A 4ª temporada de The Bear pergunta quem somos quando paramos de cozinhar no automático

Foto de Carmy, da série The Bear, em um ambiente urbano. Ele é um homem branco com cabelo escuro e bagunçado, vestindo uma camiseta branca e um avental azul. Ele está ao ar livre, em uma rua com prédios altos ao fundo, e segura uma pequena xícara ou tigela preta. Carmy olha para o lado com uma expressão pensativa.
The Bear é o resultado de caos e relações familiares que queimam igual as chamas do fogão (Foto: FX Studios)

Arthur Caires

Se nas duas primeiras temporadas The Bear foi apresentada ao público como a série que deixava a gente em apneia, vivendo cada grito de “ATRÁS” como se estivesse dentro da cozinha, agora o prato servido é outro. O que começou como uma dramédia caótica, com planos-sequência sufocantes e diálogos atropelados, virou, ao longo dos anos, um fenômeno crítico que transcende a culinária. A produção deixou de ser só sobre um restaurante em crise para se tornar um retrato íntimo sobre saúde mental, sobre o peso e a cura que vêm da família, e sobre o que significa continuar vivendo quando tudo ao redor parece desmoronar.

O arco de O Urso (tradução oficial), disponível no Disney+, parece seguir um manual não oficial das fases do luto: se o primeiro e segundo ano eram pura negação e raiva, o terceiro e o quarto mergulham na barganha e na depressão. Mas não no sentido pesado de paralisar: aqui, a série abre respiros, deixa espaço para piadas inesperadas, pequenos gestos de ternura e episódios que se dedicam a um personagem de cada vez. Essas histórias paralelas parecem quase independentes, porém sempre retornam ao todo maior, numa costura tão sutil que não soa planejada demais. O caminho, claramente, é de preparação para a aceitação, um destino que deve se consolidar na quinta, e provavelmente última, temporada.

Em uma cena da série The Bear, os personagens Carmy (à esquerda) e Richie (à direita) estão em uma cozinha profissional. Carmy, vestindo seu dólmã de chef branco, está concentrado em um prato pequeno à sua frente, segurando um talher. Ao seu lado, Richie, de terno escuro, está inclinado sobre o balcão, escrevendo em um papel. Ambos parecem focados e sérios. Ao fundo, um relógio digital vermelho na parede marca "5:47".
Entre o caos da cozinha e a vulnerabilidade da vida, Carmy encontra espaço para mudar (Foto: FX Studios)

Nesta continuação da narrativa, Carmy (Jeremy Allen White) está em transição, tentando mudar porém tropeçando no próprio silêncio – conversar com ele é quase como bater papo com o homem hétero médio que não sabe articular um sentimento, e tanto Sydney (Ayo Edebiri) quanto Claire (Molly Gordon) acabam virando tradutoras dessa linguagem truncada. Sua decisão de sair do restaurante, no fim, funciona menos como derrota e mais como gesto de saúde mental: abrir mão do projeto que nasceu de um luto congelado e que o impedia de viver de verdade.

Nesse processo, o reencontro com Donna, sua mãe, interpretada por Jamie Lee Curtis, é fundamental. Entre pedidos de desculpa e memórias dolorosas, o episódio nove, Tonnato, coloca mãe e filho frente a frente em um dos raros momentos de vulnerabilidade explícita da série – e talvez o mais próximo que Carmy já chegou de uma reconciliação consigo mesmo.

Qualquer episódio em que o foco é a personagem de Ayo Edebiri se torna um destaque (Foto: FX Studios)

Quem realmente ocupa o centro dessa temporada é Sydney, interpretada brilhantemente, como sempre, por Ayo Edebiri. Quando ela vai trançar o cabelo com a tia e acaba se aproximando da prima adolescente, a cena traduz seu dilema da melhor forma: a metáfora de uma festa do pijama funciona como comparação entre pertencer à família Berzatto ou buscar outro caminho próprio ao lado de Shapiro (Adam Shapiro). Carmy, ao admitir que o menu fixo era uma forma de egoísmo, finalmente reconhece o valor de Syd não só como braço direito, mas como mente criativa essencial. 

