Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar

Cena do filme Criadas. Duas crianças estão deitadas lado a lado, uma usando camiseta azul e a outra rosa- escuro (Sandra e Mariana, da esquerda para direita). A primeira é negra de pele retinta e a outra, também tem a pele negra, mas de um tom mais claro. A primeira tem o cabelo castanho trançado e a outra cabelo crespo ornamentado com fivelas coloridas. Uma mão adulta repousa sobre a cabeça de uma delas.
Criadas explora uma relação que carrega feridas e conflitos surgidos na infância e originários de uma herança histórica (Foto: Vitrine Filmes)

Mariana Bezerra 

E quando a empregada ‘da família’ é, de fato, uma parente? Criadas faz parte da programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Mostra Brasil. O filme mergulha em uma história familiar para explorar as feridas – ainda abertas – do Brasil em relação ao racismo e à escravidão. O longa foi eleito pelo público como Melhor Filme Brasileiro de Ficção na premiação do festival. Não é à toa, uma vez que a história das primas Sandra (Vitória Rodrigues, na versão infantil) e Mariana (Alice Feitosa, na versão infantil) e suas famílias atravessa temas tão caros ao país. Elas cresceram juntas, mas não em uma típica relação: a mãe de Sandra era empregada da casa da irmã e, após anos, essa menina, agora uma adulta, retorna para São Paulo para assumir um emprego e buscar informações sobre a mãe desaparecida.

Antes mesmo de roteiro e atuações entrarem em cena, a obra de Carol Rodrigues já se destaca pelo uso de símbolos, sendo o mais marcante deles o quadro A redenção de Cam (1895), de Modesto Brocos, em que há um bebê e um homem branco, uma senhora de pele retinta e uma mulher mais nova e também negra, mas de tom mais claro. A tela apresenta uma família ‘embranquecida’ por uma política eugenista de embranquecimento da população, além de uma avó que ergue as mãos ao céu em agradecimento. A figura serve como ilustração para a relação de Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) e Sandra (Mawusi Tulani), sendo a primeira uma mulher negra de pele mais clara, que cresceu em uma realidade privilegiada, enquanto a segunda, de pele retinta, viveu em uma condição de servidão à prima. Nessa exposição detalhista e orquestrada, a fotografia, assinada por Julia Zakia, cumpre o seu papel com primor.

Desde o início, a relação das duas mulheres – muito bem exposta pelas performances incríveis das protagonistas – parece conturbada, permeada pelos fantasmas da infância. Nesse caso, ‘fantasmas de carne e osso’, como a mãe de Sandra os chamava. Essas lendas infantis ganham vida na trama, como se os traumas nunca tivessem sido superados. As vozes e as figuras das meninas enquanto crianças ecoam pela casa, resgatando memórias, como a do chamado de Mariana pela prima, enquanto a personagem de Tulani tentava estudar ou desempenhar outra atividade que não fosse servir àquela família. Esse cenário chama a atenção para a repetição dessa realidade, quase como num círculo vicioso: sempre que Sandra está feliz, tem uma boa notícia sobre o emprego ou mesmo está ocupada em seu projeto, Mariana tem alguma demanda a ser sanada. Esse contexto parte de um roteiro carregado de sentimento e, também, ironias e complexidade, o qual parece se arriscar sem medo em explorar contradições múltiplas.

Cena do filme Criadas. Mariana, uma mulher negra, de cabelos castanhos e crespos e presos, está sentada, olhando atentamente para alguém que não aparece na imagem. Ela usa uma blusa marrom com babados nas mangas e tem expressão séria. Ao fundo, aparecem plantas verdes desfocadas.
Ana Flávia Cavalcanti entrega uma performance brilhante como Mariana em Criadas (Foto: Vitrine Filmes)

No que diz respeito às temáticas abordadas no filme, é interessante que o realismo fantástico tenha sido inserido no texto. Primeiramente, a cineasta abre espaço para que racismo e colorismo sejam vistos a partir dos olhares e através do sentimento das personagens. Por outro lado, esse resgate de memórias e a convivência com os tais fantasmas criam uma metáfora que aponta para algo amplo: mais do que aludir a vivências pessoais, Criadas coloca em cena os fantasmas da escravidão e a ancestralidade marcada por questões políticas e sociais, cujas consequências reverberam até hoje na sociedade brasileira, como a grande problemática da empregada doméstica – na grande maioria das vezes negra – que é considerada ‘da família’. Aqui, o texto de Carol Rodrigues se vale dessas questões para expor o enraizamento do racismo e as dificuldades de falar sobre ele também em famílias negras. 

Em seu primeiro longa, Rodrigues trabalha muito bem com a ambientação, uma vez que a casa serve de espaço para o retorno e afloramento dessas lembranças. Além disso, a imagem é bem construída através da iluminação e do som, que acompanha os tons melancólicos e de suspense do roteiro. Nos momentos em que o enredo se afasta desses aspectos e aborda a sensualidade das personagens ou introduz  cenas carregadas de outros tipos de tensão, os efeitos sonoros e a trilha sonora conseguem acompanhar essas flutuações de maneira harmônica.

Cena do filme Criadas. Sandra, uma mulher de pele negra e cabelos crespos presos, sorri com alegria olhando para velas acesas em cima de um bolo, que não aparece na imagem. Ela veste uma blusa azul-clara. No fundo, há uma decoração composta por pratos de porcelana na parede.
Em uma de suas visões, Sandra se imagina recebendo atenção e protagonismo em seu lar pela primeira vez (Foto: Vitrine Filmes)

Os elementos do longa trabalham juntos para construir esse ar fantasmagórico e o suspense que ele exige. Apesar de instigante no início, em alguns momentos, os períodos de tensão se estendem demais e perdem o ponto de clímax. Ainda sobre a materialização dessas imagens de Sandra e Mariana enquanto crianças, não fica claro o que elas são, de fato, e isso não é, de forma alguma, um problema para o roteiro. Mas quando os fantasmas começam a agir de forma muito concreta, interferindo diretamente na realidade, a fantasia se torna uma questão. Isso acontece quando a pequena Sandra esconde o conjunto de facas de Mariana, que é chef de cozinha, e prejudica a sua vida profissional. Aqui, cria-se uma situação confusa, uma vez que essa ação não faz sentido algum diante do que se conhece da personagem de Tulani, que é tão delicadamente construída ao longo da narrativa.

Apesar desse quebra-cabeça, a aposta em ir além do literal caiu muito bem na trama e complementou o drama das personagens tão intimamente construídas – individual e coletivamente. Assim, Criadas consegue mergulhar no âmago de duas histórias marcadas por dilemas familiares e raciais e que se unem conflituosamente, mas que são permeadas de otimismo, pela ideia de que o futuro pode ser diferente. Dessa forma, também há esperança de que a casa que outrora carregou ares de ‘casa grande e senzala’ possa ser destruída e, quem sabe, refeita em um lar que possa romper com as imposições feitas pela discriminação que se instalou – em um movimento de dentro para fora – nessa família.

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