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	<title>Arquivos Semana de 22 &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>De 1922 para 2022: o que é ser Moderno no Brasil?</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Feb 2022 23:34:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A Semana de Arte Moderna terminou ontem, mas as perguntas que o movimento cultural brasileiro deixou são para mais de 100 anos Raquel Dutra 18 de fevereiro de 1922. As cortinas do salão de concertos já se fecharam, as luzes do saguão de exposições já se apagaram, e as portas do Theatro Municipal de São &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/1922-2022-o-que-e-ser-moderno-no-brasil-artigo/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "De 1922 para 2022: o que é ser Moderno no Brasil?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">A Semana de Arte Moderna terminou ontem, mas as perguntas que o movimento cultural brasileiro deixou são para mais de 100 anos</span></i></p>
<figure id="attachment_26141" aria-describedby="caption-attachment-26141" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-26141 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/capa-tarsila-operarios.jpg" alt="Pintura &quot;Operários&quot; de Tarsila do Amaral. A imagem é composta por vários rostos de pessoas das mais diversas feições e tons de pele. Elas se organizam na diagonal da imagem, de forma crescente, da esquerda para direita, uma em cima da outra. Ao fundo, existe o desenho de uma indústria e o céu é azul." width="1280" height="926" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/capa-tarsila-operarios.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/capa-tarsila-operarios-800x579.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/capa-tarsila-operarios-1024x741.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/capa-tarsila-operarios-768x556.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/capa-tarsila-operarios-1200x868.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26141" class="wp-caption-text">“Que esperem o centenário. Se no ano de 2022 ainda se lembrarem disso, então sim.”, respondeu Manuel Bandeira quando questionado sobre a necessidade de relembrar a Semana de Arte Moderna em 1952 (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">18 de fevereiro de 1922. As cortinas do salão de concertos já se fecharam, as luzes do saguão de exposições já se apagaram, e as portas do Theatro Municipal de São Paulo já se trancaram. Lá fora, pelas ruas da cidade, corre uma promessa de novos ares, criada pelos artistas que estiveram reunidos durante os últimos cinco dias no centro cultural mais tradicional da capital paulista. A ideia é transformar a Arte nacional através do que existe no nosso próprio país, buscando, assim, uma expressão artística 100% brasileira. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Genial e revolucionário!</span></i><span style="font-weight: 400;">” exclama quem cruza com essa energia pelo caminho, porque ali, alguém testemunhou o início do modernismo no Brasil. É o primeiro dia pós-Semana de Arte Moderna, e sua força tem o potencial de influenciar todo o resto do país a procurar pelas suas raízes e colocá-las para fora, sem depender nunca mais de referências externas. Pelo menos, </span><a href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252012000200022#:~:text=O%20ano%20de%202012%20marca,cria%C3%A7%C3%A3o%20de%20uma%20identidade%20brasileira."><span style="font-weight: 400;">é o que eles dizem</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-26140"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas no decorrer dos 100 anos que sucederam o momento em que a chamada primeira geração modernista se reuniu para repensar a Arte brasileira, os eventos daquela semana se mostraram cada vez mais complexos. Desde excluir colaborações precursoras fora do centro artístico de São Paulo até a inconsistência do idealismo de seus próprios realizadores e os caminhos duvidosos das reivindicações, a Semana de 1922 é objeto de uma disputa narrativa que, talvez na única de suas intenções integralmente contemplada, acompanha </span><a href="http://www.usp.br/aun/antigo/exibir?id=4442&amp;ed=765&amp;f=3"><span style="font-weight: 400;">a História do Brasil no último século</span></a><span style="font-weight: 400;">. O assunto do fim daquele primeiro dia em que a Arte brasileira assumia um compromisso definitivo com o contexto histórico-social-cultural do país se estenderia pelo próximo centenário, a fim de refletir sobre as origens e efeitos do movimento, e o que ele diz sobre a identidade brasileira. E como pediu Manuel Bandeira, estamos em 18 de fevereiro de 2022.</span></p>
<figure id="attachment_26142" aria-describedby="caption-attachment-26142" style="width: 900px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-26142 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-2.jpg" alt="Fotografia em preto e branco de um grupo de homens em evento da Semana de Arte Moderna. Eles estão em um tapete escuro, ao centro da imagem, e parte deles se organizam numa escada no fundo da imagem. Na frente da escada, existem três cadeiras onde estão sentados mais três homens, e na frente, está um deles sentado no tapete do chão. Todos eles vestem ternos." width="900" height="700" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-2.jpg 900w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-2-800x622.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-2-768x597.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26142" class="wp-caption-text">Para estudiosos como o jornalista Ruy Castro, o verdadeiro modernismo brasileiro acontecia fora de São Paulo, em cidades como o Rio de Janeiro, cujo desenvolvimento artístico e cultural já era mais avançado em 1922 (Foto: Arquivo Brasil)</figcaption></figure>
<p><em><b>Era uma vez<br />
</b></em><em><b>O mundo</b></em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hoje, ao olhar para trás, o principal aspecto de 1922 é identificável no país desde o final do século XIX. Curiosamente contradizendo a premissa central do movimento, foi por influência internacional que a cultura brasileira começou a se modernizar, através do desenvolvimento das tecnologias de comunicação e da expansão e reivindicação do Rádio, do Cinema, da TV e da Música no Brasil do início dos </span><a href="https://minutocultural.com.br/brasil-1900-a-1910/"><span style="font-weight: 400;">anos 1900</span></a><span style="font-weight: 400;">. Preenchendo estes meios, existiam artistas e comunicadores que já refletiam sobre a identidade brasileira em um cenário de efervescência cultural nos primeiros anos do século XX. A atuação dos nomes ligados a essa modernidade originária, no entanto, era de e para as classes populares, expressões que não estavam presentes no horizonte visionário da <a href="https://super.abril.com.br/cultura/moderna-conheca-a-elite-conservadora-por-tras-da-semana-de-arte-de-22/">alta sociedade</a> artística paulista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A condição era a mesma no contexto da expressão mais presente na Semana de Arte Moderna. Enquanto </span><a href="https://personaunesp.com.br/manuel-bandeira-os-sapos-literatura-modernista-artigo/"><span style="font-weight: 400;">a Literatura de 1922</span></a><span style="font-weight: 400;"> buscava suceder o academicismo do Parnasianismo em críticas pungentes aos padrões literários do movimento, os nomes de precursores como </span><a href="https://revistas.ufrj.br/index.php/tm/article/view/11187"><span style="font-weight: 400;">Lima Barreto</span></a><span style="font-weight: 400;"> não estavam assinando as palavras proclamadas no Theatro Municipal. O autor carioca veio a falecer em novembro daquele ano, depois de ser totalmente excluído de uma importante atuação que poderia ter acontecido junto da primeira geração modernista, especialmente enquanto autor negro pioneiro nas linguagens e expressões propagadas no evento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os sons que ecoavam entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922 também poderiam ter ido além, de forma ainda mais radical do que inovação da </span><a href="https://personaunesp.com.br/heitor-villa-lobos-e-a-musica-modernista-artigo/"><span style="font-weight: 400;">Música Modernista</span></a><span style="font-weight: 400;">, compreendendo a revolução que o samba fazia na região sudeste do país naquele momento. Mas não, </span><a href="https://revistacontinente.com.br/edicoes/120/noel-rosa--um-seculo-para-o-filosofo-do-samba"><span style="font-weight: 400;">Noel Rosa</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sua música popular em expansão, mesmo já vista como um potente aspecto de definição da identidade nacional, próximo do centro artístico de São Paulo e protagonizando um movimento 100% brasileiro que rejeitava influências internacionais, não teve um horário para chamar de seu no palco do Theatro, entre as belíssimas apresentações de Villa-Lobos e <a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/">Guiomar Novaes</a>. </span></p>
<figure id="attachment_26143" aria-describedby="caption-attachment-26143" style="width: 564px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-26143 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Arte-moderna-8.jpg" alt="Convite para evento da Semana de Arte Moderna de 1922. Ele noticia uma apresentação de Villa-Lobos, no dia 17 de fevereiro de 1922. O formato é quadrado e a fonte é simples, clássica da época." width="564" height="633" /><figcaption id="caption-attachment-26143" class="wp-caption-text">Foi um surto: depois de 17 de fevereiro de 1922, a Semana de Arte Moderna repercutiu pouco para além das bolhas de São Paulo, no entanto, o evento foi de importante influência para o resto do país nos anos seguintes, visto as gerações modernistas subsequentes (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O “heroísmo paulista” que comprometeu o alcance e representação da Semana se relaciona com o </span><a href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252012000200022#:~:text=O%20ano%20de%202012%20marca,cria%C3%A7%C3%A3o%20de%20uma%20identidade%20brasileira."><span style="font-weight: 400;">mito do modernismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Brasil. Também iniciada alguns anos antes de 1922 mas tão difícil de definir quanto a origem do movimento, estudos sobre o tema apontam a probabilidade de que as ideias desenvolvidas no evento tenham surgido, primeiramente, de Mário de Andrade. Alguns anos antes de integrar a organização da Semana de Arte Moderna, o escritor, musicólogo, fotógrafo, crítico e historiador já fantasiava protagonizar o início de um movimento artístico disruptivo no país. É possível identificar as tendências modernistas de </span><a href="https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/BUOS-9PBHZG"><span style="font-weight: 400;">Mário de Andrade</span></a><span style="font-weight: 400;"> desde 1919, na época em seus vinte e poucos anos e trabalhando em seus primeiros livros sobre arte colonial, que iam em direção a uma busca pela identidade nacional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A ideia ganha força especial em 1922 quando junto do centenário que era comemorado 100 anos atrás: </span><a href="https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/CentenarioIndependencia#:~:text=Centen%C3%A1rio%20da%20Independ%C3%AAncia%20%7C%20CPDOC&amp;text=Em%20s%C3%ADntese%3A%201922%20foi%20um,pompa%20o%20Centen%C3%A1rio%20da%20Independ%C3%AAncia."><span style="font-weight: 400;">a independência do Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;"> em relação a Portugal. As festividades, no entanto, tinham um retrogosto incômodo para os grupos culturais: a Arte e a Cultura brasileiras ainda tinham &#8220;cara de Europa&#8221; mesmo 100 anos depois de 1822 &#8211; nos centros de classe mais alta, já que as camadas populares buscavam romper com os padrões internacionais desde o início dos anos 1900. Junto ao contexto mundial pós-Primeira Guerra, a sensação daqueles artistas, em constante contato com os ambientes internacionais, era a de que o Brasil estava atrasado. O momento era de profunda reflexão sobre o passado, presente e futuro do país, e assim a Arte procurou vivê-lo.</span></p>
