Em Delírios, aprendemos que o passado é a casa que nunca nos deixa partir

Cena do filme Delírios (2024). Uma menina de cabelos curtos e expressão assustada espreita pela fresta de uma porta verde com uma cruz de ferro pregada no alto. O ambiente é escuro e frio, com um banco de madeira e vasos de plantas secas ao lado. A iluminação destaca a textura da madeira, criando um clima de suspense e isolamento.
Em Delírios, o medo se esconde nas frestas. Masha observa o mundo do lado de dentro, onde o silêncio pesa mais que qualquer ameaça (Foto: Cyan Prods)

Arthur Caires

Há casas que respiram, e em Delírios, cada parede guarda o som abafado de um segredo. Alexandra Latishev Salazar transforma o lar – esse espaço de suposta segurança – em um organismo adoecido, feito de memórias que se recusam a morrer. Masha, uma menina de onze anos, muda-se com a mãe para cuidar da avó doente, e o que deveria ser um gesto de afeto se converte em um ritual de exorcismo. A cada instante, o passado parece infiltrar-se pelos cantos, até que a casa se torna uma extensão da mente: um labirinto onde o medo e a lembrança convivem.

A diretora escolhe observar em vez de mostrar. Assim como em Nada (2024), de Adriano Guimarães, a câmera persegue o invisível, aguardando que algo se revele por entre sombras. O som – feito de rangidos, respirações, portas que não se fecham – é o guia dessa travessia. Nada explode; tudo se acumula. É um horror que não grita, apenas se insinua, e que encontra sua força no que é reprimido. Mas, há um preço nessa contenção: a repetição de gestos e enquadramentos transforma o suspense em uma espera interminável. O filme, aos poucos, parece aprisionado pela própria atmosfera que construiu.

Nesse cenário, três corpos femininos sustentam a narrativa de Delírios como espelhos de uma mesma dor. Helena Calderón conduz Masha com pureza – o olhar infantil que enxerga o que os adultos fingem esquecer. Liliana Biamonte, como Elisa, transita entre o cansaço e a ternura, enquanto tenta proteger a filha do mesmo mal que a devora. Já Anabelle Ulloa, a avó Dinia, oscila entre fragilidade e descontrole, compondo um retrato de decadência que nunca soa teatral. Juntas, as três desenham o ciclo do trauma: herança, negação e repetição.

Cena do filme Delírios (2024). Uma menina lê um livro sentada na cama enquanto sua avó dorme ao lado, coberta por um mosquiteiro translúcido. A luz suave e as paredes brancas criam uma atmosfera íntima e melancólica. A rede de tule envolve as duas como se fosse uma fronteira entre o afeto e o confinamento.
Entre o cuidado e o medo, o amor também se transforma em vigília e o horror habita o gesto de quem tenta proteger e, sem perceber, repete o trauma (Foto: Cyan Prods)

A casa revela suas feridas por meio de símbolos discretos: cruzes nas paredes, marcas que nunca desaparecem e janelas que não deixam entrar a luz. Latishev insere a religiosidade não como crença, e sim como vigilância – o peso da culpa observando o cotidiano. Há ecos do vampírico, do fantasmagórico, mas o que realmente assombra é o passado; um pai ausente que causa a dor herdada de uma tentativa constante de purificar o que já está impregnado. O horror se manifesta como o eco de gerações tentando limpar as mesmas manchas com gestos diferentes.

Se Delírios impressiona pelo rigor estético, ou seja, a fotografia hipnótica de Esteban Chinchilla e a direção de arte de Federico Montealegre que mistura o sagrado e o doméstico – a obra também se perde dentro de si. O mistério, por vezes, se sobrepõe à emoção. A narrativa prefere o símbolo à confissão, e o resultado é um filme emocionalmente distante. Há fascínio em cada quadro, porém também uma sensação de que o delírio permanece contido, protegido demais para realmente nos ferir. É o tipo de obra que exige entrega, paciência e disposição para habitar o silêncio junto com seus personagens.

Ainda assim, Delírios é uma obra que olha para o trauma não como uma ferida aberta, porém como uma memória em repouso. Algo que se instala nos gestos mais banais, se disfarça nas paredes e volta a pulsar quando o corpo menos espera. Nesse sentido, Latishev compreende que o horror mais profundo não grita, ele sussurra. Por isso, ao fim, não há redenção nem susto, apenas o reconhecimento de que viver é conviver com o que nos assombra, e talvez o maior delírio seja acreditar que um dia poderemos escapar completamente desse passado.

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