
Victor Hugo Aguila
Escolher o silêncio como forma ideal de diálogo é, acima de tudo, disruptivo. Integrando a seção de Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, E Mais Alguém, de Vincent Tilanus, apresenta um olhar intimista – e quase psicanalítico – à respeito de dinâmicas familiares. No longa holandês, Tommy (Pier Bonnema), um adolescente queer de 17 anos, ao encontrar mensagens sexuais entre seu pai e outro homem, mergulha em uma espiral de tensão, fomentada pelo desejo de ser honesto, sem perder a lealdade que tanto valoriza.
Através de um roteiro simples e uma montagem relativamente rápida, o filme ultrapassa barreiras destrinchando questões latentes, porém muitas vezes absortas ao olhar crítico. Para além do dilema ético previsível entre o que define uma traição ou qual seu impacto no seio familiar, o longa mostra intrinsecamente indagações sobre identidade, confronto e, acima de tudo, as nuances do amor. Ao tratar de tópicos tão delicados, é salientado como, a partir do caos e da discordância, as relações podem ser fortalecidas.

Sob um ponto de vista analítico, é possível inferir o distanciamento de Tommy e Abel (Rienus Krul), seu pai, como um ponto de proximidade com suas próprias identidades. Após a descoberta das mensagens, Tommy passa a construir um muro contra seu genitor, onde os nervos desse relacionamento estão à flor da pele. No entanto, ao longo do enredo, há um desenvolvimento pessoal de ambas as personagens: Abel sendo fiel aos seus próprios desejos e Tommy se permitindo viver experiências da própria adolescência. Nos dois lados dessa muralha emocional, ocorre o desabrochar da ternura consigo mesmo.
Um ponto de destaque do filme, é o silêncio presente no ambiente. As falas se perdem no momento em que apenas gestos e olhares adentram o cômodo. Nesses momentos, é notável como, ao escolher a quietude, os personagens garantem que tudo seja dito. Um exemplo fundamental dessa análise é a cena onde a mãe, Lieke (Hanneke Scholten), e Abel estão conversando na marcenaria da família, após sua descoberta sobre as atitudes do parceiro. Em lágrimas e de costas um para o outro, ambos encaram o ambiente e tornam a calmaria ensurdecedora, deixando que ele expresse a carga emocional presente em palavras não ditas.
Além dessas abordagens, é perceptível o confronto geracional entre diferentes experiências homoafetivas. Abel, sendo pai e vivendo a parte mais madura da vida adulta, se encontra em uma posição de desavença com a juventude do filho, que possui maior liberdade para viver plenamente sua sexualidade. Por se tratar de épocas e contextos diferentes, as experiências sexuais e românticas entre dois homens encontram novas interpretações, das quais Tommy possui autonomia e acolhimento familiar que seu pai um dia tanto desejou. É o mesmo caráter invejável presenciado em Me Chame Pelo Seu Nome (2017), por exemplo, na cena em que Elio conversa com seu pai, Mr. Perlman, após a partida de Oliver. “Vocês tiveram uma bela amizade. Talvez mais que uma amizade. E eu te invejo. No meu lugar, a maioria dos pais esperaria que tudo desaparecesse, rezando para que seus filhos se recuperassem. Mas eu não sou um pai assim”.

Em aspectos técnicos, o filme se destaca por sua fotografia (Eva Heinsbroek e Lennart Verstegen). Tilanus utiliza brilhantemente as cores como elementos fundamentais da história, trazendo um caráter subjetivo para suas personagens. Na maior parte das cenas, o filho mais velho aparece utilizando tons de azul, transparecendo a melancolia do momento em que se encontra. Lieke, por sua vez, sempre mantém a neutralidade, usando cores que marcam sua personalidade maternal e acolhedora. Em um contexto cinematográfico, o uso eficiente dos aspectos visuais torna a experiência um deleite, e o diretor utiliza disso para provar sua maestria para além do roteiro.
Cruzando o oceano de maneira estrondosa, E Mais Alguém traz à tona a necessidade da abordagem sobre família e as dinâmicas que a circundam para além da superficialidade. Ao analisar os personagens individualmente, e não apenas como elementos de um grupo maior, Vincent Tilanus transmite um olhar inovador e humanizado acerca das formas de cultivar relações afetivas. Ainda que haja diferenças culturais, o diretor consegue afirmar, através de sua arte, que sexualidade, desejo e amor são linguagens amplas e universais.
