Em Carranca, a travessia de Urias é majestosa, mas cansativa 

Na imagem, há uma pintura de uma mulher no centro. Ela possui cabelos longos e cheios, com os braços abertos, e uma estrela no topo da cabeça. Ao seu redor, há vários rostos emoldurados, com elementos em azul e vermelho, além de duas pombas brancas.
As cores e os elementos visuais, além da técnica utilizada, tornam Carranca uma referência estética. (Imagem: Isaac Sales)

Victor Hugo Aguila

Apostando na brasilidade, Urias retorna ao mundo da música com CARRANCA, seu mais novo projeto. Sendo este seu terceiro álbum de estúdio, a artista apresenta uma mistura de elementos que englobam pop, R&B, rap, soul e groove. Com um cenário musical transformado em algo palpável e visual, ela redefine e consagra sua veia artística e originalidade, ainda que com brechas.

Mesmo com lançamentos pouco interessantes, como FÚRIA (2022), a mineira sempre se destacou visualmente. Após definir sua estética e marcá-la musicalmente, Urias revolucionou a maneira de ser ouvida com o LP HER MIND (2023), no qual, explorando o universo eletrônico, ampliou sua gama de possibilidades para se afirmar enquanto artista. Ainda que receba diversas críticas quanto à sua habilidade vocal, nessa nova fase, sua voz se torna um encaixe surpreendente ao agregar à narrativa. 

CARRANCA se apresenta estrondosamente logo no título: esculpidas em madeira, as carrancas eram figuras utilizadas em embarcações para afastar maus espíritos. Por meio de referências históricas, Urias cria um cenário de travessia simbólica, que revela, já no início, o álbum como uma experiência a ser conquistada. Com um diálogo variando entre o estético e o erudito, a força do projeto se encontra na sua densidade, embora, sob essa mesma lente, o disco possa ser encarado como disperso e maçante. 

Na imagem, há uma mulher de cabelos cacheados e longos, vestindo um macacão coberto de franjas transparentes e sapatos de salto. O fundo da imagem é azul.
Utilizando mais texturas e cores frias, Urias apresenta seu trabalho com uma nova identidade. (Foto: Mariana Maltoni)

No single Deus, parceria com Criolo, a cantora explora a musicalidade através de uma produção complexa e acordes orgânicos. Trazendo o simbolismo para a lírica, Urias aborda o apagamento religioso sofrido por povos africanos e indígenas durante o período da colonização. Ao utilizar elementos do canto folclórico de Inezita Barroso na faixa, a compositora expõe uma nova face de sua arte, evidenciando sua profundidade e direcionamento. 

Ao se conectar com raízes afro-brasileiras, religiosidade e ancestralidade, Urias consegue estabelecer um diálogo com questões sociais e identitárias, indo além do entretenimento. Sob esse ponto de vista, curiosamente, é possível definir um contraste entre essa faixa e Diaba, seu single de estreia, lançado em 2019. Ainda que com propostas diferentes, ambas as canções se encontram no ponto em comum que a artista sudestina tanto demarca: entender as demandas da realidade e do tempo que a cerca, e sua urgência em serem anunciadas. 

Com uma atmosfera encorpada e momentos experimentais, Urias constrói uma sonoridade que realiza um casamento entre a modernidade e a antiguidade. Ao introduzir novas harmonias e arranjos vocais, Urias se arrisca em reiterar aqueles que criticam sua sonoridade, mostrando que sua voz densa é o nó necessário para amarrar toda a estrutura de maneira coerente. Seu timbre forte e estridente garante a força necessária para impulsionar o desejo do disco, provocando o ouvinte e mostrando que a presença da cantora, naquele momento, é inegociável. 

No centro da imagem, há uma mulher com vestido prateado e com cabelos escuros e longos. Ela está com as mão no rosto e possui unhas longas e um adorno em formato de estrela na cabeça. Ao seu redor, há elementos em azul e, por toda a imagem, há bolhas de sabão.
Marcinha do Corintho é uma das maiores referências artísticas na noite paulistana, sendo uma voz potente na luta pelos direitos de mulheres trans e travestis no país. (Foto: Bernardo Nielsen)

Elegante e referenciando o som dos anos 1980, Etiópia chega como um alívio confortável para a transição entre essa faixa e as demais. Nela, a liricista fala sobre o retorno ao lar que tanto ama, encontrando refúgio na memória e no afeto do que é pertencer. Ao abordar sobre o berço da humanidade com apreço e nostalgia, é possível quase tatear um novo tom na voz de Urias, que se apresenta com suavidade. 

Encontrei minha Etiópia / Caminho de volta, pra esbanjar / Naveguei, não paro agora / Nos livros de história, a gente vai estar” – Etiópia

Quanto à sua estrutura, é inegável o talento do disco ao introduzir três interlúdios narrados por Marcinha do Corintho – ícone do movimento artístico e cultural da cena paulistana. As letras proferidas pela estrela da casa noturna Corintho ganham ainda mais significado graças à sua bagagem histórica e contribuição à realidade a qual faz parte. Embora esses aspectos enriqueçam a obra, para aqueles que esperam homogeneidade, há a possibilidade de decepção: as mudanças de tom e diferenças abstratas entre as músicas podem definir uma dificuldade de imersão total no trabalho. 

Além das características musicais, é imprescindível abordar um dos elementos mais importantes dessa nova era: a estética. A arte da capa – pintada à mão pelo artista plástico Isaac de Souza Sales – combinada à direção criativa, faz dessa a melhor performance visual de Urias. Ao abordar sua subjetividade e vivência por meio do afro-surrealismo, a visão política e multiartística do álbum ganha um novo rosto, reforçando a história que se deseja transmitir. 

No centro da imagem, há uma mulher vestindo uma roupa preta e branca e com cabelos presos em um coque. Em sua cabeça, duas mechas de cabelo formam um chifre. Em seu ombro direito, há uma borboleta azul.
Nascida em Uberlândia (MG), Urias continua alcançando seu espaço no mainstream através de sua autenticidade artística. (Foto: Mateus Aguiar)

Na parte final da obra, é revelada a faixa A Voz do Brasil, com Major RD. O título é uma referência crítica ao programa de rádio instituído durante o período da ditadura militar no Brasil, sendo obrigatório em todas as emissoras do país. Retomando seu controle, Urias apresenta o conceito da canção com tom divertido e intrigante, porém sua execução é rasa. As letras repetitivas se encontram em um campo de disputa com a profundidade tão presente no LP, tornando o encerramento decepcionante. 

CARRANCA, ainda que com lacunas a serem preenchidas, é um expoente essencial para aqueles que manifestam interesse pela Arte contemporânea brasileira. Através do seu impacto cultural, o disco pode ser incômodo a quem deseja apenas um produto comercial, visto que sua produção está distante de ser algo fácil de digerir. A ambição de Urias em lançar um projeto tão significativo e intenso demonstra não apenas sua ideia conceitual de maneira concisa, mas também audaciosa. Com uma coragem musical e uma estética invejável, a musicista de fato alcança – com alguns desvios – seu lugar no pódio de referências e certifica sua potencialidade em criar um legado enquanto artista. 

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