
Arthur Caires
Se existe uma certeza quando o assunto é Reneé Rapp, é que ela nunca vai tentar ser a estrela do pop comportadinha. Basta assistir a qualquer entrevista para perceber: entre piadas ácidas e uma postura de diva, ela passa a impressão de que não liga para protocolos de media training, e é justamente aí que mora o seu charme. Depois de um início de carreira no teatro musical (Meninas Malvadas, na Broadway) e uma passagem de sucesso pela TV em The Sex Lives of College Girls (2021), Reneé mergulha de vez no pop em seu segundo álbum, Bite Me. O disco chega como quem não promete respostas definitivas, mas sim um retrato honesto de uma artista que ainda está se entendendo – e que parece se divertir no processo.
Antes dessa nova era, Reneé tinha apostado em outra direção. Seu debut, Snow Angel, de 2023, trouxe uma sonoridade mais indie alternativa, guiada por baladas melancólicas e um apelo vocal dramático que parecia apontar para uma carreira marcada pela intensidade. Porém nesse meio tempo, muita coisa mudou: sua saída conturbada da série de Mindy Kaling virou notícia e ajudou a reforçar sua persona de artista sem papas na língua. Ao mesmo tempo, sua interpretação de Regina George na versão musical de Meninas Malvadas (2024) reacendeu nela a fagulha pop punk dos anos 2000 – um estilo teatral, debochado e energético que se reflete diretamente em Bite Me.
O pontapé inicial da era veio com Leave Me Alone, single que não poderia ter escolhido melhor o timing. A faixa traduz exatamente a persona pública de Reneé: alguém com zero paciência para agradar, que transforma polêmica em combustível para a própria imagem. Mais do que isso, a música tem aquela energia caótica e divertida que parece saída direto da trilha sonora de Sexta-Feira Muito Louca (2003) – um pop rock de guitarras leves, refrão chiclete e um certo desdém adolescente. Como carta de apresentação, foi a escolha certeira: mostrou que a artista sabe rir de si mesma enquanto abraça sem medo o estereótipo da garota malvada.
Se a primeira faixa chegou com os dois pés na porta, os dois singles seguintes não alcançaram o mesmo efeito, ainda que revelem nuances importantes do disco. Em Mad – comicamente seguindo a mesma temática de I’d Rather Have Sex, de Anitta – o sentimento é de uma irritação constante com a pessoa amada, que prefere iniciar uma discussão do que aproveitar um momento de prazer. Já Why Is She Still Here? mergulha direto no melodrama: uma confissão amarga sobre infidelidade, onde Reneé deixa o vocal brilhar, alternando com naturalidade entre o desencanto e a raiva. A canção lembra uma versão mais contida de Amy Winehouse, ou até mesmo algo próximo ao que levou RAYE a conquistar os holofotes com My 21st Century Blues (2023).
Na produção, Bite Me mantém uma ponte com o passado ao trazer de volta Alexander 23 e Omer Fedi – nomes que já estavam no debut Snow Angel – mas a adição mais marcante é Julian Bunetta, conhecido por trabalhar com Sabrina Carpenter. A presença dele dá ao disco um frescor mais ‘pop do momento’, menos alternativo e mais voltado para a playlist da vez. É nesse terreno que nascem alguns dos melhores momentos do álbum, como Shy e Kiss It Kiss It.
Shy, em especial, é o retrato de um turbilhão íntimo: Reneé canta sobre se apaixonar de surpresa por Towa Bird – também artista – em meio às inseguranças deixadas por um relacionamento difícil. O resultado é uma faixa que alterna vulnerabilidade e explosão, quase como se ela estivesse tentando transformar em música a sensação de estar nervosa demais para se entregar, mas ainda assim não conseguir evitar. Já Kiss It Kiss It vai na direção oposta. É um pop leve, divertido e cheio de malícia, com versos que revelam a veia bem-humorada da artista: “Nós quase fizemos um bebê / Quer dizer, não teríamos como / Mas nós chegamos tão perto”.

Mesmo baladas sendo sua especialidade, nem todas funcionam perfeitamente em Bite Me. Sometimes é boa, mas fica nítido que é uma produção de Ryan Tedder – toda vez que toca, é impossível não lembrar de Halo, de Beyoncé. Por outro lado, That’s So Funny se destaca como o ponto alto emocional e lírico do álbum, aquela faixa que realmente mostra o potencial vocal de Reneé, com versos que cortam fundo: “Pegou o meu amor e o transformou em um ‘vai se foder’”.
O grande desafio agora de Reneé Rapp é decidir para qual caminho seguir: baladas dramáticas, pop despretensioso – à la Sabrina Carpenter – ou o punk rock dos anos 2000. Mas, talvez não haja pressa. Mesmo nesse processo de autodescoberta artística, a cantora já provou que consegue entregar um trabalho sólido e envolvente. Bite Me, mais do que um disco, é uma vitrine de possibilidades.