<figure id="attachment_26144" aria-describedby="caption-attachment-26144" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26144 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-5.jpg" alt="Pintura de Anita Malfatti &quot;Paisagem de Ouro Preto&quot;." width="1200" height="961" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-5.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-5-800x641.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-5-1024x820.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-5-768x615.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26144" class="wp-caption-text">Outra parte importante para a consolidação do mito modernista veio do Grupo Clima, formado, principalmente, por Antonio Candido e Lourival Gomes Machado, que discutia a Cultura com um viés crítico sociológico e interpretou a Semana como marco fundador do Modernismo no Brasil, definindo a narrativa que comumente conhecemos hoje (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi então que Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, a cúpula modernista responsável pela Semana, embarcaram num contraditório projeto de “</span><a href="http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/3338"><span style="font-weight: 400;">redescoberta do Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">” em 1924, junto do poeta francês Blaise Cendrars. Inicialmente de tom irônico planejado por Oswald, a nova empreitada dos paulistas procurava se aprofundar na questão da identidade nacional &#8211; isto é, a cultura indígena e a afro-brasileira. De lá, o trio &#8211; que virava o <a href="https://www.facebook.com/CasaMariodeAndrade/videos/o-grupo-dos-cinco/921278148345422/">Grupo dos Cinco</a> quando junto de Anita Malfatti e Menotti Del Picchia &#8211; retornou com suas novas perspectivas, convertidas numa arte mais antropológica e etnográfica, longe de ser verdadeiramente representativa. O principal, no entanto, era a diferença entre os caminhos que cada um deles tomaria nos anos seguintes ao perseguir a raiz do modernismo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De volta à São Paulo, a inconsistência dos modernistas foi evidenciada: Anita Malfatti não estava mais no país, enquanto Tarsila do Amaral, Oswald e Mário de Andrade assumiram uma postura primitivista nas artes brasileiras, através do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tWJCbUL_vak"><span style="font-weight: 400;">Movimento Pau-Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a famosa </span><a href="https://laart.art.br/blog/o-que-e-antropofagia/"><span style="font-weight: 400;">Antropofagia</span></a><span style="font-weight: 400;">, num rumo que dali alguns anos os levariam até o Partido Comunista Brasileiro. Do outro lado, Menotti Del Picchia se atraía pelo fascismo, empenhado no Movimento Verde-Amarelo &#8211; </span><em><a href="https://brasil123.com.br/bolsonaro-retoma-verde-amarelismo-nacionalismo-puro-e-tendencia-nazifascista/"><span style="font-weight: 400;">soa familiar?</span></a></em><span style="font-weight: 400;"> &#8211; junto da </span><a href="https://modernismoepaminondas.blogspot.com/p/movimento-anta-e.html"><span style="font-weight: 400;">Escola da Anta</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Plínio Salgado, o fundador do </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-58205709"><span style="font-weight: 400;">integralismo brasileiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> e principal nome da extrema-direita no país na época.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Era uma ebulição político-econômica-social que imperava no Brasil de 100 anos atrás. Por todos os lados e em todas as narrativas, a famigerada identidade nacional era perseguida e a promissora Arte Moderna era usada: nos anos 30, com foco para a Revolução Constitucionalista, o evento servia para construir a imagem de São Paulo como o motor do país; em 1945, no Estado Novo, a política era baseada na busca pela </span><a href="http://ppghis.com/outrasfronteiras/index.php/outrasfronteiras/article/view/172"><span style="font-weight: 400;">“brasilidade”</span></a><span style="font-weight: 400;">; já entre 1950 e 1960, o </span><a href="http://memorialdademocracia.com.br/card/nacional-desenvolvimentismo"><span style="font-weight: 400;">nacional-desenvolvimentismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> invocava o imaginário popular para o Brasil como o país do futuro; e nos anos 70, a Ditadura fez as vezes, retrabalhando a cultura para o seu interesse e desaguando no infame “</span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2014-03/brasil-ame-o-ou-deixe-o-regime-divide-sociedade-com-exilios-e-cassacoes"><i><span style="font-weight: 400;">Brasil: ame-o ou deixe-o</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<figure id="attachment_26145" aria-describedby="caption-attachment-26145" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26145 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-55.jpg" alt="Fotografia em preto e branco de Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Mário de Andrade em viagem. Eles estão todos de pé, na frente de um descampado." width="1200" height="776" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-55.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-55-800x517.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-55-1024x662.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/semana-de-arte-moderna-1922-55-768x497.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26145" class="wp-caption-text">A própria primeira geração modernista realizou autocríticas nos anos seguintes à Semana de 22, tanto no que tange à Arte em si, como no significado do movimento; na foto: Olívia Guedes Penteado, Blaise Cendrars, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e seu pai, José Oswald Nogueira de Andrade (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><em><b>Nenhum Brasil existe</b></em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais complexo que seja, esse contexto não pede muito de nós, </span><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/o-que-semana-de-22-pode-ensinar-para-o-brasil-de-2022-teste-conhecimentos-com-quiz-1.3191568"><span style="font-weight: 400;">em 2022</span></a><span style="font-weight: 400;">, para compreender o porquê de ter ideais nacionalistas como inspiração de classes dominantes inflamadas poderia resultar em eventos ainda mais complexos. Em 1942, então, o próprio Mário de Andrade já compreendia a autocrítica necessária para os modernistas de 1922, realizando-as na conferência em comemoração aos 20 anos da Semana, onde o autor leu o artigo </span><a href="https://digital.bbm.usp.br/view/?45000003239&amp;bbm/7730#page/6/mode/2up"><i><span style="font-weight: 400;">O Movimento Modernista</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;"> </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, quando </span><a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo12178/modernismo-segunda-geracao"><span style="font-weight: 400;">a próxima geração</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Modernismo brasileiro surgiu, a confusão não era mais a mesma. A Política seguia as ondas da Semana de 22, mas a Arte respirava para além do estado de São Paulo. Com a liberdade de deixar-se influenciar mais pelo que o movimento significou nos outros países, a presença de artistas como Carlos Drummond de Andrade chegou ainda questionando os padrões vigentes, mas sem a energia combativa de seus antecessores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A identidade nacional? Jamais se desvinculou do que existiu sob o título de modernista e brasileiro. Logo em seu segundo livro de poesias (</span><i><span style="font-weight: 400;">Brejo das Almas</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1934), o</span> <a href="http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/3149"><i><span style="font-weight: 400;">poeta de sete faces</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> adota a perturbação de seus contemporâneos ao mesmo tempo em que vai na direção oposta à de seus antecessores. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Hino Nacional</span></i><span style="font-weight: 400;">, o modernista reconhece o tamanho de suas palavras e o tamanho da questão que sua geração artística encarava:</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.<br />
</span><span style="font-weight: 400;">O Brasil não nos quer! Está farto de nós!<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, quando a terceira geração chegou em 1945, parecia que </span><a href="https://realizeeducacao.com.br/wiki/terceira-geracao-modernista-e-literatura-contemporanea/"><span style="font-weight: 400;">o verdadeiro Modernismo brasileiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> havia sido finalmente encontrado. Entre Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Lygia Fagundes Telles e Ariano Suassuna, o artista brasileiro sentia-se livre da obsessão pela </span><a href="https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/123650/ISBN9788579835155.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y"><span style="font-weight: 400;">inalcançável identidade nacional uniforme</span></a><span style="font-weight: 400;"> e homogênea. Com um espaço cada vez maior para as individualidades que formam um país como o nosso, o movimento alcançava dimensões mais amplas das contempladas em 1922. A Arte era representante de si mesma, e em cada uma dessas representações, contemplava o ser no Brasil. </span></p>
<figure id="attachment_26146" aria-describedby="caption-attachment-26146" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26146 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/moderno-eu.jpg" alt="Fotografia em preto e branco de Lygia Fagundes Telles e Carlos Drummond de Andrade. Ambos estão sentados num sofá e se olham. Carlos sorri para Lygia e tem um caderno nas mãos." width="1024" height="576" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/moderno-eu.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/moderno-eu-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/moderno-eu-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26146" class="wp-caption-text">Lygia Fagundes Telles e Carlos Drummond de Andrade em 1955 (Foto: Arquivo Lygia Fagundes Telles/IMS)</figcaption></figure>
<p><strong><i>O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus</i></strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas 100 anos depois, vivendo no </span><a href="https://ccbb.com.br/sao-paulo/programacao/brasilidade-pos-modernismo/"><span style="font-weight: 400;">pós-modernismo</span></a><span style="font-weight: 400;">, é preciso dizer também que nem tudo de 1922 estava errado. Quando Heitor Villa-Lobos saiu por aí mesclando o folclore do nosso país às músicas clássicas mais respeitadas do mundo para compor suas </span><a href="https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/escritas/article/download/1142/8037/#:~:text=Villa%2DLobos%20comp%C3%B4s%20as%20Bachianas,anos%20de%201930%20e%201945.&amp;text=As%20Bachianas%20Brasileiras%20s%C3%A3o%20nove,dos%20mais%20importantes%20compositores%20brasileiros."><i><span style="font-weight: 400;">Bachianas Brasileiras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ele parecia saber que um século depois uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/delta-estacio-blues-critica/"><span style="font-weight: 400;">Juçara Marçal</span></a><span style="font-weight: 400;"> estaria analisando o samba de seu berço fundador, Estácio de Sá, lado a lado com a origem do </span><i><span style="font-weight: 400;">blues n</span></i><span style="font-weight: 400;">o Delta Mississippi. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já Oswald de Andrade, logo depois do </span><i><span style="font-weight: 400;">frisson</span></i><span style="font-weight: 400;"> da Semana de Arte Moderna, diagnosticou cirurgicamente um Brasil machucado nas primeiras páginas de </span><a href="https://tupa.claec.org/index.php/latinidades/latinidades2020/paper/view/2235/992"><i><span style="font-weight: 400;">Serafim Ponte Grande</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, livro que só seria lançado em 1933. Disruptivo com a febre nacionalista e um tanto amargurado diante da efusividade de seus colegas, ele entendeu que o nosso país era marcado pela limitação de autonomia e inconstância de futuro, numa obra de alta inventividade, rebeldia, reflexão e inspiração, exatamente assim como uma jovem Aline Bei faz no século XXI em </span><a href="https://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Onde quer que olhemos, os artistas brasileiros são influenciados pela busca da nossa identidade. E o ato de entender um Brasil como o nosso só pode realmente ser uma Arte. 100 anos depois, num cenário tão politicamente crítico, culturalmente caótico e socialmente desamparado quanto o que inspirou as movimentações de 1922, a questão ainda é presente em cada artista que tenta registrar, interpretar, analisar e/ou criticar a nossa realidade. Não há padrão para mais nada e não há tempo para fazer qualquer coisa que não diga respeito à nossa própria identidade. Ao mesmo tempo, nunca estivemos </span><a href="https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2022/02/a-cultura-brasileira-precisa-voltar-a-respirar/"><span style="font-weight: 400;">tão distantes</span></a><span style="font-weight: 400;"> de qualquer definição cultural. E tem algo mais modernista e brasileiro do que isso? Existindo nós ou não, em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4PLthgtPyPA"><span style="font-weight: 400;">18 de fevereiro de 2122</span></a><span style="font-weight: 400;">, nós vamos saber.</span></p>
