
Stephanie Cardoso
Se você esteve online nos últimos meses, com certeza já ouviu alguma música do EP Beautiful Chaos. Com letras viciantes e batidas barulhentas, as canções do projeto vem tomando conta das redes sociais e conquistando cada vez mais espaço no cenário musical. Mostrando que o KATSEYE não quer apenas pertencer ao pop global — quer moldá-lo.
Essa ambição fica ainda mais evidente no seu segundo projeto. A aposta multicultural do HYBE e da Geffen Records evidencia que o grupo formado no reality The Debut: Dream Academy está pronto para ir além das expectativas. Com cinco faixas e performances envolventes, a produção confirma que as seis garotas deixaram de ser uma promessa para se firmar como uma realidade em construção — marcada por identidade, ousadia e, acima de tudo, intenção artística.

Se SIS (Soft Is Strong), o primeiro EP lançado em 2024, funcionou como uma introdução elegante às seis integrantes (Yoonchae, Sophia, Manon, Daniela, Lara e Megan), também nos deixou ansiosos pelo que viria a seguir. Antes mesmo da chegada do novo projeto, o KATSEYE já havia dado sinais de sua força com o sucesso de Touch. Enquanto no trabalho de estreia, elas apostaram em segurança com músicas bem produzidas, em Beautiful Chaos a mudança é extremamente perceptível. Aqui, cada música soa como um experimento bem calibrado. As batidas energéticas e letras chicletes dessas canções irão grudar na sua mente — se já não grudaram.
A abertura com Gnarly é barulhenta e cheia de distorção, sendo quase um grito de independência. A produção distorcida, os vocais fragmentados e a estética agressiva rompem completamente com a sonoridade limpa do trabalho antecessor. Longe da fórmula do pop polido, ela apresenta um sexteto que se permite ser desconfortável, enérgico e barulhento — e que, por isso mesmo, conquistou não só atenção nas redes, mas também um lugar na Billboard Hot 100. O caos, aqui, é estética e mensagem.
O EP continua com Gabriela — composição de Charli XCX —, na qual Daniela canta versos em espanhol em uma música de pop latino com produção suave e refrão memorável. Em vez de apenas cumprir uma cota cultural, ela se apoia na autenticidade da integrante e entrega um momento que amplia as possibilidades do grupo. Com direito a um videoclipe que parece que saiu diretamente de um capítulo de novela mexicana e com a participação da atriz Jessica Alba, a canção tem o frescor do verão e o carisma necessário para se tornar um hit duradouro. Em seguida, Gameboy conta com um clipe simples e divertido, desacelerando o ritmo e abraçando uma batida mais minimalista — que nos faz lembrar de Touch, porém com um tom mais maduro e condizente com o projeto.
“Deus abençoe as meninas trans e todas as meninas não-binárias/Meninas, meninas, meninas, meninas/E, sim, Deus abençoe até as meninas malvadas” — Mean Girls.
A quarta faixa, Mean Girls entrega um dos melhores refrões do EP, trazendo uma sonoridade divertida e melancólica ao mesmo tempo. Ela também apresenta um dos versos mais comentados do trabalho, que celebra a inclusão de garotas trans e pessoas não-binárias. A linha não é apenas simbólica — ela carrega uma história de bastidores relevante: a música, escrita por Justin Tranter, foi inicialmente oferecida a grandes outros artistas, que pediram para que esse trecho fosse removido. Tranter recusou, e a faixa acabou sendo abraçada pelo KATSEYE, que manteve a letra original, transformando-a em um gesto claro de posicionamento e respeito à diversidade. É interessante ver um grupo tão novo — e principalmente por conta das suas raízes no Kpop — não ter medo de se posicionar e cantar sobre o que acreditam, especialmente nos dias de hoje.
O encerramento com M.I.A., que mistura camadas de vocais e batidas eletrônicas, é um ponto final vibrante, deixando a sensação de que o caos anunciado no título é, na verdade, um plano cuidadosamente orquestrado. Se SIS era um quebra-cabeça ainda por montar, Beautiful Chaos é uma imagem que começa a ganhar nitidez. O som é mais coeso, as composições mais afiadas, e a produção mais ousada. Cada música contribui para a construção de um universo sonoro que mistura delicadeza e tensão, e que reflete os conflitos internos de uma geração que vive entre o online e o real, entre o pertencimento e a performance.

A direção visual também acompanha essa evolução. A capa do EP, com tons mais fortes e com uma estética mais madura, reforça o conceito de identidade em fluxo. As performances do sexteto, como visto nos palcos do Nickelodeon Kids’ Choice Awards e em vídeos promocionais, combinam técnica e expressão, reafirmando o potencial da formação musical como força artística e comercial.
Com Beautiful Chaos, as meninas mostram que entendem o momento cultural em que vivem — e que estão dispostas a expressá-lo. Ao abraçar o conflito, elas se distanciam do pop genérico e se aproximam de uma arte mais autêntica e relevante. É raro ver um segundo projeto de um grupo tão jovem soar tão consciente de sua proposta. KATSEYE ainda está se formando, sim, mas já é, sem dúvidas, uma das estreias mais promissoras dos últimos anos. Se o caos for esse, que continue.
