Caramelo: o sabor agridoce da vida

A foto mostra Pedro beijando um cachorro fantasiado de tubarão, em um momento de afeto e diversão. O homem, de pele clara, cabelo castanho escuro e barba por fazer, veste uma camisa jeans azul sobre camiseta branca. O cachorro, de porte médio e pelo marrom claro, usa uma fantasia azul com detalhes que imitam dentes de tubarão e parece sorrir. A foto foi tirada em um ambiente interno, com iluminação suave e fundo levemente desfocado, destacando os protagonistas. As cores quentes e os tons de azul e marrom criam uma atmosfera acolhedora e alegre.
Rafa Vitti e Tatá Werneck adotaram um dos cães do filme (Foto: Netflix)

Marcela Jardim

Em Caramelo, o novo filme brasileiro da Netflix dirigido por Diego Freitas, a simplicidade do cotidiano se mistura a temas densos como a saúde, a amizade e a força das conexões afetivas. A trama acompanha Pedro (Rafael Vitti), um jovem chefe de cozinha que vê seus planos futuros desmoronarem ao receber o diagnóstico de câncer. No meio do caos, ele encontra consolo em um companheiro inesperado: um cachorro vira-lata chamado Caramelo. Além dele, o personagem é apoiado por uma rede de amigos que não o deixa enfrentar nada sozinho. O título, de forma sutil e poética, já antecipa o tom doce da obra, mas com uma pitada de amargura, como a própria vida. O sabor que fica é o de uma história que acolhe o espectador enquanto o lembra de que o amor e a dor são inseparáveis.

A amizade entre Pedro e o cachorro é o eixo emocional da narrativa, construída com gestos pequenos e verdadeiros. Caramelo não é apenas um animal de estimação, e sim uma presença constante, quase humana, que entende o silêncio do dono melhor que qualquer palavra. Em vez de explorar o clichê do sofrimento pela morte do cão, como no clássico Marley e Eu (2008), por exemplo, o longa faz o movimento oposto no qual o cachorro vive. Essa escolha é poderosa e desloca o foco do luto para a permanência. Caramelo se torna o símbolo daquilo que resiste, da lealdade que continua quando tudo parece desabar. Sua vitalidade, ao final, é o lembrete de que a esperança pode estar justamente naquilo que sobrevive conosco.

Cena do filme Caramelo. A cena mostra um homem e um cão de pelagem castanha clara interagindo de forma íntima e cotidiana em uma cozinha acolhedora. O homem, jovem, de cabelo castanho escuro e barba por fazer, veste uma regata branca e calças escuras, parecendo concentrado na preparação de algo sobre a bancada. O cão, de porte médio, observa atentamente com as patas apoiadas na superfície, demonstrando curiosidade e expectativa. A iluminação natural e suave, vinda provavelmente de uma janela, realça o ambiente doméstico e os tons terrosos da paleta. A composição equilibrada e o cenário realista transmitem uma atmosfera de cumplicidade e rotina afetuosa entre os dois.
O elenco contou com aproximadamente 60 cachorros para as gravações (Foto: Netflix)

A luta contra o câncer é retratada com delicadeza e honestidade, evitando o tom heroico e as narrativas de superação fácil. O filme entende o adoecer como parte do existir, um processo que transforma e fragiliza, porém, também revela o essencial. Pedro passa a enxergar o tempo de outro modo, e o que antes era rotina se torna privilégio, como acordar, caminhar com o cachorro e cozinhar para os amigos. Essa abordagem humaniza a experiência da doença e convida o espectador a refletir sobre as próprias prioridades. Caramelo fala, no fundo, sobre reaprender a viver quando o futuro parece incerto.

Entretanto, o protagonista não enfrenta essa jornada sozinho. A rede de apoio que se forma em torno dele é o coração pulsante da obra. Amigos, familiares e o próprio Caramelo se tornam escudos contra o medo e a solidão. Há algo profundamente comovente em como o roteiro (Diego Freitas) retrata a amizade masculina sem o peso da competição ou do orgulho, abrangendo afeto, cuidado e vulnerabilidade. O amigo mais otimista de Pedro, Léo (Bruno Vinícius) – personagem que também tem câncer –, é a personificação da esperança, o tipo de companhia que brinca nos momentos errados, faz piadas ruins e, ainda assim, é indispensável. Seu humor, por vezes infantil, é o oxigênio do enredo, lembrando que rir é uma forma de resistência.

