Dez anos após participar do The Voice Brasil, Ayrton Montarroyos fala sobre criar e viver sem concessões

Ayrton Montarroyos carrega o ar de quem já está na estrada há tempos e que sabe exatamente o que quer (Foto: Luan Cardoso; Arte: Arthur Caires)

Arthur Caires

Entre reflexões sobre o ofício e pequenas ironias sobre o tempo, Ayrton Montarroyos fala como quem compõe: entre pausas, silêncios e lampejos de lucidez. Na coletiva de imprensa realizada com os alunos do curso de Jornalismo Musical: da Arte da Entrevista à Construção do Texto, ministrado pela jornalista Adriana Del Ré, o cantor pernambucano transformou o encontro em algo além de uma entrevista – um diálogo sobre coerência, criação e permanência.

A voz que se revelou ao Brasil em 2015, quando chegou à final do The Voice Brasil, já não carrega a inquietação dos palcos da TV, mas a serenidade de quem aprendeu a lidar com a própria medida. Nascido em Recife, Ayrton José Montarroyos de Oliveira Pires começou a cantar aos 11 anos e, desde então, tem se dedicado a lapidar o gesto da interpretação.

Das lembranças do passado e das críticas à pressa do presente, Ayrton reflete sobre o papel do artista que escolhe permanecer íntegro mesmo quando o mundo se move rápido demais. Para ele, o rigor é mais do que uma virtude estética – é uma forma de resistência.

“Eu acho que é muito difícil a gente se manter rigoroso na época de hoje. Tanto que os meus vídeos que eu fazia pro Instagram é uma coisa que eu parei de fazer, porque está todo mundo fazendo e eu não quero ser visto como qualquer um de todo mundo.”

A frase, dita em tom sereno, revela mais do que uma preocupação com imagem: expressa o cansaço de quem prefere o silêncio ao ruído, a consistência à pressa.

A arte de ser íntegro num tempo de excesso

Ayrton também discorre sobre o ofício de quem o entrevista. Ele demonstra respeito sincero pela profissão do jornalista e, ao mesmo tempo, critica a afobação que a tem corroído. “O jornalismo padece de um mal do tempo”, disse, com a cadência de quem pondera as palavras. 

“A gente precisa hoje de muito assunto toda hora. Mesmo um bom jornalista. Nem Nelson Rodrigues conseguiria manter a genialidade e o vigor diante dessa demanda.”

Ao longo da conversa, ele também lembra de experiências em que se viu diante de repórteres despreparados, apressados, que o abordavam sem conhecer sua trajetória. “Às vezes, o jornalista me liga e você sente claramente que ele não teve interesse, ou não teve tempo. Abriu ali na redação e pensou: ‘ah, é aquele ex-The Voice que lançou um disco, foda-se’”. O comentário soava menos como desabafo e mais como diagnóstico de uma geração acostumada à urgência e desatenta à escuta.

Para Ayrton, o bom jornalismo e, por extensão, a boa Arte nascem do mesmo princípio: o vigor e o rigor. Dois pilares que, segundo ele, sustentam tanto o ofício de escrever quanto o de cantar. “É muito difícil se manter rigoroso na época de hoje”, repetiu. “Mas é isso que nos separa da massa: o cuidado, o estudo, o interesse real”.

Entre elogios aos jornalistas que se dedicam a ouvir e críticas à superficialidade que ronda as redes, Ayrton parece reivindicar um espaço de prestígio perdido. 

“Hoje, qualquer um pode ser ouvido. Mas ainda precisamos de lugares que tragam respeito, de pessoas cuja opinião importe. Quando um jornalista especializado diz ‘ouçam esse disco’, pode ser que não fale para o Brasil inteiro, mas fala para quem realmente quer ouvir.”

Em sua fala, o artista traçava um paralelo entre o desaparecimento das referências e a diluição das vozes críticas. Se a era dos grandes cronistas e dos colunistas musicais chegou ao fim, ainda há, para ele, uma tarefa essencial: recuperar o sentido da palavra “escuta” – tanto na música quanto na imprensa.

O mistério da criação e o peso do processo

Quando o assunto é A Lira do Povo, disco lançado em junho de 2024, Ayrton muda o tom. “Cada trabalho tem seu processo”, começou. 

“É sempre muito misterioso. Apesar de ser uma pessoa muito cética, até em relação a Deus, há um mistério na Arte: a possibilidade de ser tudo aquilo que você pensou e de não ser nada do que você pensou, ou os dois ao mesmo tempo.”

Para ele, a criação soa como um exercício de entrega. Ele diz gostar mais do percurso do que do resultado. “Eu gostaria de ganhar dinheiro só para fazer o trabalho até ele ficar pronto”, confessou, rindo. “Gravou o disco, eu nunca mais tenho que fazer um show daquele”. No caso de A Lira do Povo, o processo foi quase monástico: mais de 20 ensaios, cada um com cerca de cinco horas, até que as canções deixassem de ser apenas ideias e se tornassem corpo.