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		<title>Minha força não é bruta: as mulheres da Semana de 22</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Feb 2022 23:23:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Júlia Trevisan e Vitória Silva Quando falamos na Semana de Arte Moderna de 1922, há um retrato muito nítido na memória brasileira sobre quem eram as figuras envolvidas nesse importante capítulo de nossa história. Nele estão presentes nomes como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, e mais uma porção de personalidades masculinas. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Minha força não é bruta: as mulheres da Semana de 22"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26116" aria-describedby="caption-attachment-26116" style="width: 800px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26116 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/7-arte-capa-800x420.jpg" alt="Foto retangular de fundo cor gelo e textura. Na parte central superior lê-se “MULHERES NO CENTENÁRIO DA SEMANA DE ARTE MODERNA”. Centenário e as letras S e A estão em azul, o restante está em preto. Na parte inferior está a montagem de seis mulheres da semana de arte moderna, elas estão enfileiradas e as fotos estão em preto e branco. Todas as imagens são de busto. Da esquerda para a direita, as mulheres retratadas na imagem são: Patrícia Galvão, Guiomar Novaes, Regina Gomide Graz, Tarsila do Amaral, Zita Aida e Anita Mafaltti. No canto inferior direito está a logo do Persona com a cor da íris estilizada em azul." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/7-arte-capa-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/7-arte-capa-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/7-arte-capa.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26116" class="wp-caption-text">Destaques femininos do Modernismo, da esquerda para a direita: Patrícia Galvão (Pagu), Guiomar Novaes, Regina Gomide Graz, Tarsila do Amaral, Zina Aita e Anita Malfatti (Foto: Reprodução/Arte: Ana Júlia Trevisan)</figcaption></figure>
<p><b>Ana Júlia Trevisan e Vitória Silva</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando falamos na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/semana-de-arte-moderna/"><span style="font-weight: 400;">Semana de Arte Moderna de 1922</span></a><span style="font-weight: 400;">, há um retrato muito nítido na memória brasileira sobre quem eram as figuras envolvidas nesse importante capítulo de nossa história. Nele estão presentes nomes como Oswald de Andrade, </span><a href="https://personaunesp.com.br/manuel-bandeira-os-sapos-literatura-modernista-artigo/"><span style="font-weight: 400;">Manuel Bandeira</span></a><span style="font-weight: 400;">, Mário de Andrade, e mais uma porção de personalidades masculinas. Ao se tratar da parcela feminina, o primeiro nome que deve surgir com certeza é a popular Tarsila do Amaral, mas ela sequer esteve presente no evento. Durante os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, a pintora se encontrava do outro lado do oceano, na cidade de Paris. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas esse apagamento não se justifica pela ausência completa de mulheres entre as artistas, longe disso. Na década de 20, as mulheres brasileiras ainda não tinham conquistado o direito de votar, trabalhar sem a autorização do marido, ter conta bancária ou até mesmo a guarda dos filhos. Direitos esses que viriam, pelo menos, dez anos depois (e contando). Com um papel meramente restringindo a ser </span><a href="https://revistamarieclaire.globo.com/Cultura/noticia/2022/02/alem-de-tarsila-e-anita-conheca-mulheres-da-semana-de-arte-moderna-de-1922.html"><i><span style="font-weight: 400;">bela, recatada e do lar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, quem imaginaria participar de um movimento artístico que impactaria não somente em esferas culturais como também políticas? Foram poucas que tiveram não somente a audácia, mas uma condição social e econômica para tal. </span></p>
<p><span id="more-26108"></span></p>
<figure id="attachment_26109" aria-describedby="caption-attachment-26109" style="width: 500px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26109" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/9-obra-anita.jpg" alt="Pintura da artista Anita Malfatti. Nela, vemos uma mulher negra, com cabelos presos em um coque baixo e vestindo uma roupa branca de mangas curtas. Ela carrega uma bacia com frutas como abacaxi, banana e laranjas. Ao fundo, é possível ver uma paisagem rural. " width="500" height="371" /><figcaption id="caption-attachment-26109" class="wp-caption-text">Obra Tropical, de Anita Malfatti, uma das primeiras pinturas modernas com um tema brasileiro (Foto: Romulo Fialdini)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Anita Malfatti, Zina Aita, Guiomar Novaes e Regina Gomide Graz são as únicas das quais se tem registro de terem presenciado a Semana de 22 de alguma forma. A primeira delas é mais lembrada pelas duras reações que recebeu durante sua carreira do que seus feitos no movimento modernista. Enquanto as demais nem mesmo costumam ser citadas por seus importantes feitos antes e depois do evento. E, se vamos falar de esquecimento, por que não lembrar daquelas que sequer são condicionadas a esse posto? No livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Invenções da Mulher Moderna</span></i><span style="font-weight: 400;">, o autor Paulo Herkenhoff </span><a href="https://www.artequeacontece.com.br/6-artistas-mulheres-que-marcaram-o-modernismo-brasileiro-antes-e-depois-da-semana-de-22/"><span style="font-weight: 400;">resgata a trajetória de artistas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que contribuíram para o Modernismo direta ou indiretamente, antes ou depois da Semana. Entre elas, há nomes como Antonieta Santos Feio, Maria Pardos, </span><a href="http://www.dezenovevinte.net/bios/bio_nva.htm"><span style="font-weight: 400;">Nicolina Vaz de Assis</span></a><span style="font-weight: 400;">, Julieta de França, </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51761063"><span style="font-weight: 400;">Abigail de Andrade</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.guiadasartes.com.br/georgina-de-albuquerque/biografia"><span style="font-weight: 400;">Georgina de Albuquerque</span></a><span style="font-weight: 400;">. Distantes da efervescência da capital paulista, desenvolveram um trabalho artístico que quebrava paradigmas da época e, de certa forma, respingou nos caminhos do Modernismo Brasileiro. </span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Se fizermos um </span><a href="https://vogue.globo.com/moda/noticia/2022/02/vogue-celebra-100-anos-da-semana-de-22-com-capa-obra-pintada-por-elian-almeida.html"><span style="font-weight: 400;">recorte racial</span></a><span style="font-weight: 400;">, a representatividade no movimento é ainda mais reduzida, ou até mesmo nula, considerando um país com uma abolição da escravatura recente, e que não determinou a introdução da população negra na sociedade. Dessa forma, falar no centenário da Semana de Arte Moderna é também repensar os papéis que eram condicionados à população da época. Além de resgatar e imortalizar a obra daquelas que fugiram por completo da condição que lhes foi imposta, em um período que homens poderiam se profissionalizar como artistas, enquanto as mulheres deviam restringir suas práticas artísticas às limitações de seus lares, como um simples passatempo. É preciso corrigir a história das artistas à frente de seu tempo, que causaram um alvoroço na sociedade brasileira de 22. </span></p>
<figure id="attachment_26111" aria-describedby="caption-attachment-26111" style="width: 725px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26111" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/anita-725x800.jpg" alt="Foto em preto e branco da artista Anita Malfatti. Anita era uma mulher branca, de cabelos escuros e curtos. Ela está com o rosto um pouco inclinado e usa um brinco em sua orelha. " width="725" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/anita-725x800.jpg 725w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/anita-928x1024.jpg 928w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/anita-768x847.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/anita.jpg 940w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26111" class="wp-caption-text">A artista nasceu com uma deficiência congênita no braço direito que, mesmo após um procedimento cirúrgico, nunca recuperou totalmente os movimentos (Foto: Domínio Público)</figcaption></figure>
<p><b>Anita Malfatti (1889-1964)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No ano de 1889 vinha ao mundo a mulher que ganharia o título de </span><a href="https://www.todamateria.com.br/anita-malfatti/"><span style="font-weight: 400;">primeira modernista</span></a><span style="font-weight: 400;">. Filha de imigrante italiano e de uma pintora norte-americana, Anita Malfatti nasceu na cidade de São Paulo. Seu gosto pela arte foi muito influenciado por sua mãe, nutrindo desde cedo o sonho de estudar em Paris. Em 1910, embarcou na sua trajetória como artista ao se mudar para Berlim, em um período marcante da arte moderna alemã. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua passagem pelo país germânico e, posteriormente, pelos Estados Unidos, foi um fator importante para a construção de sua identidade. No ambiente europeu, Anita conviveu com pintores renomados e foi apresentada ao trabalho de famosos como </span><a href="https://personaunesp.com.br/com-amor-van-gogh-critica/"><span style="font-weight: 400;">Van Gogh</span></a><span style="font-weight: 400;">, enquanto, em Nova York, vivenciou a eclosão de movimentos de vanguarda como o expressionismo de Homer Boss. De volta ao Brasil, em 1914, realizou sua primeira exposição com obras de sua autoria e, em meados de 1917, a segunda. A feição tímida de Anita não correspondia a </span><a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8938/anita-malfatti/obras?p=2&amp;gclid=CjwKCAiAgbiQBhAHEiwAuQ6BkniNZBS1PlPHU9F8cFfDmDXSoprjW46TJ0PUysOUkyVDnKBsYvlVwRoCd5EQAvD_BwE"><span style="font-weight: 400;">ousadia e irreverência de suas pinturas</span></a><span style="font-weight: 400;">, que rejeitavam o academicismo a partir do uso de deformidades e cores marcantes. Incompreendida pelo público da época, sua arte foi alvo de duras críticas, até mesmo pelos seus familiares, chegando a perder o apoio financeiro de seu padrinho. A mais severa e marcante de todas veio do escritor </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/arte-de-manicomio-o-inusitado-conflito-entre-monteiro-lobato-e-anita-malfatti.phtml"><span style="font-weight: 400;">Monteiro Lobato</span></a><span style="font-weight: 400;">, em dezembro de 1917, que publicou um artigo no jornal </span><i><span style="font-weight: 400;">O Estado de S. Paulo</span></i><span style="font-weight: 400;"> acerca das obras da artista com o título “</span><i><span style="font-weight: 400;">Paranóia ou Mistificação?</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alvo de fortes reações da elite conservadora, muitas das obras de Malfatti foram devolvidas ou quase destruídas, provocando o isolamento da própria do meio artístico. Por outro lado, a represália também culminou na manifestação de outros artistas em defesa da jovem, como Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Emiliano Di Cavalcanti. No ano de 1919, iniciou estudos com o pintor acadêmico </span><a href="https://www.guiadasartes.com.br/pedro-alexandrino-borges/obras-e-biografia"><span style="font-weight: 400;">Pedro Alexandrino Borges</span></a><span style="font-weight: 400;"> e também passou a frequentar o ateliê do alemão </span><a href="https://www.escritoriodearte.com/artista/george-fischer-elpons"><span style="font-weight: 400;">George Fischer Elpons</span></a><span style="font-weight: 400;">, em São Paulo, onde conheceu Tarsila do Amaral. Unida aos seus recentes amigos e apoiadores, passam a atuar como o que ficaria conhecido por </span><a href="https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/artes/grupo-dos-cinco"><span style="font-weight: 400;">Grupo dos Cinco</span></a><span style="font-weight: 400;">, que teria um importante papel na Semana de Arte Moderna de 1922.</span></p>
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<figure id="attachment_26114" aria-describedby="caption-attachment-26114" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26114" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/10-foto-tarsila-800x450.jpg" alt="Foto em preto e branco da artista Tarsila do Amaral. Tarsila era uma mulher branca, de cabelos escuros e lisos; eles estão presos em um coque baixo. Ela usa um par de brincos compridos em suas orelhas." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/10-foto-tarsila-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/10-foto-tarsila-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/10-foto-tarsila.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26114" class="wp-caption-text">Suas pinturas mais famosas são: o Abaporu, Urutu, Antropofagia e Sol Poente (Foto: Tarsila do Amaral Licenciamentos)</figcaption></figure>
<p><b>Tarsila do Amaral (1886-1973)</b></p>