No desfecho, ele passa o bastão, deixando claro que ela é o coração e o cérebro do restaurante. E, felizmente, essa relação nunca descambou para o romance – ao contrário do que Star Wars fez com Rey e Kylo Ren, os showrunners Christopher Storer e Joanna Calo souberam manter o potencial da troca profissional e intergeracional, uma dinâmica de mestre e aprendiz que, ao longo do tempo que se conhecem, se inverte e se enriquece constantemente.

Em uma cena da série The Bear, Carmy (à esquerda) e Sydney (à direita) estão em primeiro plano, ambos sorrindo e batendo palmas. Carmy usa uma camiseta branca e um avental azul. Sydney usa uma bandana laranja, camiseta branca e um avental azul combinando. Ao fundo, outros membros da equipe da cozinha também estão sorrindo e aplaudindo, criando uma atmosfera de celebração e sucesso compartilhado.
Carmy e Sydney mostram que a melhor parceria é aquela onde há respeito mútuo (Foto: FX Studios)

Por mais que a eterna discussão sobre rotular The Bear como Comédia seja meio desgastada – convenhamos, a série é muito mais eficiente no drama –, não dá para ignorar o quanto o humor funciona como válvula de escape. As piadas nunca estão na superfície, mas no timing e na secura com que os personagens interagem: a implicância fraternal entre Syd e Richie (Ebon Moss-Bachrach), as trocas afiadas de Natalie (Abby Elliott) com Francie (Brie Larson roubando a cena com apenas alguns minutos de tela), ou o humor involuntário do sempre caricato Computador (Brian Koppelman). São intervalos que aliviam a pressão sem quebrar a densidade; porque até em meio ao caos existe espaço para rir.

Esse tom leve também aparece nas participações especiais, que desde o ano anterior ganharam um caráter quase de evento. O desfile de estrelas – Olivia Colman, John Cena, Sarah Paulson e Will Poulter – poderia facilmente soar como fan service gratuito, mas esses nomes entram em papéis pequenos e precisos, que acrescentam textura sem tirar o foco principal.

Em uma cena da série The Bear, um grupo de personagens está reunido debaixo de uma mesa. Da esquerda para a direita: a personagem Claire, com um vestido vermelho, está sentada e segura uma taça de vinho. Atrás dela, Carmy, vestindo um terno, inclina-se com uma expressão preocupada. No centro, sentado no chão, está Richie, de terno escuro, conversando com intensidade. Ao seu lado direito está Frank, de terno claro, e na extrema direita, a menina Eva, que segura um ursinho de pelúcia, sentada no chão e interagindo com os outros.
O que faz The Bear funcionar não é só a cozinha, mas a forma como cada personagem aprende a lidar com seus medos (Foto: FX Studios)

O gran finale da quarta temporada é um daqueles momentos que fazem valer todo o percurso: Carmy finalmente admite que a cozinha sempre foi um escudo contra a dor, e que agora precisa descobrir quem é fora dela. A conversa dele com Richie, diante de Sydney, é o ponto mais poderoso da série até aqui – dois homens emocionalmente travados tentando, com todas as falhas e pausas, articular o que sentem. 

A atuação de Jeremy Allen White e Ebon Moss-Bachrach chega ao ápice, transformando silêncios em declarações. O abraço de Natalie, em lágrimas, sela essa despedida como síntese deste ciclo: aceitação, enfim. É a felicidade genuína de ver que ele finalmente está mudando seus hábitos destrutivos – um gesto que ecoa desde o segundo episódio, Soubise, quando lhe disse que não havia problema se ele tivesse perdido a paixão pela culinária.

Mais do que uma série de cozinha ou um drama sobre luto, The Bear sempre foi, e continua sendo, uma história sobre família no sentido mais amplo: biológica, escolhida e profissional, entrelaçadas em laços de amor, rancor e cuidado. Seja em momentos intimistas como a conversa debaixo da mesa no casamento de Tiff (Gillian Jacobs) – um dos melhores fragmentos de todas as temporadas – ou nas decisões mais pesadas de Carmy, a produção mostra que o que importa não é só para onde vai o restaurante, mas sim: “Quem somos quando paramos de cozinhar no automático?”

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