O estúdio, para ele, é um lugar de rito. “Eu sou um cantor que gravo muito rápido. Entro, mando dar um ‘rec’ e digo: vai gravando como se fosse um show”, contou. “Gravamos toda a banda em um dia e todas as vozes no outro. Depois parei, fumei um cigarro e gravei de novo tudo”.

A Lira do Povo nasceu de um acúmulo. De anos de anotações em cadernos, de músicas guardadas, de escutas pacientes. “Tenho cadernos com mais de 300 canções”, contou. “Quando vou fazer um trabalho, volto a eles e começo a ouvir tudo o que esqueci. É dali que a Lira surgiu, de uma pesquisa de quatro, cinco anos, de uma vida inteira, talvez”.

Entre uma lembrança e outra, ele citava nomes que o acompanharam nessa travessia – Maria Bethânia, Villa-Lobos, as canções populares que ecoam no sertão e no mar. Falava do cuidado com o relevo sonoro, da monotonia calculada, do ponto exato em que a música respira. “Esse processo me apraz muito. Tenho muita paixão por fazer isso”.

Mais do que um disco, A Lira do Povo parece ter sido, para Ayrton, uma forma de reafirmar que a Arte é também trabalho, método e fé. Uma espécie de tentativa de conciliar o mistério e o ofício: aquilo que nasce sem explicação e o que exige paciência até o último acorde.

Durante seu show, Ayrton Montarroyos gosta de criar um espetáculo sem fôlegos (Foto: Murilo Alvesso)

Entre o palco e o silêncio: o ritual do show

Se no estúdio, Ayrton é o arquiteto meticuloso que constrói sons, no palco ele se transforma em diretor de um ritual. O espetáculo é, para ele, além de um espaço de exibição, um lugar de experiência. Quando questionado sobre a recepção do público, Ayrton sorriu: “Se eu te disser que não me importo, é mentira. Mas eu me importo muito pouco”. A frase resume o paradoxo de quem deseja emocionar, porém não está disposto a negociar o próprio gesto artístico para agradar.

Em A Lira do Povo, essa tensão se tornou forma. Ayrton concebeu o show como uma encenação sensorial: quando o teatro começava a receber o público, o artista já estava sentado entre as cadeiras; um defumador acendia-se lentamente, e o ar se enchia do cheiro de mato. “Tocava Floresta do Amazonas, de Villa-Lobos, e uma luz verde cobria a plateia”, descreveu. O cantor então levantava-se e lia um livro antes de começar a cantar. Sem aviso, sem terceiro sinal, apenas começava: “Lá vai o trem sem destino”.

“O show terminava como quando a vida acontece, sem que as pessoas percebessem nada. Eu queria que esse folclore se realizasse no palco. Às vezes as pessoas não aplaudiam, ficavam com aquela cara de quem não sabe se acabou ou não. Eu voltava para casa pensando: puxa vida, será que foi mais ou menos?”

Ayrton saía pela plateia, cruzava o teatro e desaparecia pela rua, ainda cantando. “As pessoas não entendiam”, contou. “Na terceira vez, eu parei. Porque o público é também o nosso cliente. Não pode sair achando que algo deu errado”.

Esse equilíbrio entre a entrega total e o desconforto calculado parece mover sua relação com o palco. Ayrton não quer ser o cantor que coleciona aplausos fáceis, tampouco ignora o olhar de quem o escuta. “Em algum nível importa, sim”, admitiu. “Mas eu não deixo que isso seja preponderante”.

No fundo, há algo de pedagógico em sua forma de apresentar: a tentativa de ensinar o público a ouvir, de devolver ao concerto o caráter de cerimônia. O palco, para ele, é menos um lugar de espetáculo e mais um espaço de encontro – entre quem canta, quem ouve e o instante que se forma entre os dois.

Crítica, dissonância e respeito

Ao tecer comentários sobre o rigor da Arte e o esgotamento das referências, Ayrton volta a falar sobre o jornalismo – desta vez, com o olhar de quem já viveu os dois lados da vitrine. Contou, com humor e admiração, o episódio em que recebeu uma crítica dura do jornalista Mauro Ferreira, conhecido por sua precisão e franqueza. “Cantei meio mal naquele dia”, lembrou. “Estava nervoso, era um show com Edu Lobo e Mônica Salmaso… quando vi, a voz não saiu. No dia seguinte, lá estava o texto do Mauro, certeiro.”

A reação, no entanto, não foi a esperada. “Eu liguei para ele e agradeci”, contou. “Disse: ‘você tem toda razão, eu realmente não estava bem’. E ele ficou com medo de eu brigar, achando que eu ia voar no pescoço dele”. O gesto, simples, pareceu revelar algo mais profundo: a crença de que a crítica é parte vital do ciclo artístico. “Para que o trabalho da gente exista, o crítico precisa existir”, afirmou.

Falando sobre o episódio, Ayrton fez um contraponto à geração que, segundo ele, confunde crítica com ataque. “Vivemos um tempo em que todo mundo gosta de tudo. Ninguém pode mais dizer que não gostou de uma coisa sem ser acusado de algo terrível”. Ele mencionou, como exemplo, a repercussão de uma crítica negativa escrita por Mauro Ferreira sobre a cantora Liniker. “As pessoas começaram a chamar o Mauro de transfóbico. Isso é um absurdo. A Arte precisa conviver com a dissonância”.