<p><a href="https://tarsiladoamaral.com.br/"><span style="font-weight: 400;">Tarsila</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma das maiores referências artísticas do país e uma das principais pintoras da Arte brasileira moderna. Nascida em 1886, mudou-se para Europa em 1920 e cursou a Academia Julians e o ateliê do retratista de moda Émile Renard. Por esse motivo, suas pinturas eram fortemente influenciadas por aquilo que estava sendo produzido de mais atual na Europa na época, e com suas habilidade unia os ideais modernistas à brasilidade. No entanto, as pinturas de Tarsila, expostas no </span><a href="https://citaliarestauro.com/o-que-foi-o-salon-d-automne/"><span style="font-weight: 400;">Salão dos Artistas Franceses</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 1922, ainda não revelavam toda a importância que a artista teria na construção do Modernismo brasileiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A pintora não participou ativamente da Semana de Arte Moderna, mas seu retorno ao Brasil, ainda em 1922, foi decisivo tanto em sua carreira como para o rumo ao qual o movimento seguiria. Chegando à terra das palmeiras, Tarsila se liga ao </span><a href="https://www.bn.gov.br/acontece/noticias/2020/06/revista-klaxon-formacao-uma-identidade-nacional"><span style="font-weight: 400;">Grupo Klaxon</span></a><span style="font-weight: 400;">, que contava com nomes como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Sérgio Buarque de Holanda. Posteriormente, ela se une a Anita Malfatti, Mário e Oswald de Andrade e Menotti del Picchia para formar o </span><a href="https://www.bn.gov.br/acontece/noticias/2020/06/revista-klaxon-formacao-uma-identidade-nacional"><span style="font-weight: 400;">Grupo dos Cinco</span></a><span style="font-weight: 400;">, que seria o grande responsável pelo referencial ideológico e artístico da Semana de 22. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1926, Tarsila do Amaral se casa com Oswald de Andrade, e dois anos depois, a artista pinta um quadro para </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/estilo/tarsilinha-do-amaral-tarsila-foi-uma-mulher-a-frente-do-seu-tempo-e-muito-corajosa/"><span style="font-weight: 400;">presentear o marido</span></a><span style="font-weight: 400;">. A obra era nada mais nada menos do que o </span><i><span style="font-weight: 400;">Abaporu</span></i><span style="font-weight: 400;"> que, emocionando Oswald, o inspira a escrever o </span><a href="https://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/oandrade.pdf"><i><span style="font-weight: 400;">Manifesto Antropófago</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, sendo assim, um dos quadros mais importantes do Brasil e marco inicial de sua fase antropofágica. Juntos, o casal influenciou de forma incisiva a Literatura e as Artes Plásticas por meio de suas peças e da defesa do Modernismo. E, apesar de não ter participado da Semana, Tarsila é considerada a primeira pessoa que conseguiu realizar uma obra de realidade nacional.</span></p>
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<figure id="attachment_26113" aria-describedby="caption-attachment-26113" style="width: 766px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26113" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/12-foto-guiomar.png" alt="Foto em preto e branco da artista Guiomar Novaes. Guiomar era uma mulher branca, de cabelos escuros e curtos. Ela está com a cabeça apoiada em sua mão esquerda, e veste uma blusa escura de mangas compridas, usa um colar de pérolas em seu pescoço e um par de brincos em suas orelhas." width="766" height="514" /><figcaption id="caption-attachment-26113" class="wp-caption-text">Com carreira consolidada no exterior, ficou conhecida pelas suas interpretações das obras de Chopin e Schumann (Foto: APR)</figcaption></figure>
<p><b>Guiomar Novaes (1894-1979)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mulher prodígio, Guiomar Novaes nasceu em São João da Boa Vista (SP) e foi na cidade de Campinas (SP), com apenas quatro anos, que começou a tocar piano, incentivada pela mãe e reproduzindo o que as irmãs mais velhas tocavam. Foi ainda menina que demonstrou seu talento nato para a Música, compondo uma valsinha que recebeu o título de </span><i><span style="font-weight: 400;">Jardim de infância</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sua partitura foi, em 1903, publicada na revista </span><i><span style="font-weight: 400;">O Malho</span></i><span style="font-weight: 400;">. Nessa mesma época, a garota estava morando junto com a família em São Paulo, e por acaso do destino, ela era vizinha do escritor Monteiro Lobato, servindo de inspiração para a criação da personagem Narizinho, do </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/polemica-de-monteiro-lobato-em-sitio-do-picapau-amarelo-homem-de-seu-tempo-ou-racismo-explicito.phtml"><i><span style="font-weight: 400;">Sítio do Picapau Amarelo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No ano de 1922, a pianista foi uma das mais importantes da Semana de Arte Moderna. Em sua apresentação no Theatro Municipal de São Paulo durante o segundo dia do evento, interpretou as obras </span><a href="http://institutopianobrasileiro.com.br/years/index/1922"><i><span style="font-weight: 400;">Au jardin du vieux serail (Andrinople)</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de</span> <span style="font-weight: 400;">E. R. Blanchet, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WlbWoN-Vdh4&amp;ab_channel=InstitutoPianoBrasileiro-IPB"><i><span style="font-weight: 400;">O ginete do pierrozinho</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (esse integrava a coletânea </span><i><span style="font-weight: 400;">Carnaval das crianças</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Villa-Lobos), e </span><i><span style="font-weight: 400;">La Soirée dans grenade</span></i><span style="font-weight: 400;">, das</span> <span style="font-weight: 400;">Estampes, </span><a href="https://classicosdosclassicos.mus.br/compositores/claude-debussy/"><span style="font-weight: 400;">Debussy</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Minstrels. Ovacionada pela fulgurosa plateia, executou </span><i><span style="font-weight: 400;">L’Arlequin</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Vallon. Neste mesmo ano, firmou matrimônio com o arquiteto e compositor Octávio Pinto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir da Semana de 22, Guiomar Novaes passou a incluir em suas apresentações as obras de Villa-Lobos, tornando-se importante divulgadora dele nos Estados Unidos. Em 30 de agosto de 1955, por decreto do então Presidente da República, o sucessor de Getúlio Vargas, Café Filho, foi condecorada com a Ordem Nacional do Mérito, juntamente a </span><a href="https://personaunesp.com.br/heitor-villa-lobos-e-a-musica-modernista-artigo/"><span style="font-weight: 400;">Heitor</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Ary Barroso. A valorização veio pelo sentido de universalidade dado à música brasileira, projetando-a no exterior. Sua última apresentação pública ocorreu em 15 de julho de 1973, no Festival Internacional de Música de Campos do Jordão. Em 1977, foi criada, na cidade natal da pianista, a </span><a href="http://amigosdaarte.org.br/programas-e-equipamentos/semana-guiomar-novaes-3/"><span style="font-weight: 400;">Semana Guiomar Novaes</span></a><span style="font-weight: 400;">, importante evento cultural que ocorre anualmente, até hoje. </span></p>
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<figure id="attachment_26112" aria-describedby="caption-attachment-26112" style="width: 630px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26112" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/14-obra-zina.jpg" alt="Pintura A Sombra, da artista Zina Aita. No quadro, é possível ver ilustrações que parecem ser de 6 figuras masculinas. Todos estão em meio a uma via, com o corpo inclinado para baixo, em que é possível ver sua sombra se formando logo atrás. " width="630" height="437" /><figcaption id="caption-attachment-26112" class="wp-caption-text">Pouco se sabe ou se conhece sobre a obra de Zina, em função da falta de pesquisas e dificuldade em localizar suas produções (Foto: Romulo Fialdini)</figcaption></figure>
<p><b>Zina Aita (1900-1967)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fugindo um pouco do centrismo do estado de São Paulo, Tereza Aita, conhecida como Zina, nasceu na cidade de Belo Horizonte, em 1900. Filha de empresários italianos imigrados, em 1914, transfere-se com a família para a Itália, passando a frequentar a Accademia di Belle Arti di Firenze e estudar com </span><a href="https://www.brasilnaitalia.net/2021/11/ceramica-italiana-galileo-chini.html"><span style="font-weight: 400;">Galileo Chini</span></a><span style="font-weight: 400;">, referência na área da pintura e da cerâmica. Sua ligação com o artista serve como grande influência para o desenvolvimento de seu estilo mais “decorativista”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De volta ao Brasil, em 1918, a mineira passa a conviver com nomes importantes do Modernismo, como Mário de Andrade e Anita Malfatti. Na atmosfera modernista da capital paulista, ela também começa a contribuir com ilustrações para a </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,a-imprensa-alternativa-espalhou-o-modernismo-para-alem-de-sao-paulo,70003974203"><span style="font-weight: 400;">revista-símbolo do movimento na época</span></a><span style="font-weight: 400;">, a </span><i><span style="font-weight: 400;">Klaxon</span></i><span style="font-weight: 400;">. Passeando por tendências impressionistas, Zina expõe sua primeira mostra individual em Belo Horizonte no início de 1920. Em função disso, é considerada precursora do Modernismo em Minas Gerais, e as reações ao seu trabalho evidenciam o fardo de carregar esse título. Na imprensa, foi declarado que Zina utilizava “cores bizarras” para “ferir a vista do público”, passando a ser para Belo Horizonte o mesmo que Malfatti foi para São Paulo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pouco depois, participa da Semana de 22, exibindo oito telas e diversas impressões. Em 1924, ela se muda definitivamente para a Itália, onde passa a dirigir uma fábrica de cerâmica, largando as telas para dedicar-se às artes industriais. O destino escolhido por Zina, tanto no quesito da localidade quanto de seu estilo artístico, foi um fator motivador para o seu apagamento na história, em função das </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-60381328?at_custom4=2586C656-8E6A-11EC-890C-B20C933C408C&amp;at_custom1=%5Bpost+type%5D&amp;at_campaign=64&amp;at_medium=custom7&amp;at_custom2=twitter&amp;at_custom3=BBC+Brasil"><span style="font-weight: 400;">concepções da época</span></a><span style="font-weight: 400;">, que restringiam artistas ligadas à decoração em um outro aspecto, não sendo de fato reconhecida no meio modernista. Essa mesma imposição afetaria a lembrança da vida e obra de Regina Gomide Graz.</span></p>
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<figure id="attachment_26110" aria-describedby="caption-attachment-26110" style="width: 308px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26110" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/regina.jpg" alt="Retrato da artista Regina Gomide Graz, pintado por seu irmão, Antonio Gomide. Nele, vemos uma mulher com o rosto inclinado para a esquerda. Ela é branca, com cabelos castanhos escuros e curtos, e veste uma blusa rosa com gola branca. " width="308" height="400" /><figcaption id="caption-attachment-26110" class="wp-caption-text">A opção de Regina pela arte têxtil tinha um papel ainda mais revolucionário, de moldar uma nova dimensão estética para além dos quadros (Foto: Sérgio Guerini)</figcaption></figure>