Cena do filme Caramelo. A cena retrata um homem sorridente e seu cachorro curtindo uma viagem de carro em um momento de alegria e companheirismo. O homem, jovem, de cabelo castanho escuro e barba por fazer, segura o cachorro no colo enquanto sorri com expressão relaxada. O cão, de pelagem marrom-dourada e coleira vermelha, demonstra entusiasmo com a boca aberta e a língua de fora. A foto, iluminada por luz natural suave que entra pela janela, destaca o vínculo afetuoso entre os dois. Com cores quentes e fundo desfocado, a cena transmite leveza, espontaneidade e a sensação de um momento feliz compartilhado.
Todos os cães do filme foram resgatados das ruas ou de situações de abandono, e depois, adotados por membros da produção (Foto: Netflix)

Essas piadas, muitas vezes carregadas de gírias e referências da internet, revelam o esforço do filme em dialogar com a geração Z, apresentando um espaço levemente vergonhoso. Entre uma conversa sobre tratamento e um meme sobre mindset, o longa encontra leveza no cotidiano moderno. O humor digital, ainda que nem sempre equilibrado, torna o drama mais acessível e menos solene. O riso que surge não anula a dor, apenas a torna suportável. Essa combinação de linguagem contemporânea com emoção clássica é um dos grandes acertos do longa, que consegue falar de temas difíceis sem se distanciar do público jovem.

Apesar do tom leve, há uma camada melancólica que atravessa toda a história. A fotografia (Kauê Zilli) quente e os enquadramentos suaves contrastam com a fragilidade do protagonista, criando uma sensação constante de doçura e perda. A obra entende que a vida é feita de altos e baixos, e traduz isso na própria estrutura narrativa com momentos de puro encanto e outros de dor silenciosa. Caramelo é, como o título sugere, agridoce, o gosto de algo que conforta, mas que também lembra que tudo é passageiro. Essa alternância entre o riso e o choro é o que torna a experiência genuína e não apenas emocionalmente manipulativa.

A fotografia mostra um cachorro caramelo olhando diretamente para a câmera, em meio a um cenário de filmagem. Centralizado e em destaque, o cão aparece apoiado em uma caixa, com vegetais e uma bolsa de lona ao fundo. Uma claquete com o nome “Caramelo” indica que ele faz parte de uma produção cinematográfica. De pelagem marrom-clara e orelhas caídas, o cachorro exibe um olhar curioso e atento. A imagem, bem iluminada e tecnicamente precisa, usa luz natural e fundo desfocado para enfatizar o protagonista, criando uma atmosfera realista e envolvente que mistura doçura e profissionalismo.
O total de 4 cães atuaram como dublês das versões jovem e velha de Amendoim (Foto: Netflix)

As lições que o longa deixa são simples, porém, poderosas. Ele fala sobre aceitar a impermanência e a aprender que o amor é o que nos sustenta mesmo quando o corpo falha. Isso mostra que estar vivo não é vencer o sofrimento, e sim aprender a caminhar com ele. Pedro entende que não há garantias, só presenças, e que as pessoas – ou animais de estimação – que ficam ao nosso lado durante as tempestades são o verdadeiro sentido da vida. Caramelo celebra os laços que nos mantêm de pé, mesmo quando tudo ao redor parece desabar.

No fim, a produção não promete redenção nem milagres. Ele oferece, em vez disso, um abraço. É sobre a beleza de permanecer, de seguir e de não desistir mesmo quando o final é incerto. A vida, como o caramelo, é doce e amarga e, talvez, seja justamente isso que a torna inesquecível. Caramelo emociona, não por buscar lágrimas fáceis, mas por lembrar o público de que viver é, acima de tudo, aprender a se deixar afetar e reconhecer que, entre risadas, diagnósticos e lambidas, ainda há espaço para a ternura.

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