno à teatralidade sombria de Born This Way, às canções confessionais de Joanne e à energia catártica de Chromatica.
MAYHEM ganhou vida além do estúdio durante a Mayhem Ball Tour, uma encenação teatral de proporções épicas. No Brasil, a celebração atingiu seu ápice em Copacabana, com um show gratuito na praia que reuniu cerca de 2,1 milhões de pessoas, tornando-se a maior apresentação já feita por uma mulher na história. Dividido em cinco atos temáticos – ‘ópera gótica’ em formato pop –, a apresentação incluiu suas faixas de maior sucesso, como Poker Face, Bad Romance e Shallow, tudo embalado em visuais grandiosos e figurinos teatrais. Esse momento histórico não só coroou o ciclo do projeto, como reafirmou a capacidade de Gaga de transformar música e imagem em experiência coletiva – com forte ressonância cultural e emocional no país.
Mais do que simplesmente atender às expectativas, a musa as redefine ao entregar uma obra completa que se assume como ‘caos’ – entretanto, trata-se de um caos específico: estruturado, encenado e transformado em espetáculo sonoro e visual. Além disso, como apontou a Zane Lowe durante a entrevista sobre a produção para a Apple Music, esse seria justamente o que a persona Lady Gaga representa para ela. Com esse material, a performer revela múltiplas facetas de sua identidade artística e, sobretudo, uma intersecção singular entre três extremos que apenas ela poderia oferecer ao público: a balada, o amor e o gótico.
A BALADA
Inicialmente, Balada, foi o primeiro tema apresentado aos little monsters (como são chamados seus fãs) sobre a novidade. A faixa se trata de uma colaboração feita com Bruno Mars, Die With a Smile, lançada em 2024, escolhida como última da tracklist. Com esse estilo musical elegante, aborda um amor carregado de emoções, vulnerabilidade e quase melancolia, em que, por tanta entrega, a pessoa deseja, caso o mundo se acabe, estar com quem ama nos últimos instantes e, assim, como o próprio nome da música diz, morrer com um sorriso.
O sentido de discoteca também aparece na obra pelo ambiente em que é reproduzida, especialmente em festas voltadas ao público LGBTQIAPN+, onde grandes hits da carreira da estrela costumam estar presentes. Na nova produção, isso se mantém: o single Abracadabra traz batidas densas e um experimentalismo que favorece a criação de remixes e versões alternativas, aproximando-se da estética sonora do submundo. Esse estilo vem ganhando força nos últimos anos, sobretudo com a festa Submundo 808, criada pelo Coletivo 808 – Produções em Campinas e hoje presente em diversos estados do país, alcançando também projeção internacional.
Além disso, o MAYHEM não tem suas referências presentes oriundas desses ambientes somente pela musicalidade, como também, pela cultura de ballroom, representada pela personagem Senhora do Caos (Mistress of Mayhem), personificada por Gaga e mostrada previamente no clipe de Disease. Neste caso, como no outro videoclipe, ela é mostrada em um conflito com a outra persona – que seria a própria Lady Gaga, porém, neste momento, inicia o videoclipe apresentando uma competição de ballroom, dizendo: “Dance ou morra”.
Essa batalha representa não somente uma luta pela própria vida, e sim, por sua liberdade dentro da indústria musical, refletida em músicas como Disease e Perfect Celebrity, em que a cantora aborda como se sente moldada por esse sistema a ser um exemplo perfeito para a sociedade, e em como essa constante cobrança a afeta. Esse conceito é apresentado principalmente na segunda faixa citada, em que ela expõe que se sente como uma ‘boneca humana de plástico’, obrigada a mostrar-se sempre impecável para que seja vendável, e consequentemente, suscetível também a perder sua personalidade.
Enquanto isso, em Disease, somos conduzidos a outro aspecto dessa excessiva cobrança: o de sentir a obrigação de curar o outro – não apenas seus fãs, mas também a própria indústria musical, que projeta sobre a artista expectativas de regeneração e superação. Ao mesmo tempo, a canção também pode ser lida como uma tentativa de cura de si própria, uma resposta íntima às marcas deixadas pelo constante julgamento e pelas exigências externas que atravessam sua trajetória.
O AMOR
A segunda intersecção – Amor – é abordada como a anterior; sempre com duas facetas: a primeira, em uma busca por esse sentimento, em um sentido existencial, de aceitação e resistência frente a opressão sofrida pela indústria musical como pela sociedade. A segunda, é abordada pela complexidade de uma relação amorosa, como na faixa Blade of Grass, em que, com um tom melancólico, o eu lírico apresenta ao ouvinte uma vivência verdadeira e complicado, além de revelar a profundidade e a poesia desse relacionamento, como pode ser observado logo nos primeiros dois versos: “Namorados se beijam em um jardim feito de espinhos / Vestígios de palavras solitárias, ilusões despedaçadas”, em que se aborda como experiências passadas de dor e ilusão são contrastantes com a atual.
Após versar suas tristezas e dores passadas, em Vanish into You, é mostrado um lado ainda mais vulnerável do amor: uma entrega total. Em que almeja-se a perda do ‘eu’, que constrói muros para a existência de um ‘nós’, tornando tudo uma coisa só. Mostra-se uma paixão que procura uma fusão quase espiritual, em contraste com o individualismo da fama que cerca e assombra Gaga.