<p><b>Regina Gomide Graz (1897-1973)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre todas as mulheres deixadas de lado pela memória histórica, a passagem de Regina Gomide Graz pela Semana de 22 é a que passa mais despercebida, sem ser ao menos totalmente comprovada. Nascida no ano de 1897, na cidade de Itapetininga, Regina era irmã do pintor </span><a href="https://www.escritoriodearte.com/artista/antonio-gomide"><span style="font-weight: 400;">Antonio Gomide</span></a><span style="font-weight: 400;"> e esposa do pintor </span><a href="https://www.escritoriodearte.com/artista/john-graz"><span style="font-weight: 400;">John Graz</span></a><span style="font-weight: 400;">. Passou parte de sua juventude na cidade de Genebra, onde estudou na École des Beaux Arts e conviveu com a ascensão de movimentos modernistas, como o </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/vanguardas-europeias.htm"><span style="font-weight: 400;">Cubismo e o Dadaísmo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Essa parte de sua vivência seria determinante para que iniciasse seus trabalhos como artista com elementos do movimento </span><a href="https://www.infoescola.com/movimentos-artisticos/art-deco/"><i><span style="font-weight: 400;">Art Deco</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, após estudos dedicados sobre tapeçaria e áreas afins, âmbito em que se destacou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na década de 20, juntamente com seu futuro marido e o poeta Oswald de Andrade, Regina passa a se inserir na vida intelectual da cidade de São Paulo, fato que lhe trouxe a oportunidade de participar e expor seu trabalho na Semana de Arte Moderna de 1922. Regina Gomide Graz foi a </span><a href="https://jornal.usp.br/cultura/como-foi-a-participacao-das-mulheres-na-semana-de-arte-moderna/"><span style="font-weight: 400;">introdutora das artes decorativas modernas no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">, teve uma obra marcada por um </span><i><span style="font-weight: 400;">design</span></i><span style="font-weight: 400;"> abstrato expressado por meio de formas geométricas, e realizou trabalhos que também conversavam com vanguardas artísticas, por fim se envolvendo, é claro, com o Modernismo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há de se questionar (e muito) o apagão da trajetória da artista. Na História da Arte, seu nome vem muito associado aos outros dois pintores de sua família, muitas vezes intitulados como </span><i><span style="font-weight: 400;">tríade de artistas-decoradores</span></i><span style="font-weight: 400;">. No entanto, o protagonismo de sua obra voltada para a produção têxtil é jogado para escanteio, sendo necessária a presença de uma figura masculina para que o trabalho de Regina Gomide Graz seja minimamente lembrado. </span></p>
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<figure id="attachment_26115" aria-describedby="caption-attachment-26115" style="width: 699px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26115" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/17-pagu.jpg" alt="Foto em preto e branco da artista Patrícia Galvão. Patrícia era uma mulher branca, com cabelos ondulados e volumosos. Ela usa maquiagem forte em seus olhos e um batom escuro na boca. " width="699" height="420" /><figcaption id="caption-attachment-26115" class="wp-caption-text">Sua obra mais famosa, Parque Industrial, foi escrita sobre o pseudônimo de Mara Lobo (Foto: Agir)</figcaption></figure>
<p><b>Patrícia Galvão (Pagu) [1910-1962]</b></p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0n5M6RF0lDE&amp;ab_channel=ManfredPoroca"><span style="font-weight: 400;">Indignada no palanque</span></a><span style="font-weight: 400;">, Pagu é um dos maiores símbolos de mulher libertária e encarou como ninguém os ecos do movimento modernista. A pequena Patrícia tinha apenas 11 anos quando o Theatro Municipal em São Paulo abriu as portas para que os artistas criticassem a cultura tradicional. Jornalista, mulher precursora, militante política e incentivadora cultural, ela se junta aos grupos em 1929, se tornando musa modernista do </span><a href="https://www.todamateria.com.br/movimento-antropofagico/"><span style="font-weight: 400;">Movimento Antropofágico</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pagu era movida por ideais como a justiça social e a transformação da pessoa por meio da arte e da cultura. Suas colunas de jornal tratavam de política, literatura e teatro, fazendo também o trabalho de divulgar autores desconhecidos no Brasil e alguns no restante do mundo. Em suas críticas sobre o cotidiano social foi visionária, com olhar sensível e antecipatório. Em sua obra mais famosa, </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/11/23/A-import%C3%A2ncia-de-%E2%80%98Parque-Industrial%E2%80%99-85-anos-depois"><i><span style="font-weight: 400;">Parque Industrial</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1933), falou sobre a industrialização brasileira do século XX, e acima disso, denunciou as condições humilhantes e precárias das operárias paulistanas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É impossível não reconhecer Pagu como referência dos desdobramentos do movimento modernista. Dona de muitos pseudônimos por conta da censura sofrida, casou-se, em 1930, com Oswald de Andrade, e, ao lado dele, passou a militar no Partido Comunista, logo se tornando a primeira presa política da história do Brasil, após participar de uma greve de estivadores. </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/pagu-primeira-presa-politica-brasil.htm"><span style="font-weight: 400;">Patrícia Galvão foi presa 23 vezes ao longo da vida</span></a><span style="font-weight: 400;">. O mundo não mudou muito depois de Pagu, suas obras ainda fazem sentido no contexto histórico atual do Brasil, e suas lutas frenéticas ainda são travadas diariamente por milhares de mulheres ao redor do mundo.</span></p>
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		<title>Manuel Bandeira não engole sapos diante do academicismo literário</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Feb 2022 18:42:04 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Ronald de Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[Semana de 22]]></category>
		<category><![CDATA[Semana de Arte Moderna]]></category>
		<category><![CDATA[Semana de Arte Moderna no Persona]]></category>
		<category><![CDATA[Tradicionalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quatro anos antes da Semana de 1922, o poeta brasileiro já repensava a Literatura nacional por meio de características modernistas Eduardo Rota Hilário Entre Baleias e burrinhos pedreses, há um bom tempo que a Literatura brasileira dá vida aos bichos mais singulares do cenário criativo nacional. Sendo alguns mais conhecidos do que outros, em uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/manuel-bandeira-os-sapos-literatura-modernista-artigo/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Manuel Bandeira não engole sapos diante do academicismo literário"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><i>Quatro anos antes da Semana de 1922, o poeta brasileiro já repensava a Literatura nacional por meio de características modernistas</i></p>
<figure id="attachment_26072" aria-describedby="caption-attachment-26072" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26072" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-3.jpg" alt="Pintura da artista brasileira Tarsila do Amaral. Imagem retangular horizontal. Na parte superior, vemos um céu azulado e alguns cactos verdes. Uma espécie de caverna ocupa quase toda a imagem. Por meio dessa cavidade rochosa, observamos um fundo bege, uma espécie de lago e, mais à direita, um sapo verde. A pintura inteira apresenta características cubistas. " width="1000" height="816" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-3.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-3-800x653.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-3-768x627.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26072" class="wp-caption-text">Publicado no livro Carnaval, de 1919, o poema Os Sapos, de Manuel Bandeira, antecipou as características da Literatura criada pela primeira geração modernista brasileira; na imagem, vemos a pintura O Sapo, de 1928, feita por Tarsila do Amaral (Foto: Romulo Fialdini)</figcaption></figure>
<p><b>Eduardo Rota Hilário</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre </span><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/vidas-secas-conheca-os-personagens-da-obra/#:~:text=BALEIA%20%E2%80%93%20personagem%20curiosa.,no%20momento%20de%20sua%20morte."><span style="font-weight: 400;">Baleias</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/sagarana-resumo-da-obra-de-guimaraes-rosa/"><span style="font-weight: 400;">burrinhos pedreses</span></a><span style="font-weight: 400;">, há um bom tempo que a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/literatura-brasileira/"><span style="font-weight: 400;">Literatura brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;"> dá vida aos bichos mais singulares do cenário criativo nacional. Sendo alguns mais conhecidos do que outros, em uma possível lista das mais memoráveis dessas criaturas, os sapos de Manuel Bandeira com certeza garantiriam uma posição e reconhecimento bastante nobres e justos. Criados pelo artista recifense em poema homônimo, de 1918, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> só foram publicados em 1919, no livro </span><a href="https://ufmg.br/comunicacao/noticias/livro-carnaval-de-manuel-bandeira-completa-100-anos"><i><span style="font-weight: 400;">Carnaval</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; mas foi na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/semana-de-arte-moderna/"><span style="font-weight: 400;">Semana de Arte Moderna de 1922</span></a> <span style="font-weight: 400;">que conquistaram de fato uma grande projeção.</span></p>
<p><span id="more-26071"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bandeira </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60321269#:~:text=A%20leitura%20de%20Os%20sapos,%22Jo%C3%A3o%20Batista%20do%20Modernismo%22."><span style="font-weight: 400;">não esteve</span></a><span style="font-weight: 400;"> no evento, é verdade. Mas isso não impediu que, no dia 15 de fevereiro, durante a segunda das três noites da Semana, o poeta Ronald de Carvalho declamasse aquele que, com segurança, pode ser considerado a “</span><a href="https://www.socialistamorena.com.br/semana-de-arte-moderna-91-anos-os-sapos-de-manuel-bandeira/"><i><span style="font-weight: 400;">declaração de princípios dos modernistas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, especialmente nas artes literárias. Recebidos com gritos e vaias, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> expunham como elemento central uma crítica bem-humorada aos poetas parnasianos &#8211; demasiadamente apegados a uma Arte mais tradicional -, dando espaço à tão desejada &#8211; e, hoje em dia, super conhecida, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2022/01/nos-bracos-da-academia.shtml?origin=folha"><span style="font-weight: 400;">mas pouco questionada</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ruptura com o academicismo regrado e rígido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em aspectos formais, o que se observa de início no poema é uma apropriação minuciosa da excessiva preocupação estética parnasiana. Formado por </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/portugues/o-que-e-redondilha.htm#:~:text=Chama%2Dse%20redondilha%20o%20recurso,sete%20s%C3%ADlabas%20s%C3%A3o%20redondilhas%20maiores."><span style="font-weight: 400;">redondilhas menores</span></a><span style="font-weight: 400;">, isto é, por versos de cinco sílabas poéticas, e rimas principalmente </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/as-rimas-suas-combinacoes.htm"><span style="font-weight: 400;">alternadas</span></a><span style="font-weight: 400;">, o texto de Bandeira pouco se afasta, nesse sentido, da tradição que antecede o Modernismo. A isso, soma-se a evidente elaboração sonora do poema, que busca imitar o coaxar de sapos em versos como “</span><i><span style="font-weight: 400;">-“Meu pai foi à guerra!”/-“Não foi!” -“Foi!” -“Não foi!”</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span> <span style="font-weight: 400;">&#8211; provavelmente, os mais famosos de toda a obra. </span></p>
<figure id="attachment_26073" aria-describedby="caption-attachment-26073" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26073" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3.jpg" alt="Cena do filme O Poeta do Castelo. Fotografia retangular horizontal em preto e branco. À esquerda, Manuel Bandeira encontra-se deitado, com uma máquina de datilografar no colo e alguns livros ao seu redor. Ele é um homem de roupa listrada, óculos e está concentrado. À direita, podemos ver uma estante com livros." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26073" class="wp-caption-text">Manuel Bandeira em cena do filme O Poeta do Castelo, de 1959 (Foto: Saga Filmes/Instituto Moreira Salles)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.culturagenial.com/poema-os-sapos-manuel-bandeira/"><span style="font-weight: 400;">A métrica regular, a sonoridade e as rimas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;">, no entanto, têm uma decisiva razão de ser. Ao observarmos o conteúdo de todas as estrofes, percebemos que a apropriação de Bandeira nada mais é do que um surpreendente recurso irônico. Desse modo, as características fundamentais da </span><a href="https://www.todamateria.com.br/primeira-geracao-modernista/"><span style="font-weight: 400;">primeira geração modernista</span></a><span style="font-weight: 400;"> já começavam a ganhar forma em um trabalho de 1918, quatro anos antes da existência de uma Semana de Arte Moderna. A ironia, o humor e a paródia, por exemplo, guiam </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> do início ao fim, estando presentes em maior ou menor grau de sutileza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Resgatando Olavo Bilac, um dos maiores símbolos do Parnasianismo brasileiro, torna-se inevitável retomar o poema </span><a href="http://biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://biblio.com.br/conteudo/OlavoBilac/profissaodefe.