
Arthur Caires
Desistir já foi sinônimo de fraqueza. Era o verbo da derrota, da frustração, daquilo que não deu certo. Mas, aos poucos, entendemos que tem coisas que simplesmente não merecem o nosso esforço. Tem causa que é melhor abandonar do que insistir. E tem relações, fases e até versões de nós mesmos que precisam ficar para trás. É nesse espírito que HAIM lança I quit, uma coleção de músicas que se recusa a dramatizar e escolhe simplesmente seguir em frente.
Em seu quarto álbum de estúdio, Danielle, Alana e Este se ancoram nas bases sólidas que o trio construiu ao longo da última década: um soft rock de raízes californianas, permeado por influências de bandas dos anos 1970, do pop dos anos 1980 e do R&B dos anos 1990. Dessa vez, a sonoridade vem acompanhada de um conceito bem definido e direto. Como a caçula explicou no material de divulgação, “toda faixa gira em torno da ideia de largar algo que não está mais funcionando para nós”. Em vez de buscar superação ou dar voltas em metáforas, as irmãs Haim optam por um registro sincero, que enxerga a desistência não como fraqueza, porém como ato de indiferença.

I quit marca também uma mudança importante nos bastidores da banda. Pela primeira vez desde o início da carreira, HAIM não conta com a produção de Ariel Rechtshaid – que, além de parceiro criativo, foi namorado de Danielle por nove anos. A ausência dele não significa um vazio, mas uma abertura para novas possibilidades. A irmã do meio também assina a produção ao lado de Rostam Batmanglij (Vampire Weekend) e do colaborador Buddy Ross, imprimindo um processo mais orgânico e intimista.
O resultado é um disco com estética menos dependente dos reverbs que marcaram os trabalhos anteriores e mais atento às imperfeições, aos silêncios e às nuances do vocal sem filtros. Essa escolha se reflete também nas referências sonoras. O álbum cita Abraham Lincoln já na faixa de abertura, Gone, e brinca com samples emblemáticos, como Freedom! ’90 de George Michael e Numb de U2. É o trabalho mais silencioso e contido da banda, no melhor sentido – arranjos enxutos e um foco emocional que privilegia a vulnerabilidade ao exibicionismo.
Com o lançamento de Relationships como primeiro single de I quit, HAIM deixou claro que a nova fase seria menos sobre tentar entender e mais sobre deixar pra lá. A faixa abre com uma provocação direta: “O que é toda essa conversa sobre relacionamentos?” – e, a partir daí, desmonta com precisão melódica e produção impecável a ideia de que vínculos românticos são centrais ou obrigatórios para a existência. Funciona quase como um manifesto de identidade da banda. É a música que melhor sintetiza a razão de ser do trio – um grito de exaustão, mas também de alívio, como quem diz “cansei de tudo” e encontra liberdade exatamente aí.
No terceiro single, Down to be wrong, a reflexão é aprofundada com mais nuance. Em vez de seguir o caminho fácil da culpa unilateral, as irmãs reconhecem que, muitas vezes, o desgaste não vem só do outro – vem da fricção entre duas pessoas emocionalmente desalinhadas, tentando se entender sem saber como. Na composição, “aposto que você gostaria que fosse fácil para mudar de ideia” aponta para o desconforto de se sentir incompreendida e também inflexível. Já em The farm, o tom é ainda mais introspectivo: “Mas a distância continua aumentando entre o que me permito dizer e o que sinto”. No mundo emocional narrado por HAIM, não existe vilão ou vítima, só seres humanos fodidos da cabeça tentando fazer o melhor com o pouco que conseguem comunicar.

Apesar de Danielle seguir como o centro gravitacional da banda – com vocais mais presentes e letras afiadas que conduzem o tom confessional do disco – I quit abre um novo espaço para que cada irmã brilhe individualmente. Alana assume pela primeira vez os vocais principais em uma faixa completa, na dançante e melancólica Spinning e Este comanda os versos de Cry, uma balada synth-country em que sua fragilidade aparece de forma inédita. Ao permitir que cada uma tenha voz própria, o álbum ganha novas camadas de interpretação e mostra que, por trás da unidade que sempre marcou o HAIM, existem perspectivas e emoções que só agora estão vindo à tona com mais nitidez.
No âmbito do marketing, I quit seguiu uma linha cronicamente online liderada por Terrence O’Connor, o mesmo nome por trás da elogiada estratégia de divulgação de BRAT, de Charli XCX. Amigo próximo da cantora britânica e figura conhecida nos bastidores da cena pop alternativa, O’Connor ajudou HAIM a criar um universo visual e conceitual que brinca com a cultura digital, resgata momentos clássicos de paparazzi dos anos 2000 nas capas dos singles e convida os namoradinhos da internet – Will Poulter, Logan Lerman e Drew Starkey – para participar dos clipes. O resultado foi uma campanha que não só amplifica o senso de humor da banda como também reforça a identidade culturalmente antenada que as irmãs Haim têm cultivado ao longo dos anos.
Mesmo com uma discografia coesa, respeito da crítica e uma presença constante nos bastidores – seja Danielle tocando guitarra em Something Beautiful de Miley Cyrus, Este tocando tamborim no Joanne de Lady Gaga ou Alana brilhando em sua carreira de atriz –, HAIM parece ocupar um lugar curioso: reconhecidas, porém não exatamente populares em larga escala. Parte disso pode vir da escolha consciente de não adotar uma figura central como porta-voz ou ‘rosto oficial’ da banda. A irmã do meio, embora esteja à frente da produção, dos vocais e apareça com mais frequência nos holofotes, nunca se coloca como líder absoluta. A dinâmica do grupo, desde o início, é construída na ideia de irmandade e igualdade, o que pode soar libertador em termos artísticos, mas talvez mais desafiador para o público mainstream, que costuma se conectar com personalidades individuais com mais facilidade.
Esse modelo, que desafia estruturas convencionais de banda e rompe com a lógica do estrelato individual, pode ajudar a explicar por que o HAIM ainda circula em uma espécie de limbo entre o rock alternativo e o pop. A ausência de hierarquias explícitas dificulta a criação de uma narrativa tradicional, daquelas que vendem identificação ou impulsionam redes sociais. Enquanto isso, outras artistas que compartilham esse ethos coletivo, como boygenius ou MUNA, enfrentam desafios parecidos em termos de alcance. No entanto, no fim das contas, isso pouco importa: as irmãs Haim são interessantes demais para se preocupar e relevantes o suficiente onde realmente importa – como elas mesmas dizem na última faixa de I quit, Now it’s time: “Será que estou me abrindo só pra dizer que na verdade nunca dei a mínima?”.