“Se o crítico desqualifica alguém por ser gay, mulher ou preto, aí é absurdo. Mas, se ele faz uma análise técnica, a partir de conceitos estéticos, o artista e o público precisam saber ouvir.”

A fala soa como um manifesto contra a fragilidade contemporânea e em defesa do debate qualificado. “É bom quando o crítico fala mal da gente”, disse, rindo. “A matéria é mais lida. As pessoas vão lá ver, discordar, pensar. Isso é ótimo.”

Nessa defesa da crítica, há também um elogio ao diálogo – o reconhecimento de que a arte só cresce quando é questionada. Ao reivindicar a escuta, Ayrton parecia reafirmar o que já havia dito no início da conversa: que o rigor e o vigor continuam sendo as únicas formas de resistir à pressa e à indiferença.

Ayrton não dita regras e não segue as impostas (Foto: Luan Cardoso)

Coerência e permanência

Quando perguntado sobre o preço de manter-se fiel à própria Arte, Ayrton sorriu antes de responder, um sorriso breve, entre o cansaço e a convicção. “Eu estaria muito pior se não estivesse fazendo isso”, disse. 

“Uma vez perguntei ao Edu Lobo se ele achava que tinha pago um preço por não fazer concessões. Ele respondeu: ‘Quem pagou o preço foram os que fizeram’. E eu acho que é isso mesmo.”

Na fala do cantor, a coerência não é virtude, é sobrevivência. Ele descreve a trajetória como um caminho lento, feito de escolhas conscientes e pequenas renúncias. 

“Às vezes me entristece ver o rumo das coisas, uma geração muito desinteressada, que quer chegar rápido demais. Mas eu não sinto que perdi nada. Pelo contrário, acho que só cheguei até aqui porque escolhi o caminho mais difícil.”

Essa fidelidade a si mesmo é também uma forma de se proteger da lógica do sucesso. “Tenho muito pouco talento”, disse, rindo de si. “Mas foquei no pouco que eu tinha e fui. Não dá pra ser o mais bonito, então vamos ser o mais interessante.” A frase, dita em tom leve, resumia a ética de quem aprendeu a transformar fragilidade em assinatura.

Entre lembranças de shows e parcerias, Ayrton voltou a falar sobre o risco das concessões. Contou sobre o episódio em que foi convidado a cantar com Cláudia Leitte, durante um carnaval em Recife. “Achei que seria ótimo, um público enorme, outra energia. Foi horrível”, confessou. “Eu vi o quanto é difícil fazer o que ela faz. Requer outro tipo de talento, outro tipo de corpo. E eu não tenho isso”.

A história, narrada com humor, parecia traduzir um princípio maior: o de que a Arte só existe quando se sabe o próprio lugar.  Ayrton parece distanciar-se da ideia de estrelato para reivindicar outra forma de permanência – aquela que se mede pelo tempo e pela memória. “O artista busca em vida a imortalidade”, disse. “Quando eu ouço Dalva de Oliveira, ela está viva. Quando ouço Tom Jobim, a música dele está viva. É isso que importa”.

O encontro e o futuro

Ao falar sobre o futuro, Ayrton não usou o verbo ‘planejar’ – preferiu ‘encontrar’. As parcerias, para ele, não são fruto de estratégia, mas de afinidade. “A coisa mais rica e engrandecedora é a troca entre artistas”, disse. “A gente aprende muito. E o que oferecemos ao outro também faz parte da nossa formação.”

Ele enumera as colaborações com a naturalidade de quem fala sobre amizades: Arthur Verocai, Edu Lobo, Nelson Ayres, Cristóvão Bastos, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Mônica Salmaso. Cada nome surge como um capítulo de aprendizado. 

“Eu lido muito bem em grupo. Trago uma ideia, mas não imponho. Escuto, levo pra casa, deixo amadurecer. Às vezes, quando acho que algo não funciona, tento resolver com jeitinho, sem ferir o outro. Mas quase sempre nem preciso, a música se resolve sozinha.”

Entre risos, contou que a vizinha e cantora “Aninha” Frango Elétrico vive cobrando para produzir um trabalho seu: “Ela me encontra e diz: ‘cadê nosso disco?’. E eu digo: ‘calma, vai sair’.” Em outro momento, falou sobre a oportunidade de cantar com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), na Sala São Paulo – um sonho antigo, que aceitou mesmo com o cachê baixo. “Meu empresário não queria que eu fizesse. Mas eu disse: eu vou. Eu pagaria pra tocar com a Osesp. É um curso que estão me pagando pra fazer.”

De menino que cantava aos 11 anos ao intérprete maduro que aprendeu a ouvir antes de falar, Ayrton Montarroyos reafirma no presente o mesmo princípio que o guia desde sempre: o rigor de criar e a serenidade de escutar. Mais do que planos de carreira, suas palavras revelam uma devoção ao aprendizado. 

“Eu preciso estudar, preciso aprender como se faz isso. A música é a tradição do encontro. Ninguém nunca fez música sozinho.”

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