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Profissão de Fé</span></i></a><span style="font-weight: 400;">: obra geralmente lembrada por estabelecer uma famosa comparação entre os trabalhos do </span><a href="https://www.coladaweb.com/guia-de-profissoes/ourives"><span style="font-weight: 400;">ourives</span></a><span style="font-weight: 400;"> e do poeta. Ou, como diz o próprio autor, “</span><i><span style="font-weight: 400;">Invejo o ourives quando escrevo:/Imito o amor/Com que ele, em ouro, o alto relevo/Faz de uma flor.</span></i><span style="font-weight: 400;">” Sem esse repertório, torna-se bem difícil &#8211; se não impossível &#8211; compreender a paródia construída ao longo dos versos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;">.      </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Brada em um assomo/O sapo-tanoeiro:/– “A grande arte é como/Lavor de joalheiro.</span></i><span style="font-weight: 400;">”, escreve Manuel Bandeira. Desde o princípio, é o sapo-tanoeiro quem dita as regras da suposta ‘boa poesia’. Olhando somente para esses versos, a crítica em forma de paródia é nítida, mas pode parecer também implícita. Retornando à terceira estrofe, no entanto, concluímos que Bandeira não poupou palavras ao apontar que o sapo-tanoeiro é ninguém menos que o “</span><i><span style="font-weight: 400;">parnasiano aguado</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Ao parodiar a </span><i><span style="font-weight: 400;">Profissão de Fé</span></i><span style="font-weight: 400;"> parnasiana, podemos muito bem supor que esse anfíbio é, na verdade, o próprio </span><a href="https://www.academia.org.br/academicos/olavo-bilac/biografia"><span style="font-weight: 400;">Bilac</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_26074" aria-describedby="caption-attachment-26074" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26074" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2.jpg" alt="Página do livro Poesias, de Olavo Bilac. Fotografia quadrada, com fundo branco. A página ocupa quase toda a imagem. Trata-se de um papel amarelado, no qual lemos, de cima para baixo, Olavo Bilac, Poesias, Nona Edição Revista. Abaixo, em um retângulo de bordas pretas, lemos Panóplias, Via Láctea, Sarças de Fogo, Alma Inquieta, As Viagens, O Caçador de Esmeraldas e Tarde. Mais embaixo, lemos Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, 1922. Todas as palavras estão em letras pretas. " width="1000" height="1000" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26074" class="wp-caption-text">Olavo Bilac é um dos nomes mais lembrados do Parnasianismo brasileiro (Foto: Harpya Colecionáveis &amp; Antiguidades)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se essa rejeição ao Parnasianismo, visto como uma Arte tradicional e conservadora, é uma das características mais lembradas do </span><a href="https://www.culturagenial.com/modernismo/"><span style="font-weight: 400;">Modernismo</span></a><span style="font-weight: 400;">, a ironia e o humor deveriam vir logo em seguida. Nas falas do sapo-tanoeiro, esses dois elementos beiram até mesmo certo grau de deboche: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Vede como primo/Em comer os hiatos!/Que arte! E nunca rimo/Os termos cognatos.</span></i><span style="font-weight: 400;">” Nessa visão, a única habilidade dos ‘antigos’ poetas era valorizar com cautela o lado formal de um texto. O fazer poético era, portanto, extremamente limitado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com o tempo, o que se percebe é que </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> são uma obra totalmente </span><a href="https://www.instagram.com/p/CCua53GDAof/"><span style="font-weight: 400;">metalinguística</span></a><span style="font-weight: 400;">. Isso se dá, porém, de forma inusitada. Critica-se a todo momento o diferencial dos parnasianos. Ou seja, o poema acaba abordando a maneira como ele mesmo não deveria ser. Trata-se, então, de uma metalinguagem também irônica. É, enfim, o grito da poesia brasileira contra as “</span><i><span style="font-weight: 400;">fôrmas</span></i><span style="font-weight: 400;">” que, em determinados pontos de vista, aprisionam e tornam vazias as expressões singulares de cada escritor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, a obra em análise pode ser considerada ainda um exemplo daquilo que se convencionou chamar de poema-piada. O </span><a href="http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet171.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Senhor Feudal</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Oswald de Andrade, talvez demonstre melhor esse tipo de criação consideravelmente comum na primeira geração do Modernismo: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Se Pedro Segundo/Vier aqui/Com história/Eu boto ele na cadeia</span></i><span style="font-weight: 400;">”. De qualquer modo, os versos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> também carregam muito humor, motivo pelo qual o poema pode &#8211; mas não tem a obrigação de &#8211; ser inserido na classificação mencionada.</span></p>
<figure id="attachment_26075" aria-describedby="caption-attachment-26075" style="width: 843px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26075" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-2.jpg" alt="Pintura da artista brasileira Tarsila do Amaral. Imagem retangular vertical, com fundo acinzentado. Oswald ocupa quase todo o quadro. Ele é um homem de cabelos relativamente curtos, olha para a esquerda e veste terno, camisa e gravata." width="843" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-2.jpg 843w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-2-659x800.jpg 659w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-2-768x933.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26075" class="wp-caption-text">Retrato de Oswald de Andrade, obra de 1923, da pintora Tarsila do Amaral (Foto: Romulo Fialdini)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Certo é que, desmistificando uma provável </span><a href="https://www.posfacio.com.br/2011/06/11/deuses-e-sapos-uma-leitura-do-poema-os-sapos-de-manuel-bandeira/"><span style="font-weight: 400;">imagem endeusada</span></a><span style="font-weight: 400;"> de seus antecessores, Manuel Bandeira retrata os parnasianos como seres marginalizados, utilizando, para tanto, a figura geralmente rejeitada dos sapos. Destrói-se, assim, a noção exagerada de que “</span><i><span style="font-weight: 400;">Não há mais poesia,/Mas há artes poéticas…”</span></i><span style="font-weight: 400;">”, e aponta-se, enfim, para uma realidade histórica completamente distinta daquilo que era transformado em poesia. Em alguma medida, trata-se do Modernismo inconformado com tantos poetas em desacordo com o turbilhão multifatorial daquela época.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas nem todo sapo era ruim ou desprezível. </span><a href="http://www.nilc.icmc.usp.br/nilc/literatura/macuna.ma.htm"><span style="font-weight: 400;">No fundo do brejo fértil</span></a><span style="font-weight: 400;">, nasceu o cururu, herói do Modernismo. Brincadeiras à parte, a figura do sapo-cururu, no fim do poema, pode ser lida com tranquilidade como uma caracterização dos futuros modernistas. Envolvido por uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZrxjmULA9Ug"><span style="font-weight: 400;">canção popular</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, portanto, por uma linguagem mais próxima do cotidiano, o sapo-cururu é quem destoa da “</span><i><span style="font-weight: 400;">grita</span></i><span style="font-weight: 400;">” parnasiana. Aliás, o coitado mal sabia que o futuro era mais próximo de si mesmo do que daqueles outros seres ‘</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=X7LZaOScIqU"><span style="font-weight: 400;">quadrados</span></a><span style="font-weight: 400;">’ &#8211; ou será que sabia?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo essa uma dúvida eterna, é melhor que nos preocupemos com outras analogias. Isso porque </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> misturam </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/literatura/rimas-pobre-rica-rara-preciosa.htm"><span style="font-weight: 400;">rimas ricas e pobres</span></a><span style="font-weight: 400;">, e há quem leia as primeiras como uma metáfora para o Parnasianismo, enquanto as segundas representariam os destoantes modernistas. Já em aspectos mais formais, o uso de aspas e travessões ao longo de cada ‘coaxar poético’ sem dúvida remete aos diálogos comumente utilizados em um gênero muito amado pelo Modernismo, mãe eterna de nomes como </span><a href="https://www.amazon.com.br/Macuna%C3%ADma-Her%C3%B3i-Sem-Nenhum-Car%C3%A1ter/dp/6586490472/ref=asc_df_6586490472/?tag=googleshopp00-20&amp;linkCode=df0&amp;hvadid=379715911398&amp;hvpos=&amp;hvnetw=g&amp;hvrand=3342612176804072851&amp;hvpone=&amp;hvptwo=&amp;hvqmt=&amp;hvdev=c&amp;hvdvcmdl=&amp;hvlocint=&amp;hvlocphy=9074225&amp;hvtargid=pla-1785663324432&amp;psc=1"><i><span style="font-weight: 400;">Macunaíma</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.amazon.com.br/Mem%C3%B3rias-sentimentais-Miramar-Oswald-Andrade/dp/8535927417/ref=sr_1_1_sspa?keywords=memorias+sentimentais+de+joao+miramar&amp;qid=1644931986&amp;s=books&amp;sprefix=memorias+sen%2Cstripbooks%2C209&amp;sr=1-1-spons&amp;psc=1&amp;spLa=ZW5jcnlwdGVkUXVhbGlmaWVyPUE2TUtOVVhVT1JLMVUmZW5jcnlwdGVkSWQ9QTAxMzc1MDUxMzdVMjVINFJRSTFYJmVuY3J5cHRlZEFkSWQ9QTA1NjE1MzgzVTBGUjYyNjBNQ1FQJndpZGdldE5hbWU9c3BfYXRmJmFjdGlvbj1jbGlja1JlZGlyZWN0JmRvTm90TG9nQ2xpY2s9dHJ1ZQ=="><i><span style="font-weight: 400;">Memórias Sentimentais de João Miramar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">: a prosa.</span></p>
<figure id="attachment_26076" aria-describedby="caption-attachment-26076" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26076" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-2.jpg" alt="Pôster do filme Macunaíma. Imagem retangular vertical, com fundo azul. Várias personagens do longa-metragem ocupam todo o cartaz. No centro, uma das versões do personagem Macunaíma olha para cima, de olhos fechados, abre os braços e exclama “Ai, que preguiça!” em um balão branco, típico de histórias em quadrinhos. Uma personagem indígena o abraça. Embaixo de Macunaíma, um homem exclama, por meio de outro balão branco, “Tá gostoso, coração, tá?”. Cobrindo as partes íntimas do protagonista, há uma faixa branca na qual se lê Macunaíma em letras verdes. Na parte inferior do pôster, lemos os créditos do filme. " width="600" height="889" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-2.jpg 600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-2-540x800.jpg 540w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26076" class="wp-caption-text">Pôster do filme Macunaíma, de 1969, baseado no livro de Mário de Andrade e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade (Foto: Difilm/Filmes do Sêrro/Memórias da Ditadura)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">De fato, são muitas as questões que podem ser levantadas a partir de um único poema. Há defesas recentes, por exemplo, de que o Modernismo e o Parnasianismo </span><a href="https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/parnasianismo-brasileiro-e-ensinado-nas-escolas-como-o-modernismo-em-negativo-90053/#:~:text=Em%20tal%20narrativa%2C%20de%20natureza,po%C3%A9tica%20pedante%2C%20alienada%20e%20obsoleta."><span style="font-weight: 400;">não são ensinados da melhor maneira possível</span></a><span style="font-weight: 400;"> nas escolas brasileiras, sendo limitados a movimentos culturais opostos. Por outro lado, poderíamos imaginar que, por mais que as Artes não tenham a obrigação de reproduzir a realidade vigente, espera-se que elas reflitam minimamente um espírito de época &#8211; e, talvez, pela perda gradual disso, o Parnasianismo estivesse realmente ultrapassado quando os modernistas ganharam força.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Praticamente inquestionável, no entanto, é a percepção de que, </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/100-anos/"><span style="font-weight: 400;">100 anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> após ser declamado, o poema </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> continua atual quando queremos abordar o ainda existente apego a diferentes regras para definir o que é bom ou não dentro do ramo cultural. É possível inclusive suspeitar que, nos dias de hoje, muitos atos dos modernistas </span><a href="https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2022/02/07/praia-intervencao-que-propoe-quebra-de-padroes-de-corpos-causa-polemica-nasredessociais-em-juiz-de-fora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">causariam verdadeiros escândalos</span></a><span style="font-weight: 400;"> nesta nação. Para os inconformados, restariam as famosas palavras de Caetano Veloso, </span><a href="https://open.spotify.com/track/4zTjoiwEMmgQICf4krcDMc?si=6084309fa2e74f6f"><span style="font-weight: 400;">discursadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 1968: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada.