E Mais Alguém nos mostra que o silêncio pode ser a ponte entre o confronto e o amor

Na imagem, há uma mulher branca de cabelos castanhos presos usando um suéter rosa. Ela está segurando um livro. Ao seu lado, um homem branco calvo, de barba grisalha e ele está vestindo um suéter azul listrado. À sua frente, há um notebook aberto. No lado direito da imagem, há um menino branco com cabelos castanhos utilizando uma camiseta azul. Todos estão sentados à mesa.
A fotografia do filme é um dos destaques mais marcantes do longa-metragem (Foto: Room for Film)

Victor Hugo Aguila

Escolher o silêncio como forma ideal de diálogo é, acima de tudo, disruptivo. Integrando a seção de Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, E Mais Alguém, de Vincent Tilanus, apresenta um olhar intimista – e quase psicanalítico – à respeito de dinâmicas familiares. No longa holandês, Tommy (Pier Bonnema), um adolescente queer de 17 anos, ao encontrar mensagens sexuais entre seu pai e outro homem, mergulha em uma espiral de tensão, fomentada pelo desejo de ser honesto, sem perder a lealdade que tanto valoriza. 

Através de um roteiro simples e uma montagem relativamente rápida, o filme ultrapassa barreiras destrinchando questões latentes, porém muitas vezes absortas ao olhar crítico. Para além do dilema ético previsível entre o que define uma traição ou qual seu impacto no seio familiar, o longa mostra intrinsecamente indagações sobre identidade, confronto e, acima de tudo, as nuances do amor. Ao tratar de tópicos tão delicados, é salientado como, a partir do caos e da discordância, as relações podem ser fortalecidas.

Na imagem, há uma mulher branca de cabelos castanhos presos usando um suéter rosa e calça cinza, sentada em uma cadeira. À sua frente, há um menino branco com cabelos castanhos utilizando uma camiseta azul sentado em uma cama com cobertas amarelas e travesseiros azuis. Eles estão em um quarto com paredes também azuis, onde há cartazes colados. Atrás do menino, há uma estante de madeira com livros e objetos de decoração.
A relação de Tommy com sua mãe representa fielmente o conforto de poder expressar sua identidade sem perder o acolhimento (Foto: Room for Film)

Sob um ponto de vista analítico, é possível inferir o distanciamento de Tommy e Abel (Rienus Krul), seu pai, como um ponto de proximidade com suas próprias identidades. Após a descoberta das mensagens, Tommy passa a construir um muro contra seu genitor, onde os nervos desse relacionamento estão à flor da pele. No entanto, ao longo do enredo, há um desenvolvimento pessoal de ambas as personagens: Abel sendo fiel aos seus próprios desejos e Tommy se permitindo viver experiências da própria adolescência. Nos dois lados dessa muralha emocional, ocorre o desabrochar da ternura consigo mesmo. 

Um ponto de destaque do filme, é o silêncio presente no ambiente. As falas se perdem no momento em que apenas gestos e olhares adentram o cômodo. Nesses momentos, é notável como, ao escolher a quietude, os personagens garantem que tudo seja dito. Um exemplo fundamental dessa análise é a cena onde a mãe, Lieke (Hanneke Scholten), e Abel estão conversando na marcenaria da família, após sua descoberta sobre as atitudes do parceiro. Em lágrimas e de costas um para o outro, ambos encaram o ambiente e tornam a calmaria ensurdecedora, deixando que ele expresse a carga emocional presente em palavras não ditas. 

Além dessas abordagens, é perceptível o confronto geracional entre diferentes experiências homoafetivas. Abel, sendo pai e vivendo a parte mais madura da vida adulta, se encontra em uma posição de desavença com a juventude do filho, que possui maior liberdade para viver plenamente sua sexualidade. Por se tratar de épocas e contextos diferentes, as experiências sexuais e românticas entre dois homens encontram novas interpretações, das quais Tommy possui autonomia e acolhimento familiar que seu pai um dia tanto desejou. É o mesmo caráter invejável presenciado em Me Chame Pelo Seu Nome (2017), por exemplo, na cena em que Elio conversa com seu pai, Mr. Perlman, após a partida de Oliver. “Vocês tiveram uma bela amizade. Talvez mais que uma amizade. E eu te invejo. No meu lugar, a maioria dos pais esperaria que tudo desaparecesse, rezando para que seus filhos se recuperassem. Mas eu não sou um pai assim”. 

Na imagem, há um menino branco com cabelos castanhos utilizando um moletom azul. Ele está com a cabeça apoiada na mão enquanto olha um homem à sua esquerda. O homem ao seu lado é branco e calvo, com barba grisalha e vestido em um suéter cinza.
Duas gerações de inseguranças e desejos se encontram em um campo de confronto (Foto: Room for Film)

Em aspectos técnicos, o filme se destaca por sua fotografia (Eva Heinsbroek e Lennart Verstegen). Tilanus utiliza brilhantemente as cores como elementos fundamentais da história, trazendo um caráter subjetivo para suas personagens. Na maior parte das cenas, o filho mais velho aparece utilizando tons de azul, transparecendo a melancolia do momento em que se encontra. Lieke, por sua vez, sempre mantém a neutralidade, usando cores que marcam sua personalidade maternal e acolhedora. Em um contexto cinematográfico, o uso eficiente dos aspectos visuais torna a experiência um deleite, e o diretor utiliza disso para provar sua maestria para além do roteiro. 

Cruzando o oceano de maneira estrondosa, E Mais Alguém traz à tona a necessidade da abordagem sobre família e as dinâmicas que a circundam para além da superficialidade. Ao analisar os personagens individualmente, e não apenas como elementos de um grupo maior, Vincent Tilanus transmite um olhar inovador e humanizado acerca das formas de cultivar relações afetivas. Ainda que haja diferenças culturais, o diretor consegue afirmar, através de sua arte, que sexualidade, desejo e amor são linguagens amplas e universais. 

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