O GÓTICO
Sobre a terceira intersecção do disco, o Gótico, é importante compreender que essa faceta se mostra, não somente nas temáticas das canções, mas também na estética do próprio MAYHEM, presente primeiramente em seu título, que poderia ser traduzido como ‘confusão’ ou ‘caos’ – elementos comumente encontrados em obras desse cunho, tanto na música quanto na literatura. Um exemplo notável é a obra Frankenstein: ou o Prometeu Moderno (1818), de Mary Shelley, importante contribuinte para o gótico. Assim como Gaga aborda sentimentos complexos em suas canções, a Criatura criada por Victor Frankenstein também é apresentada como uma personagem multifacetada, sobrecarregada não apenas pelo seu criador, entretanto, por toda a sociedade que a teme – do mesmo modo sentem medo da ‘verdadeira’ singularidade da artista em seu último álbum: ousada, amante, sombria e, principalmente, incrivelmente mutável.
Acerca da estética mostrada, em muitas imagens conceituais do projeto, assim como na capa, Gaga se mostra interseccionada entre três elementos: ela mesma, com uma expressão séria, mas ainda assim, suave; o vidro quebrado, que cobre metade de sua face; além de sua reflexão emitida no vidro de maneira turbulenta. Além disso, toda a idealização visual também explora o gótico, em que, com um primeiro contato com o material, o público logo percebe a coloração, que em sua maioria, é preta e branca, puxada para um tom acinzentado.

Porém, o gótico não é abordado somente com elementos como as cores, pois vai além disso, mostrando, logo na capa, o conceito do álbum, que é sombriamente conturbado, entretanto, ainda assim, amoroso. Ali, mostra-se no vidro, um reflexo de como a cantora se sente em meio ao caos que tenta organizar, tanto em sua vida profissional, como também na pessoal, e, além disso nos clipes de MAYHEM, apesar dos diferentes conceitos, a fuga de si e do sofrimento está sempre presente, assim como em obras sobrenaturais, primordialmente, naquelas do período romântico, onde o escapismo e o sentimento de não pertencimento tornam-se temas centrais.
Para além da visualidade gótica – com elementos além do preto e branco, como turbulência, comparação, medo, morte e fuga –, Gaga também aborda o sombrio desgaste que sente. Em sua volta, falando sobre um final de festa com a canção Zombieboy, aborda-se uma faceta diferente do cansaço: em como ele também pode trazer sensualidade. Em diversos trechos a cantora, além de, primeiro, animalizar a pessoa almejada, quando diz “Coloque suas patas em mim”, como também, fazer referência à sua relação com seus fãs e os paws up de Gaga, em um sinal de união em meio ao caos; e em contraste, aborda o desejo, primordialmente carnal, mas ainda sim, transgressor.

A recepção do disco reforça a ideia de versatilidade que caracteriza o projeto. MAYHEM se movimenta por diferentes registros, do vibrante dance às emocionais canções lentas, passando pela nostalgia dos anos 80 até o gótico performático. A produção equilibra teatralidade, humor e vulnerabilidade, traduzindo as contradições de Gaga em ARTPOP. Essa combinação gerou um certo ‘caos organizado’ na estrutura do projeto, com momentos de grande potência, especialmente nas faixas de abertura, e pequenas irregularidades nas partes mais introspectivas.
Os fãs receberam o lançamento de forma calorosa, celebrando tanto a inovação sonora quanto a ousadia estética. Comparado aos projetos anteriores, MAYHEM mostra uma expansão da paleta musical da artista e reafirma seu papel de provocadora no cenário pop, mantendo o equilíbrio entre entretenimento e expressão artística intensa.
A Balada revela a vulnerabilidade e a delicadeza em momentos de introspecção, reforçada pela versatilidade musical que permite às suas canções ocupar diferentes espaços. O Amor surge como uma busca constante, ora marcada pela entrega espiritual às relações, ora atravessada pela dor e pela perda. Já o Gótico se manifesta tanto na estética sombria quanto na crítica à indústria e às pressões da fama. É no encontro desses três eixos que Gaga constrói a identidade de MAYHEM, reafirmando-se como criadora capaz de transitar entre extremos sem perder a coerência de sua trajetória.