</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, este texto não seria tão completo sem a leitura de excelentes análises e comentários, como os escritos por Rebeca Fuks, Cleonice Machado e Emmanuel Santiago &#8211; todos disponíveis em </span><i><span style="font-weight: 400;">hiperlinks </span></i><span style="font-weight: 400;">ao longo dos parágrafos deste artigo. Em acréscimo, mesmo que esta nova reflexão não traga tantas novidades, buscar entender o que, de certa forma, antecipou a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/semana-de-22/"><span style="font-weight: 400;">Semana de 1922</span></a><span style="font-weight: 400;">, além das características essenciais à primeira geração modernista já presentes em </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;">, serão sempre duas atitudes muito válidas. E, no meu caso, é uma forma bem particular de rememorar experiências vividas ao lado de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/10/mortes-cativante-e-genial-despertou-nos-alunos-o-amor-pelos-livros.shtml"><span style="font-weight: 400;">uma grande mestra</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>O folclore sou eu: Heitor Villa-Lobos e a Música Modernista</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Feb 2022 19:10:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Na Semana de 1922, o maestro já demonstrava seu esforço em trazer elementos do folclore brasileiro à Música Clássica Bruno Andrade No dia 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, o público acomodou-se de forma lenta e espaçada, aguardando a apresentação de um músico carioca, tido como o mais conceituado da &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/heitor-villa-lobos-e-a-musica-modernista-artigo/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O folclore sou eu: Heitor Villa-Lobos e a Música Modernista"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Na Semana de 1922, o maestro já demonstrava seu esforço em trazer elementos do folclore brasileiro à Música Clássica</em></p>
<figure id="attachment_26040" aria-describedby="caption-attachment-26040" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26040 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1.jpg" alt="Foto em preto e branco do maestro Heitor Villa-Lobos. Na foto, Heitor Villa-Lobos está sentado em um piano, com a mão direita sobre as teclas, inclinado à lateral, com a cabeça virada para a direita. Ele está com um charuto na boca. Villa-Lobos é um homem branco, veste um terno de cor cinza com listras de cor branca e possui cabelos pretos e lisos com mechas grisalhas. O piano é de cor preta." width="1500" height="1000" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26040" class="wp-caption-text">Tido como o principal musicista da Semana de Arte Moderna, Heitor Villa-Lobos teve repercussão internacional, marcando-o como o maior maestro e compositor clássico brasileiro (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, o público acomodou-se de forma lenta e espaçada, aguardando a apresentação de um músico carioca, tido como o mais conceituado da </span><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/02/11/semana-de-arte-moderna-de-22-reportagens-e-documentarios-mostram-legado-do-movimento-cultural-em-sao-paulo-e-no-brasil.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Semana de Arte Moderna</span></a><span style="font-weight: 400;"> e um dos maestros brasileiros mais promissores já à época do evento. O musicista fazia parte de três dias da programação da Semana, e, ao ser convidado para integrá-la, estava às vésperas de completar 35 anos. Para sua estreia no palco paulistano, ele selecionou o que de mais representativo havia produzido em </span><a href="https://souzalima.com.br/blog/o-que-e-musica-de-camara/"><span style="font-weight: 400;">música de câmara</span></a><span style="font-weight: 400;"> nos anos anteriores. Não demorou para que o compositor, vestindo casaca e calçando, em um pé, sapato, e, no outro, chinelo, surgisse no palco, seguido por vaias e urros de negação. A plateia havia interpretado o uso do chinelo como puro desrespeito; aparentemente, era apenas um machucado no dedão – mas pode bem ser que não fosse. De qualquer forma, o espetáculo pôde enfim começar: </span><a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa11902/heitor-villa-lobos"><span style="font-weight: 400;">Heitor Villa-Lobos</span></a><span style="font-weight: 400;"> chegou.</span></p>
<p><span id="more-26038"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascido em 5 de março de 1887, no Rio de Janeiro, Villa-Lobos teve sua consagração através de um esforço em integrar elementos nacionalistas e ritmos ligados à cultura afro-brasileira e indígena, jogando luz a uma faceta da cultura nacional que muitas vezes mantinha-se à margem dos musicistas clássicos. Em suas obras maiores, atingiu um tom ufanista, e misturou complexos padrões rítmicos da Música brasileira com multi-tonalidade, influenciado por </span><a href="https://www.concerto.com.br/noticias/arquivo/acervo-concerto-vida-de-igor-stravinsky"><span style="font-weight: 400;">Stravinsky</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://musicabrasilis.org.br/temas/darius-milhaud-no-brasil"><span style="font-weight: 400;">Milhaud</span></a><span style="font-weight: 400;">. Assim, combinou elementos da Música popular e da tradição musical europeia, impulsionando, invariavelmente, o Brasil na rota da Música Clássica do século XX.</span></p>
<figure id="attachment_26041" aria-describedby="caption-attachment-26041" style="width: 1197px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26041 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2.jpg" alt="Foto em preto e branco do maestro Heitor Villa-Lobos. Na foto, Heitor Villa-Lobos está regendo uma orquestra. Na mão direita, segura uma batuta de maestro, de cor branca, enquanto a mão esquerda faz um gesto de regência. Ele está vestindo um terno de cor preta. Villa-Lobos é um homem branco, e possui cabelos pretos com mechas grisalhas, em decorrência do tempo. O fundo da imagem é preto." width="1197" height="1266" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2.jpg 1197w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2-756x800.jpg 756w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2-968x1024.jpg 968w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2-768x812.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26041" class="wp-caption-text">Villa-Lobos contrariou a vontade de sua mãe ao entrar na escola de Música, pois seu desejo era que ele se tornasse médico (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Falar de Villa-Lobos apresenta algumas dificuldades elementares, visto que sua vasta produção musical possui mais de mil obras, e algumas </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/pesquisador-encontra-obra-de-villa-lobos-dos-anos-1930-considerada-perdida/"><span style="font-weight: 400;">sequer foram executadas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ao mesmo tempo, mistura-se às dificuldades encontradas em analisar a Semana de Arte Moderna, como a ausência de documentos sobre o evento e a forma destoante que foi interpretado pela sociedade. Durante a Semana, o músico se apresentou em três dias (13, 15 e 17), cujo </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60321269"><span style="font-weight: 400;">episódio marcante</span></a><span style="font-weight: 400;"> – em que surgiu no palco calçando um chinelo solitário – ocorreu somente no terceiro dia de apresentações, com a sala do Theatro Municipal mais vazia que nos dias anteriores. O jeito irreverente do compositor – era chamado pejorativamente de </span><i><span style="font-weight: 400;">“Vira-Loucos” </span></i><span style="font-weight: 400;">– põe em dúvida a existência da possível lesão no pé, mas de nenhuma forma descarta a possibilidade. Ilustra, porém, muito da personalidade de Villa-Lobos: ele foi a junção do popular e do erudito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seu pai, Raul Villa-Lobos, foi um bibliotecário e músico amador, que deu o pontapé inicial para introduzir o filho à Música Clássica, após perceber seu talento natural. Aos 6 anos de idade, Heitor já havia aprendido a tocar clarinete e violoncelo, sob supervisão do pai. Não muito tempo depois, quando o futuro maestro tinha apenas 12 anos, Raul faleceu, vítima de malária. Concomitante à morte paterna, a mãe de Villa-Lobos, Noêmia, instituiu regras bastante claras contra os interesses musicais do filho, e declarou que ele deveria se tornar médico. A História diz que, após Villa-Lobos ser proibido de tocar violão – outra de suas paixões –, passou a fugir pela noite para frequentar as rodas de </span><a href="https://musicabrasilis.org.br/temas/choro"><i><span style="font-weight: 400;">choro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (nesse caso, além da proibição imposta na casa, havia também o preconceito, visto que a Música popular ainda tinha a pecha de ser dominada pelas classes mais baixas), e aprimorou-se silenciosamente no instrumento, o qual mantinha escondido embaixo da cama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das milhares de composições de Heitor Villa-Lobos, destacam-se as 11 sinfonias, três óperas e 18 peças para quarteto de cordas, criadas sob influência do </span><i><span style="font-weight: 400;">choro</span></i><span style="font-weight: 400;"> – ou </span><i><span style="font-weight: 400;">chorinho </span></i><span style="font-weight: 400;">–, gênero de Música popular e instrumental, com origem carioca em meados do século XIX, cuja personalidade de maior renome foi </span><a href="https://ims.com.br/titular-colecao/pixinguinha/"><span style="font-weight: 400;">Pixinguinha</span></a><span style="font-weight: 400;"> (1897-1973). Ele também compôs nove obras intituladas </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EqCj0gkbBMs&amp;ab_channel=CulturaOccidentale"><i><span style="font-weight: 400;">Bachianas Brasileiras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, entre 1930 e 1945, que combinam as influências da Música brasileira e do neo-barroco, especialmente de </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/21/cultura/1553148804_091725.html"><span style="font-weight: 400;">Johann Sebastian Bach</span></a><span style="font-weight: 400;">, como seu título sugere. Nessas </span><a href="https://classicos.mus.br/generos.htm"><span style="font-weight: 400;">suítes</span></a><span style="font-weight: 400;">, Villa-Lobos fundiu de forma intensa material folclórico brasileiro – em especial a </span><a href="https://musicalidades.com.br/diferenca-musica-caipira-e-sertaneja/"><span style="font-weight: 400;">música caipira</span></a><span style="font-weight: 400;"> – à elementos clássicos, transformando esse trabalho em uma de suas principais obras. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=KTKVgaY56NI&amp;ab_channel=Osesp-OrquestraSinf%C3%B4nicadoEstadodeS%C3%A3oPaulo"><i><span style="font-weight: 400;">O Trenzinho Caipira</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, parte final das </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=A_KjasIEtC0&amp;ab_channel=Villa-LobosChannel"><i><span style="font-weight: 400;">Bachianas No. 2</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, é um de seus trabalhos mais populares.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bachianas Brasileiras No. 4 • Villa-Lobos • São Paulo Symphony Orchestra" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/IKjCiENbWoU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de sua apresentação na Semana de Arte Moderna – e uma estadia em Paris, de 1923 a 1925 –, sua música sofreu mudanças significativas. Na França, Villa-Lobos encontra uma vanguarda musical que contesta as ideias de </span><a href="https://classicosdosclassicos.mus.br/compositores/claude-debussy/"><span style="font-weight: 400;">Claude Debussy</span></a><span style="font-weight: 400;"> – Darius Milhaud faz parte desse grupo –, cujo interesse cultural estava lentamente transicionando para o surrealismo e o extravagante, o que influenciou o músico a apostar em formatos distantes do conservadorismo que dominava as composições clássicas. Um instrumento que ganhou destaque em muitas realizações do músico pós-Semana</span> <span style="font-weight: 400;">foi o saxofone. Ele próprio tocava clarinete e eventualmente tocava o sax. Um de seus amigos de infância, </span><a href="https://musicabrasilis.org.br/compositores/anacleto-de-medeiros"><span style="font-weight: 400;">Anacleto de Medeiros</span></a><span style="font-weight: 400;">, foi um exímio saxofonista, colaborando em muitos dos trabalhos de Villa-Lobos, os quais resultaram em uma quantidade considerável de música de câmara para o instrumento, além de obras orquestrais, como a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9PbQtnubBvM&amp;ab_channel=WelleszTheatre."><i><span style="font-weight: 400;">Sinfonia No. 4</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a qual pede um quarteto de saxofones.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, embora fosse importante para Villa-Lobos, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8mFKTOQ9LLw&amp;ab_channel=Villa-LobosChannel"><i><span style="font-weight: 400;">Fantasia</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">para saxofone soprano e pequena orquestra</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é seu único trabalho </span><i><span style="font-weight: 400;">solo</span></i><span style="font-weight: 400;"> para o instrumento. A obra foi composta em 1948, e dedicada ao saxofonista francês Marcel Mule, o qual Villa-Lobos conheceu ainda em Paris. A composição foi iniciada em Nova York mas concluída somente no Rio de Janeiro, ao final daquele ano. Mule nunca chegou a tocar </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantasia</span></i><span style="font-weight: 400;">, alegando dificuldades devido a tonalidade exigir notas fora da </span><a href="https://souzalima.com.br/blog/o-que-e-tessitura/"><span style="font-weight: 400;">tessitura</span></a><span style="font-weight: 400;"> do saxofone. Foi, portanto, Waldemar Szpilman, um saxofonista polonês que se mudou para o Brasil em 1925, que estreou a obra como solista, no Rio de Janeiro, em 1951. Um fato curioso é que Waldemar era primo de </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/wladyslaw-szpilman-incrivel-historia-real-por-tras-de-o-pianista.phtml"><span style="font-weight: 400;">Władysław Szpilman</span></a><span style="font-weight: 400;">, o pianista que de forma milagrosa sobreviveu em Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial, como relatado nas memórias que originaram </span><a href="https://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/analise-perseguicao-aos-judeus-atraves-filme-pianista.htm"><i><span style="font-weight: 400;">O Pianista</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2002), filme que rendeu o </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-vencedores-do-oscar-2021/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">de Melhor Ator para </span><a href="https://personaunesp.com.br/pepequeno-critica/"><span style="font-weight: 400;">Adrien Brody</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mas o mais interessante é que, paradoxalmente, após a viagem à França, Villa-Lobos entende que precisa deixar de lado as influências francesas, vistas com muito esmero pela aristocracia brasileira à época – as </span><i><span style="font-weight: 400;">Bachianas </span></i><span style="font-weight: 400;">surgem daí, num esforço em apontar Bach no cenário folclórico brasileiro.</span></p>
<figure id="attachment_26043" aria-describedby="caption-attachment-26043" style="width: 1772px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26043 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3.jpg" alt="Foto em preto e branco do maestro Heitor Villa-Lobos. Na foto, Heitor Villa-Lobos está olhando diretamente para a câmera, com seu rosto apoiado em sua mão esquerda. Na mão, há um anel de cor cinza em seu dedo mindinho. Ele está com um charuto de cor cinza na boca, e veste uma camisa social de cor branca. Villa-Lobos é um homem branco, e possui cabelos pretos e lisos com mechas grisalhas, em decorrência do tempo." width="1772" height="1215" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3.jpg 1772w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-800x549.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-1024x702.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-768x527.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-1536x1053.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-1200x823.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26043" class="wp-caption-text">5 de março é oficialmente o Dia Nacional da Música Clássica, em homenagem a Heitor Villa-Lobos (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro personagem musical relevante na Semana de Arte Moderna – naturalmente ofuscado por seu trabalho de poeta e romancista –, foi </span><a href="https://www.amazon.com.br/Macuna%C3%ADma-Her%C3%B3i-Sem-Nenhum-Car%C3%A1ter/dp/6586490472/ref=asc_df_6586490472/?tag=googleshopp00-20&amp;linkCode=df0&amp;hvadid=379715911398&amp;hvpos=&amp;hvnetw=g&amp;hvrand=8134830901215436604&amp;hvpone=&amp;hvptwo=&amp;hvqmt=&amp;hvdev=c&amp;hvdvcmdl=&amp;hvlocint=&amp;hvlocphy=9100699&amp;hvtargid=pla-1785663324432&amp;psc=1"><span style="font-weight: 400;">Mário de Andrade</span></a><span style="font-weight: 400;"> (1893-1945). Além de escritor, Andrade foi musicólogo, crítico musical e um relevante compositor, atuando como professor de Música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP). Alguns de seus poemas, em especial os da coletânea </span><a href="https://www.infoescola.com/livros/pauliceia-desvairada/"><i><span style="font-weight: 400;">Paulicéia Desvairada</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1922), desenvolvem-se com a utilização livre das métricas, e, por conseguinte, traçam certos ideais musicais, visto que se desprendem da estrutura formal a qual vinha sendo produzida a poesia brasileira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alinhado com Villa-Lobos, o escritor defendia que a pesquisa do </span><a href="https://personaunesp.com.br/cidade-invisivel-critica/"><span style="font-weight: 400;">folclore brasileiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> deveria ser a principal fonte temática e técnica dos músicos eruditos – pelo menos daqueles que se propunham a criar uma música </span><i><span style="font-weight: 400;">verdadeiramente</span></i><span style="font-weight: 400;"> brasileira</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, ambos os autores ganharam notoriedade como os principais integrantes da Semana que vislumbraram um novo projeto de cultura nacional através da Música.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O folclore, na concepção mais ou menos uniforme desses autores, manifesta-se como o conjunto de relações que se originam de provérbios, histórias, danças e junção das religiões, além de elementos da música de rua. Não seria absurdo afirmar que, no fundo, a ideia defendida por Villa-Lobos e Mário de Andrade era a de que a cultura popular deveria ser o principal motor de identificação artística dos brasileiros, deixando em segundo plano as referências internacionais. Estendendo ao todo, essa também foi uma reivindicação dos demais </span><a href="https://www.todamateria.com.br/modernismo-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">modernistas</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bachianas Brasileiras No. 1 • Villa-Lobos • Berlin Philharmonic" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/R0us7Zof_a0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Villa-Lobos demorou a ser consenso, e uma parcela da crítica interpretou as referências folclóricas de suas obras como apropriações; à época, esses críticos não estavam preocupados com as questões identitárias imprescindíveis a acusação, mas tinham o intuito de apontar uma falta de originalidade do compositor. Para </span><a href="http://osesp.art.br/ensaios.aspx?Ensaio=25"><span style="font-weight: 400;">Leopoldo Waizbort</span></a><span style="font-weight: 400;">, professor do Departamento de Sociologia da USP, Heitor Villa-Lobos não incorporou apenas elementos indígenas em suas composições, mas também os defeitos de gravação registrados nos </span><a href="https://amar.art.br/fonogramas-o-que-e-como-cadastrar/"><span style="font-weight: 400;">fonogramas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Dessa forma, não seria a música indígena que estaria sendo reproduzida, mas havia, sim, algo criado a partir dela. Aí encontra-se a originalidade: a partir de elementos folclóricos, obras totalmente novas foram concebidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No documentário </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3WNDf03560c&amp;t=1518s&amp;ab_channel=fabianoborges"><i><span style="font-weight: 400;">Villa-Lobos: O Índio de Casaca</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1987), dirigido por Roberto Feith e produzido pela Rede Manchete, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tlp8iY4g--4&amp;list=RDEMaSNlR4D39GSTw_9snvHBGQ&amp;start_radio=1&amp;ab_channel=AntonioCarlosJobim-Topic"><span style="font-weight: 400;">Tom Jobim</span></a><span style="font-weight: 400;"> aparece reverenciando Villa-Lobos e demonstrando seu débito com o maestro. Nos trechos, Jobim relata os encontros que manteve com o compositor em sua residência, nos quais observava suas produções caóticas, sempre cercado por barulhos diversos – dos sons altos que saiam da TV aos músicos que ensaiavam na sala da casa. Não é difícil entender que, para Villa-Lobos, os ruídos internos e externos seguiam por caminhos diferentes, e, talvez, fossem unificados somente no resultado final de suas obras. Em seus últimos anos, Heitor Villa-Lobos consolidou-se como uma figura de importância na divulgação da Música, e seu projeto orfeônico de educação musical, iniciado ainda nos 1930, não terminou com sua morte.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As partituras de Villa-Lobos revelam que, além da preocupação com uma identidade nacional, mantinha-se uma inquietação quanto aos procedimentos que se tornavam acadêmicos, destituídos de significação para a música cotidiana. Um dos legados do maestro foi introduzir, na Música Clássica brasileira, uma ruptura, na qual foram promovidas ideias revolucionárias que, à época, soaram absurdas. Esse rompimento foi totalmente absorvido pelos movimentos contraculturais no Brasil, em especial o </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/tropicalismo.htm"><span style="font-weight: 400;">Tropicalismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Seus ideais foram tão difundidos que é difícil não enxergar Villa-Lobos em toda a Música brasileira – ele está na </span><a href="https://personaunesp.com.br/maria-rita-elo-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">MPB</span></a><span style="font-weight: 400;">, na </span><a href="https://personaunesp.com.br/infinito-particular-e-universo-ao-meu-redor-15-anos/"><span style="font-weight: 400;">Bossa Nova</span></a><span style="font-weight: 400;">, e até nos atos de revolta de bandas de </span><a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/musica/noticia/2016/06/em-show-dado-villa-lobos-interpreta-obras-de-seu-tio-avo-5860657.html"><i><span style="font-weight: 400;">rock </span></i><span style="font-weight: 400;">nacionais</span></a><span style="font-weight: 400;"> (considerando, também, que o musicista possui uma extensa composição para instrumentos de corda, inclusive o violão). </span><span style="font-weight: 400;">No entanto, a maneira mais fácil de prestar homenagem a Villa-Lobos é imaginar o quanto o Brasil teria sido mais pobre sem ele.</span></p>
<figure id="attachment_26044" aria-describedby="caption-attachment-26044" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26044 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-4.jpg" alt="Foto em preto e branco do maestro Heitor Villa-Lobos. Na foto, Heitor Villa-Lobos está sentado em um piano, tocando-o com as duas mãos. Ele está com um charuto na boca. Villa-Lobos é um homem branco, veste um roupão de cor preta, e possui cabelos pretos e lisos com mechas grisalhas, em decorrência do tempo. O piano é também de cor preta. " width="1000" height="661" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-4.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-4-800x529.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-4-768x508.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26044" class="wp-caption-text">Em 1945, Heitor Villa-Lobos fundou a Academia Brasileira de Música, sendo também o primeiro presidente da instituição (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma viagem à Europa, ao ser questionado sobre as </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=flqxy_ccU84&amp;ab_channel=IREETV"><span style="font-weight: 400;">influências folclóricas</span></a><span style="font-weight: 400;"> em suas obras, Villa-Lobos respondeu, impaciente: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu não uso o folclore, eu sou o folclore.” </span></i><span style="font-weight: 400;">Essa afirmação aponta dois caminhos possíveis de interpretação: 1) como compositor brasileiro motivado pela criação de uma identidade cultural, sua própria história se entrelaça com a do folclore nacional, e suas obras podem ser vistas como continuações da cultura popular; 2) Villa-Lobos foi tão grande e inigualável a ponto de fazer, ele próprio, parte dos mitos que circundam o folclore brasileiro. Levando em conta o senso de humor característico do maestro e os motivos pelos quais refletimos sobre o seu legado 100 anos depois de sua apresentação na Semana de Arte Moderna, é bem provável que fosse a segunda opção.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Heitor Villa-Lobos e a Música Modernista" width="100%" height="380" style="[object Object]" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/4L2dTHIhb8jIUsSMphfYrc?si=4e530401b91740ee&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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